ExtraÃdo do livro: “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo
“Eu tenho 15 anos
e sou morena e linda!
Mas amo e não me amam,
E tenho amor ainda:
E por tão triste amar,
Aqui venho chorar.
O riso de meus lábios
Há muito que murchou;
Aquele que eu adoro
Ah! foi quem o matou:
Ao riso, que morreu,
O pranto sucedeu.
O fogo de meus olhos
De todo se acabou,
Aquele que eu adoro
foi quem o apagou:
Onde houve fogo tanto
Agora corre o pranto.
A face cor de jambo
Enfim se descorou,
Aquele que eu adoro
Ah! foi quem o desbotou:
A face tão rosada
De pranto está lavada!
O coração tão puro
Já sabe o que é o amor,
Aquele que eu adoro
Ah! só me dá rigor:
O coração no entanto
Desfaz o amor em pranto.
Diurno aqui se mostra
Aquele que eu adoro;
E nunca ele me vê
E sempre o vejo e choro;
Por paga a tal paixão
Só lágrimas me dão!
Aquele que eu adoro
É qual o rio que corre,
Sem ver a flor pendente
Que à margem murcha e morre:
Eu sou a pobre flor
Que vou murchar de amor.
São horas de raiar
O sol dos olhos meus
Mau sol! queima a florzinha
Que adora os olhos seus:
Tempo é do sol raiar
E é o tempo de chorar.
Lá vem sua piroga
Cortando leve os mares,
Lá vem uma esperança
Que sempre dá pesares:
Lá vem o meu encanto,
Que sempre causa pranto.
Enfim abica à praia,
Enfim salta apressado,
Garboso como o cervo
Que salta alto valado:
Quando há de ele cá vir
Só pra me ver sorrir?…
Lá corre em busca de aves
A selva que lhe é cara,
Ligeiro como a seta
Que do arco seu dispara:
Quando há de ele correr
Somente pra me ver?
Lá vem do feliz bosque
Cansado de caçar,
Qual beija-flor que cansa
De mil flores beijar:
Quando há de ele, cansado
Descansar a meu lado?…
Lá entra para a gruta,
E cai na rude cama,
Qual flor de belas cores,
Que cai o pé na grama:
Quando há de nesse leito
Dormir junto a meu peito?
Lá súbito desperta,
E na piroga embarca,
Qual sol que, se ocultando
O fim do dia marca:
Quando hei de este sol ver
Não mais desaparecer?
Lá voa na piroga
Que o rasto deixa aos mares,
Qual sonho que se esvai
E deixa após pesares:
Quando há de ele cá vir
Pra nunca mais fugir?…
Oh bárbaro! tu partes
E nem sequer me olhaste?
Amor tão delicado
Em outra já achaste?
Oh bárbaro! responde
Amor como este, aonde?
Somente pra teus beijos
Te guardo a boca pura;
Em que lábios tu podes
Achar maior doçura?…
Meus lábios, murchareis,
Seus beijos não tereis!
Meu colo alevantado
Não vale teus abraços?…
Que colo há mais formoso,
Mais digno de teus braços?
Ingrato! morrerei…
E não te abraçarei.
Meus seios entonados
Não podem ter valia?
Desprezas as delÃcias
Que neles te oferecia?
Pois hão de os seios puros
Murcharem prematuros?
Não sabes que me chamam
A bela do deserto?…
Empurras para longe
O bem que te está perto?…
Só pagas em rigor
As lágrimas de amor?…
E, se amanhã vieres,
Em pé na rocha dura
‘Starei cantando aos ares
A mal paga ternura…
Cantando me ouvirás,
Chorando me acharás!…
Ingrato! ingrato! foge…
E aqui não tornes mais,
Que, sempre que tornares,
Terás de ouvir meus ais:
E ouvir queixas de amor,
E ver o pranto de dor!…”