Por Flávio Conrado
Este texto foi apresentado na mesa redonda CONFERÊNCIA DO NORDESTE – 45 ANOS DEPOIS, realizada no VI Fórum Popular de Reflexão Teológica de 15 a 17 de novembro de 2007, em Olinda, PE.
No meio evangélico em geral, e mesmo entre as novas gerações de cristãos comprometidos com as lutas sociais, se desconhece o significado e o valor da Conferência do Nordeste, experiência expressiva da Igreja evangélicabrasileira para pensar o lugar e o papel da igreja evangélica e dos cristãos no Brasil de hoje1.
Acredito que estamos num momento muito especial de redesco brir e recriar um protestantismo relevante para o contexto brasileiro. São muitas as articulações, os espaços, as redes, os fóruns, as publicações, que levantam a suspeita de que algo está acontecendo, emergindo aqui e ali, de um despertar consciente para um novo olhar sobre a contribuição que a Igreja Evangélica deve dar nesse momento da vida social e política do Brasil.
Nesse sentido, eu ouso afirmar que estaríamos vivendo numterceiro momento de reconstrução da visão de mundo do protestantismo brasileiro, ou seja, significa que estamos sendo desafiados substantivamente quanto aos nossos valores e estruturas que conformam nossa presença na sociedadebrasileira e quanto à nossa relação com o projeto de nação. O que eu quero dizer é que nós estamos redefinindo ou favorecendo o surgimento e consolidação de novas formas de responder às demandas da esfera social e política. Obviamente que essa reconfiguração religiosa também vai se conformando nos embates específicos que se dão no campo religioso na disputa por hegemonia. Por isso, essa reconstrução não se dá fora dos contornos em que estão postos os conflitos religiosos, políticos, sociais e culturais, mas interage com eles.
Quais foram, no Brasil, esses outros dois grandes momentos de reconfiguração da visão de mundo protestante? …clique aqui para ler mais
Em 1948, logo após a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) no pós-Segunda Guerra Mundial, foi proclamada a Declaração Universal de Direitos Humanos. Este ano haverá milhares de eventos e campanhas em todo mundo para celebrar os 60 anos do documento. A própria ONU preparou uma campanha para comemorar a data, sob o tema “Dignidade e Justiça para Todos”. A declaração, segundo a ONU, é o documento mais traduzido no mundo, existindo em mais de 360 idiomas. Sua vocação e alcance universais são indiscutíveis. Sendo de tal importância, faz-se necessário que os cristãos evangélicos promovam e aprofundem a reflexão sobre ele e sobre seu conteúdo. O que são direitos humanos? Há alguma relação entre os direitos humanos e a Bíblia? Seus princípios são compatíveis com os ensinamentos e a agenda de Jesus? Os cristãos devem se preocupar com esse assunto? A missão da igreja passa pela promoção dos direitos humanos?
Se “reevangelizar” significa semear o evangelho uma segunda ou terceira vez, parece não haver ferramenta melhor que a internet para disseminar com insistência e ubiqüidade. A proliferação de novos canais de comunicação — assim como a facilidade de acesso a esses canais — cria um ambiente que predispõe a formação, erudição e até persuasão dos usuários. Todavia, a mera democratização da informação nem sempre produz como resultado uma sociedade mais bem informada, pois dificilmente conseguimos valorizar a informação bruta que chega sem referência de veracidade, relevância ou contexto.
Há quarenta anos vivíamos o fim de um paradigma: a hegemonia das igrejas históricas no protestantismo no Brasil, e um “destino manifesto” civilizatório (protestantismo = democracia + progresso). O Estado Laico, os colégios inovadores, a ética do trabalho e do abandono dos vícios caminhavam juntos nessa construção, com os nossos intelectuais orgânicos e a ação aglutinadora da Confederação Evangélica. A “derrota dos comunistas”, em março de 1964, fora lida como resultado do Dia Nacional de Jejum e Oração liderado por setores “renovados” em 15 de novembro de 1963, que também abandonaram o seu passado e fizeram as pazes com o autoritarismo, cooptados pelo regime. Mais do que o adesismo de uma minoria de inocentes úteis, áulicos ou oportunistas, a ideologia que vivia a triunfar é a da alienação: “política não é lugar para crente”. A ideologia do “destino manifesto” civilizatório foi esquecida, desconhecida pelas novas gerações. Concentramo-nos em debates sobre o milênio e a tribulação, pois, quando não se atua neste mundo, se pensa no “outro” mundo. A construção de um pensamento evangélico latino-americano foi deixada de lado, pela importação de correntes teóricas e dos setores mais conservadores dos Estados Unidos. O evangelicalismo das missões viu triunfar o fundamentalismo.
Leitura Bíblica: 1ª Corintíos 12.1 a 11
O sentido de “contemporaneidade”
Nas décadas dos sessentas aos oitentas, a denominação batista enfrentou um problema muito sério: a influência da doutrina e da liturgia pentecostal. Livros foram escritos, teses foram produzidas, congressos foram realizados e muita discussão se deu ao redor deste tema. Parece-me, porém, que esta situação foi absorvida, após muita tensão. A maior parte dos crentes não está ligando muito para doutrina, mas para celebração. A questão doutrinária tem sido minimizada. E, quanto à liturgia, há igrejas batistas com liturgia mais ruidosa que a de muitas igrejas pentecostais. Não se pode, hoje, dizer que a forma de culto caracteriza a doutrina de uma igreja.