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23/12/2008 - 13:43

Cresce o risco de calote. Proteja as vendas a prazo

O seguro de crédito repõe as perdas em casos de falência, concordata e atraso de pagamento

Em tempos de crise, não é apenas o receio de vendas menores que assusta os empresários. O risco de inadimplência também é um fantasma. Uma empresa que deixa de pagar outra pode desencadear calotes em cascata. Dados da Serasa indicam que a inadimplência entre as pessoas jurídicas já vem crescendo. A pesquisa mais recente até o fechamento desta edição, referente a setembro, mostra que houve alta de 4,9% na comparação a agosto. Em relação a setembro do ano passado, o aumento foi de 13,1%.

Uma alternativa para evitar fazer parte dessas estatísticas é o seguro de crédito. Ainda pouco conhecida no Brasil, a modalidade serve exatamente para proteger empresas de maus pagadores. O seguro pode ser contratado para as vendas a prazo no mercado interno, assim como para as voltadas à exportação – mas são necessárias duas apólices distintas. Com o produto, a empresa pode acionar a seguradora se o cliente atrasar o pagamento, pedir concordata ou decretar falência.

O valor do seguro é calculado com base na estimativa das vendas a prazo que serão feitas ao longo do ano, usando como base o histórico da empresa para cada cliente e o banco de dados da própria seguradora. ‘É praticamente inviável fazer um seguro apenas para um contrato. É preciso comprá-lo para toda a carteira de clientes ou pelo menos a maior parte dela, incluindo quem sempre pagou em dia’, explica o advogado Dinir Salvador Rios da Rocha, especialista em direito securitário do escritório Azevedo Sette. As estimativas das vendas a prazo costumam ser revistas a cada três meses, assim como o valor do seguro.

O preço é um percentual do total das vendas anuais a prazo. A variação é grande – algo entre 0,1% e 2%. Para chegar ao valor a ser cobrado, leva-se em conta o histórico de inadimplência dos clientes, seus setores e, no caso das exportações, o chamado risco país (índice calculado por bancos de investimento). ‘Hoje é comum uma empresa de construção civil que exporta muito para os Estados Unidos pagar uma taxa em torno de 1,8%, por conta da grave crise imobiliária que afeta o país’, exemplifica Flávio Navarro, diretor da seguradora Crédito y Caución.

Pequenas correm mais risco

O valor ressarcido nunca é integral ao que deixa de ser pago. Geralmente varia entre 75% e 90%. Essa diferença funciona como uma franquia. Mas se a seguradora conseguir recuperar todos os bens vendidos e não pagos, por exemplo, nesse caso tudo é devolvido ao segurado. São poucas as seguradoras que oferecem seguro de crédito no Brasil. Além da Crédito y Caución, existem a Mapfre, a Euler Hermes e a Coface, todas estrangeiras. A JMalucelli, única brasileira, passou a oferecer essa modalidade de seguro no final do mês passado, mas só para vendas no mercado interno.

Daniel Nobre, diretor da Coface, disse que no Brasil o produto ainda é adotado praticamente só por grandes empresas. ‘Mas são as pequenas que correm maior risco, porque raramente têm uma área de análise de crédito para dar suporte à equipe de vendas’, diz. Em geral, a Coface faz contratos para coberturas de no mínimo R$ 6 milhões em vendas domésticas a prazo e de US$ 800.000 em exportações. Já a Crédito y Caución estabelece o mínimo de R$ 450.000 para o total de vendas anuais a prazo no mercado interno. A JMalucelli não estipula valor mínimo. Um dos principais pontos negativos do seguro de crédito, porém, é o prazo para recebimento da indenização – cerca de seis meses. ‘As pequenas empresas têm de avaliar, além do custo, se suportam essa espera’, ressalta o advogado Dinir da Rocha.

A empresa General Brands, de São Paulo, fabricante de sucos, adoçantes e pó para gelatina, aderiu ao seguro de crédito no início deste ano, após alguns clientes antigos não conseguirem honrar os pagamentos. Cerca de 5% do seu faturamento vêm das exportações e 60% das vendas ao exterior são a prazo, agora cobertas pelo seguro de crédito. ‘No nosso caso, que exportamos, é também uma questão de economia, porque sai mais barato do que obter uma carta de crédito’, afirma Robson Belo, assistente de exportação da General Brands. Ele cita como exemplo um contrato de exportação no valor de 173.000 euros, em que o cliente gastou 9.000 euros para conseguir uma carta de crédito com um banco internacional e a General Brands outros 2.000 euros – a carta de crédito é muito usada como garantia em operações de comércio exterior.

A importadora e distribuidora de papel Vivox, também de São Paulo, financia pelo menos 80% das suas vendas em até dois meses. Há três anos a companhia possui seguro de crédito e já precisou usá-lo uma dezena de vezes. ‘Conseguimos recuperar cerca de 80% do valor que deixaram de nos pagar’, diz Jorge Schön, diretor comercial da Vivox. ‘Ter o seguro também nos permite adotar uma postura de vendas mais agressiva’, diz.

Desde a intensificação da crise financeira internacional, a procura pelo seguro de crédito vem crescendo. Na Crédito y Caución, houve um aumento de aproximadamente 30%. Na Coface, de 40%. Com o maior risco de inadimplência, a tendência também é de alta no preço do seguro. ‘Em média, o mercado deve reajustar os preços entre 10% e 30%, dependendo do setor’, afirma Alexandre Malucelli, presidente do grupo JMalucelli.

Autora: Silvana Mautone – PEGN

Autor: data.fanning@ig.com.br - Categoria(s): Finanças Tags:


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