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30/09/2008 - 14:53

A nova onda do surfe

A história do surfe parece uma coleção de sucessivas ondas. Primeiro vieram os antigos reis havaianos, que começaram a surfar nas águas do Pacífico em rituais religiosos. Só eles e suas famílias podiam surfar em pé. Depois vieram os primórdios do esporte, praticado em longas pranchas de madeira de aproximadamente cinco metros de comprimento e 80 quilos de peso – chegar à areia nessa época já era uma aventura. Aos poucos, pranchas mais leves e menores foram surgindo. Até que elas aportaram no Brasil, juntamente com o biquíni e o rock and roll, nos idos dos anos 50, colorindo a praia do Arpoador, no Rio de Janeiro. O surfe tornou-se uma festa a arrastar, nos anos 60 e 70, garotos de cabelos longos e aloirados, adeptos da liberdade e amantes da natureza. Mas foi só nos anos 80, com a ascensão das confecções de moda surfwear, que os negócios em torno do surfe ganharam fôlego. Agora há algo novo nessa praia. O surfe conquistou um pessoal diferente: gente endinheirada das classes A e B, que simpatiza com a imagem saudável e o ideal de liberdade dos surfistas; gente que consome o surfe como idéia, mas na maioria das vezes nem pratica o esporte. A onda ficou tão forte que gerou até uma novela em torno do tema, Três Irmãs, da Rede Globo, no ar às 19h.

No folhetim, o surfista Sandro, vivido pelo ator Marcelo Novaes, conhece o potencial do setor ao abrir uma loja de roupas e uma oficina de pranchas na fictícia praia de Caramirim. Na vida real, o mercado do surfe movimenta cerca de R$ 30 bilhões por ano, de acordo com a Associação Européia da Indústria do Surfe, e somente no Brasil as estimativas apontam para vendas entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões, com crescimento anual de 10%. Um levantamento recente, feito entre maio e junho de 2008 pelo instituto de pesquisa Toledo & Associados para os organizadores do Festiv’Alma – maior do segmento no Brasil – mostra que apenas na cidade de São Paulo 945.000 pessoas consomem produtos e serviços ligados ao surfe, movimentando R$ 1,5 bilhão. “Ainda há 7,8 milhões de potenciais compradores só em São Paulo. Apesar de ser um segmento bastante explorado, o surfe é muito permeável a novas idéias e propostas e tem espaço para quem oferecer bons produtos aliados a bons serviços”, diz Romeu Andreatta, organizador do Festiv’Alma.

Entre os que se aventuraram no ramo estão o paulista Frederico Cerdeira e seu sócio Eduardo Rubin. Aos 36 anos, Cerdeira acumula duas décadas de experiência com as ondas e oito anos com a agência de turismo especializada The Surf Travel Company. Hoje com dez funcionários e uma média de 150 pacotes de viagem vendidos por mês, a agência nasceu da necessidade sentida pelos proprietários de um serviço especializado e de qualidade. “Na época, as empresas não tinham a preocupação de oferecer boa estrutura. Seguiam o estereótipo antigo do surfe, sempre buscando o mais barato em detrimento da qualidade”, afirma Cerdeira. O empresário diz que é mais difícil conquistar a clientela pela qualidade do que pelo preço, mas afirma que o trabalho de longo prazo valeu a pena. “De 2002 para cá, atendemos cerca de 6.800 clientes e a maioria comprou mais de uma viagem no período. O faturamento cresceu 18% e o número de pacotes vendidos subiu quase 23% entre julho de 2007 e julho deste ano.”

Para conquistar espaço, os então novatos firmavam parcerias com as organizações de campeonatos, oferecendo prêmios de viagem aos vencedores. Segundo Cerdeira, a estratégia foi fundamental para a decolagem do negócio, já que divulgou a agência e trouxe contatos importantes. Hoje, a The Surf Travel Company apóia também um projeto ambiental para a compensação dos gases de efeito estufa emitidos com os deslocamentos de seus passageiros.

O surfe em si e todo o mercado ao redor dele não existiriam sem seu principal produto: as pranchas. Aos 11 anos, Francisco José Chiarella, conhecido como Thyola, ganhou a sua primeira de presente do pai. Gostou tanto de surfar nas águas do Guarujá (SP), onde mora, que transformou o equipamento em negócio. Aos 56 anos, ele administra a Lightning Bolt, loja e oficina com oito funcionários onde o empresário fabrica e decora pranchas de surfe. Seus produtos, reconhecidos pelos trabalhos de arte feitos por Thyola, já foram exportados para países do mundo todo, “até para lugares que não têm mar”, como diz o empresário.

SIMPATIZANTES E AFINS
A cultura do surfe espalhou-se para além das praias, conquistando consumidores em todo o país. Confira o perfil
>>> 63% têm entre 21 e 40 anos
>>> 87% dos compradores, principalmente de moda surfe, não praticam o esporte
>>> 52% da clientela simpatizante é feminina
>>> 40% dos praticantes e 15% dos simpatizantes do surfe têm ensino superior completo
>>> 92% dos praticantes e 90% dos simpatizantes possuem acesso à internet banda larga
>>> 90% dos praticantes e 50% dos simpatizantes são das classes A-B
>>> O tíquete médio dos praticantes é de R$ 700 por ano e o dos simpatizantes chega a R$ 1.200
Fonte: Toledo & Associados

O cenário na Lightning Bolt mudou com a queda na cotação do dólar. As exportações caíram 60% e o faturamento médio chegou à casa atual de R$ 40.000 a R$ 50.000 por mês, com lucratividade de 15% a 20%. Thyola espera recuperar o terreno perdido ainda no segundo semestre deste ano. “Fechamos uma parceria para a aquisição de duas máquinas de R$ 150.000 cada uma para automatizar parte da produção. Nossa meta é crescer 100% até o fim do ano”, afirma.

As expectativas do empreendedor estão de acordo com a capacidade de crescimento do mercado em todo o país. Claudio Martins, dono de três websites sobre o esporte e organizador da feira de negócios Surf & Beach Show entre 1993 e 2006, explica que o potencial do surfe no Brasil é influenciado pelas características geográficas (8.000 quilômetros de costa), demográficas (população jovem e concentrada próximo ao litoral) e climáticas (temperaturas quentes em quase todo o ano na maior parte do território). Outro ponto que facilita a expansão do setor é que nem só de surfistas é feito o mercado consumidor. A maior parte dos usuários de artigos para surfe é formada por simpatizantes do esporte, não por praticantes.

A pesquisa da Toledo & Associados revelou que 87% dos compradores são apreciadores do estilo de vida representado pela cultura do surfe. E mais: os simpatizantes gastam em média R$ 1.200 por ano, enquanto os praticantes desembolsam cerca de R$ 700. Por isso, um dos segmentos mais promissores para empreender no surfe é a moda, consumida por qualquer um. Faltam dados mais recentes, mas sabe-se que, na área têxtil, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), a moda surfe respondia em 2005 por 4% da indústria brasileira, com faturamento de R$ 3 bilhões por ano. Nada mal.

O fundador da rede de franquias Star Point, Dimitrius Nassyrios, ou Tucano, como costuma se apresentar, vivenciou a explosão da moda surfe no Brasil a partir dos anos 80. Abriu sua primeira loja no bairro paulistano de Moema em 1982 e 16 anos depois reestruturou a empresa, trazendo para o país o conceito das lojas de surfe departamentalizadas por família de produtos (e não mais por marcas) que começavam a fazer sucesso nos Estados Unidos e na Austrália. “Já naquela época tinha o plano de franquear o meu negócio”, afirma Tucano. O projeto virou realidade em 2000 – hoje, são 25 franquias. O empresário não revela o faturamento, mas garante que a receita tem crescido cerca de 10% acima da inflação todos os anos.

Como o surfe deixou para trás a imagem de esporte praticado por jovens descompromissados e conquistou a admiração de tanta gente, criando um novo nicho econômico? Para Martins, da feira Surf & Beach, a explicação está no próprio estereótipo do praticante: a plasticidade do esporte é muito ligada à juventude, o surfista é visto como corajoso e até herói, os atletas estão sempre em forma e bronzeados, com aparência saudável, o esportista costuma ser relacionado a garotas bonitas, transmitindo sensualidade, além de o personagem ter sido um dos primeiros a levantar a bandeira da proteção ao meio ambiente. “A imagem do surfista tem características que o tornam uma máquina de vendas para qualquer tipo de produto. Hoje, vemos desde propaganda de carros até anúncios de celulares apoiados nela.”

ALÉM DA ARREBENTAÇÃO
Dicas de consultores para a sua empresa se destacar no rico e concorrido mercado do surfe
>>>Já existem cursos de vários níveis específicos sobre o setor. A formação acadêmica, aliada ao conhecimento do esporte e de sua cultura, ajuda as pequenas na concorrência com as grandes marcas>>> Busque experiências em países como EUA e Austrália, que têm tradição no esporte e onde surgem as principais inovações

>>> Aprimore os conhecimentos de inglês. Por ser um mercado baseado em uma cultura nascida e desenvolvida no exterior, é importante conseguir se comunicar em outras línguas

>>> Tenha na equipe funcionários ligados ao surfe. Conhecer bem o esporte é fundamental na criação de novos produtos e no atendimento aos clientes

>>> Aproxime-se das entidades do setor, patrocinando campeonatos e atletas ou apoiando projetos sociais e ambientais

>>> Se o seu público-alvo estiver nas classes A e B, agregue valor ao produto pela qualidade, para que ele não seja excessivamente massificado. Como o mercado do surfe vai da classe A à D, é preciso cautela para que a marca não seja muito popularizada

>>> Aposte na internet para criar uma concepção de marca inovadora e fazer ações promocionais diferenciadas. O mercado de surfe no Brasil ainda utiliza pouco os blogs e redes sociais (Orkut, Facebook, Flickr e YouTube, por exemplo), que permitem maior interatividade e proximidade com os consumidores

Flutuações
Uma das maiores forças do surfe dos anos 70 foi o carioca Ricardo Fontes de Souza, conhecido como Rico. Expoente brasileiro no esporte, vencedor de diversos campeonatos, Rico estreou na carreira de empreendedor ainda em 1976, fabricando pranchas. Na década seguinte, montou uma confecção para, no início dos anos 90, apostar na prestação de serviços na área do surfe. “É preciso mirar sempre nas oportunidades e flutuações do mercado. Eu costumo dizer que surfo na economia”, diz o empresário. Hoje, seus empreendimentos incluem a organização de eventos esportivos, a fabricação de pranchas, uma escola de surfe, um site na internet, um serviço de informações por telefone sobre as condições do mar e o quiosque de alimentação natural Rico Point na praia da Macumba, no Rio de Janeiro.

Segundo Claudia de Souza, mulher de Rico e responsável pelo quiosque, só o Rico Point cresceu cerca de 70% de 2007 para 2008. “Mas tocar o dia-a-dia não é fácil. É preciso manter os custos baixos, cercar-se de profissionais qualificados e cuidar para não inchar a infra-estrutura”, diz ela. Rico mantém, ainda, uma escola de surfe e de fabricação de pranchas para a população carente.

Para quem se anima e pretende investir no mercado do surfe, alguns conselhos: consultores e empresários do ramo são unânimes ao afirmar a necessidade de se criar um vínculo com o esporte, de reconhecê-lo como filosofia de vida e de entender a cultura ao redor dele. Também é essencial trabalhar junto à comunidade ligada ao surfe, seja patrocinando campeonatos e atletas ou apoiando projetos sociais e ambientais. “Pense em ter uma empresa que reverta parte do benefício conquistado para o desenvolvimento da modalidade. Como contrapartida, as pessoas do meio reconhecerão a iniciativa”, aconselha Maurício Ferro, organizador de uma das etapas brasileiras do campeonato mundial World Qualifying Series (WQS). Mais dicas? Confira o quadro “Além da arrebentação”.

Fonte: PEGN

Autor: data.fanning@ig.com.br - Categoria(s): Gestão de Negócios Tags:


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