Duas mulheres que são irmãs (ou criadas como irmãs); uma fica presa injustamente durante muito tempo enquanto a outra cuida de sua filha. Durante este tempo, a outra envenena a filha contra a mãe. Quando a mãe sai da prisão, começa o processo de reconquista da filha. Tudo isto é a trama de Dancin’ Days, novela de Gilberto Braga exibida em 1978, e todo mundo achava que A Favorita, 30 anos depois, seria um plágio descarado desta novela.
E ficou achando nos primeiros 70 capÃtulos, enquanto Donatela envenava Lara contra Flora, e esta tentava provar sua inocência para todos. Ledo engano. Enquanto Yolanda Pratini realmente envenava Marisa contra Júlia, Donatela falava a mais pura verdade para Lara, mas não era muito digna de confiança porque tem uma caracterÃstica que tira boa parte da credibilidade das pessoas: age sem pensar (e eu falo isto com propriedade, pois muitas vezes faço isto). Flora não era inocente porra nenhuma, ela matou seu amante com 3 tiros a sangue frio. Somando a impulsividade de Donatela e a frieza e esquizofrenia de Flora, esta conseguiu virar o jogo e acabou acusando sua rival e ex-companheira de dupla sertaneja pelo crime que cometera contra o amante, que era marido de Donatela. A partir de então, o autor João Emanuel Carneiro fez um jogo muito interessante com o público: este sabe de tudo, enquanto os personagens, tirando alguns chave, como o Seu Pedro, pai de Flora, são enganados. Era um recurso usado na pré-histórica O Direito de Nascer, e que foi sendo abandonado aos poucos, em favor de revelações bombásticas (como o tosco assassinato de Odete Roitmann, que broxou total o final de Vale Tudo) e “licenças dramáticas” mil (eufemismo pra forçada de barra).
É muito interessante ver a saga de Donatela para se livrar da polÃcia, apesar de esta trama estar atualmente em banho-maria, já que a heroÃna é dada como morta pela vilã, que acha que vai abafar, roubando tudo o que era da outra. Quem ganha é o núcleo de José Mayer, que estava meio perdidão na história.
Tenho que tirar o chapéu também para as duas atrizes protagonistas da trama. PatrÃcia Pillar não fazia um papel principal em uma novela desde O Rei do Gado, de 1996, e Cláudia Raia, desde Engraçadinha, de 1995. Enquanto Cláudia vem se desestigmatizando daquele rótulo de atriz cômica, sendo extremamente convincente em cenas muito difÃceis (coisa que muito crÃtico de TV metido a besta não quer admitir), PatrÃcia Pillar vem se livrando do rótulo de boa moça, papel que nem desempenhou tanto assim, mas que um dia achavam que ela era (quem se lembra da vagaba Eliana, de Renascer, da rebelde Ana Cláudia, de Brega & Chique e – por que não? – da Salomé, personagem-tÃtulo da novela, esquece deste negócio de boa moça rapidinho). O trabalho que ela faz com o olhar é uma coisa assustadoramente verdadeira. Escalação muito feliz do diretor Ricardo Waddington, que vem se especializando em fazer excelentes trabalhos com pouca audiência, como Pé na Jaca e A Favorita.
Aliás, audiência do Ibope é uma coisa bastante discutÃvel. A Favorita, por exemplo, repercute aqui em São Paulo muito mais do que a decadente Duas Caras repercutiu em sua época e, no entanto, dá menos audiência. Com tudo que o autor direcionou a novela na contramão do esperado, a novela, em São Paulo, é sucesso. E, por mais que alguns tenham dito que se afastaram da novela quando da revelação de que Flora era a assassina, é só perguntar o que tá acontecendo que todo mundo sabe.
Num outro post falarei mais desta novela, que vem prendendo a cada dia mais.

