Hoje deu vontade de escrever…tinha dado uma parada, pois precisava segurar um pouco alguns ressentimentos não tão bem resolvidos como eu gostaria que fosse, mas deixemos estas coisas para lá, afinal de contas, hoje é Natal

Natal, pra mim, era a reunião da família. Como minha família era estruturalmente “doidona”, já que meu pai de fato era meu avô e minha mãe de fato era a empregada da minha avó, e o resto meio que tentava “impor” seus papéis perante mim, o gostoso mesmo era quando a primaiada vinha. Foi nascendo um, outro, e a galera aumentava cada vez mais. Era muito legal ter umas 20, 30 pessoas na minha casa. Era primo, primo do primo, filho do tio que não é seu primo… mas eram pessoas com as quais tínhamos amizade, e realmente rolava uma química boa. Quantas vezes não passávamos a tarde inteira jogando Imagem e Ação, Master e outros jogos? Que tempo bom, que não volta nunca mais, como diria aquele rap (acho que é Thaide & DJ Hum…bom, isto é melhor meu amigo Carlos me falar, ele é que manja de rap, meu negócio é rock clássico…)

Hoje, mais de 20 anos depois, muita gente se foi, muita gente se afastou, e o que sobrou, da minha família, sendo ela de coração ou não, foi minha mãe e minha MÃE. A minúscula é a biológica, a maiúscula é a de coração. Gostaria de ter passado o Natal com meus primos, como tem sido desde que meu pai se foi, mas não aceito a presença de uma certa biscatinha que deu um golpe de mestre no meu primo, que tem um coração de ouro e caiu direitinho…então, preferi, este ano, fazer a ceia na minha casa.

E eu nunca poderia imaginar como seria gostoso. Porque os sobrinhos-netos da minha MÃE vieram para alegrar o ambiente. Com eles, voltei a ser criança…brinquei de carrinho de fricção, de carrinho de controle remoto, de Banco Imobiliário…vetei todo e qualquer programa televisivo até as 18h de hoje, pois queria sentir o que sentia nos meus tempos de criança: o bom astral do Natal.

Mas, no final das contas, por mais que as crianças alegrem o ambiente, fica aquela sensação de “como eu era feliz”, ainda que menor. Sensação que superamos por causa de uma simples fita VHS, de 1990. Era Dia das Mães, e meu pai estava com uma câmera daquelas que cabiam uma fita VHS normal emprestada de um amigo dele da época. Lá estavam meu pai, meu avô e minha avó. A cada aparição deles, em vez de chorar, eu sorria, como se eles estivessem ali, comigo, do meu lado. Eu até havia me esquecido do jeitão italianado de falar do meu avô, com uma baita voz grossa e falando “jorná”, “papé”, “animá”, “farta”…e da minha avó, que era super peituda, e, de sacanagem, pegava nos peitos dela (um de cada vez, senão ela podia ter alguma dor) e sacudia…e do meu pai, que deixou um grande vazio na minha vida. Muita coisa que dividia com ele hoje não tenho com quem dividir, e nem eram problemas. Nunca quis trazer problemas de fora para casa, a não ser que a situação fosse insustentável, mas sinto falta dos nossos papos bestas de futebol, conhecimentos gerais, histórias de vida…

Às vezes me sinto sozinho…às vezes sinto que só tenho minha MÃE…às vezes, que tenho as minhas mães. Mas nesta madrugada senti que não estava sozinho. Todos eles estavam aqui comigo, para, depois de muito tempo, me abençoar e me desejar um Feliz Natal.