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25/11/2011 - 00:56

PÉ-DE-PEIXE

O peixe estava gostando tanto da brincadeira que eu fazia com ele. Eu corria atrás dele com a minha mão e  fazia ele pular da minha mão pra água um  monte de vezes.

A minha mãe veio correndo e disse “você gostaria que alguém fizesse isso com você?”. Ué, pensei, eu gostaria. Ela explicou que os peixes de aquário são fraquinhos e  não podem ficar saindo da água tanto assim, que eles têm medo da gente. Eu duvido um pouco que eles tenham medo de mim, eu nem faço nada de mal pra eles, só brinco. Mas eu  entendi, eles são muito pequenos. Então eu comecei a achar peixe vivo meio chato, a gente só pode ficar olhando?

Aí o peixe morreu no outro dia, igualzinho a minha mãe falou que ia acontecer. Estava lá boiando bem tranquilo de barriga pra cima. Fui lá mexer com ele,  minha mãe veio de novo dizendo que não pode mexer, por que ele morreu. Se ele tá vivo, não pode mexer, se ele tá morto não pode mexer. Não pode fazer nada.

Bom, aí eu perguntei o que a gente ia fazer com aquele peixe:

Mãe, o que nós vamos fazer com o peixe? Mãe, eu posso cortar o peixe pra ver dentro da barriga dele? Mãe, vamos fritar o peixe? Nossa mãe, dá dó fritar o peixe, né? Mãe, e se eu ficar com saudade do peixe? Mãe, posso deixar o peixe aí dentro do aquário só pra ficar olhando, sem mexer nele? O que acontece se eu deixar o peixe aí dentro só pra enfeitar? Mãe, se cortar o peixe vai doer? Como eu sei se esse peixe gostava de mim? Mãe, como você sabe que o peixe tá morto de verdade, hein mãe? Mãe…

Nossa, a minha mãe ficou tão nervosa, falou p’reu ficar quieto e parar de perguntar tanta coisa! Ela ficou brava mesmo!

Ela sempre pergunta mil coisas pra mim, quando eu volto da escola também. Viu como é chato ficar peguntando tanto?

Ela me faz tantas perguntas, nem dá tempo de inventar nada pra responder. Ela quer que eu conte tudo bem completo mesmo. Ela não gosta quando eu responda só: Bom.

Eu não sei o que é pra responder, eu nunca acerto a resposta que ela quer.

Mas aí, ela disse que tinha que enterrar o peixe. Que esquisito, se ele tivesse no rio, quem ia enterrar? Eu fiquei pensando se ele não ia sentir falta de ar, ou ia ficar apertado com terra em cima. Será que eu posso desenterrar? E se ele desmorrer? Pensei um monte de coisas, mas nem perguntei nada, por que ela ia ficar brava de novo, é melhor ficar sem saber. E ela nem vai saber responder, ela nem é peixe, nunca foi peixe, nunca brincou de ser peixe pra saber de peixe.

Eu acho meio bobo a gente enterrar o peixe, acho melhor plantar o peixe. Pegar peixe na árvore é mais fácil que pescar no rio.

De agora em diante, só vou pedir pra minha mãe comprar peixe morto no mercado pra poder brincar. Peixe morto não morre.

*créditos: Jorginho filósofo de peixes e Pedro, o Rufus dono do pé-de-peixe

Autor: marinamiyazaki@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags:
17/08/2011 - 13:30

PALAVRAS, PERFUMES E SENTIMENTOS

Outro dia eu senti um cheiro muito bom que eu já conhecia. Era o perfume de uma flor, da minha flor. Mesmo as que estão em outros jardins são minhas, mas isso é um segredo. E o nome da flor é Macaná Manacá, não é o Manacá da Serra, aquele grande e metido sem perfume, estou falando do pequeno.

O cheiro é um botão que liga um filme na cabeça e faz lembrar um mooonte de coisas. E eu descobri que tudo tem cheiro, menos as palavras que estão no dicionário. Quando eu procuro uma palavra no dicionário, eu acho chato, infinito chato, por que ele só mostra um o significado da palavra. Sabem o que estava escrito do Manacá?

Manacá – “arbusto solanáceo (brunfelsia hopeana), muito apreciado como ornamental para jardins e praças, indo a corola de esbranquiçada a azul…”

Eu achei uma coisa tão sem graça, esse jeito de falar do Manacá. Mas eu achei tão chato, tão chato, tão injusto.

Por que não escrevem a verdade? Que é uma flor linda, roxa, vai ficando lilás e depois branca, então o pé fica com todos os tons do lilás, espalha um cheiro perfume forte que vai longe e para dentro de casa. E nunca esquecer  de escrever que o Manacá  faz lembrar umas coisas tão boas e tão, tão gostosas, como se fosse uma máquina do tempo. Aquele era o perfume cheiro do jardim da minha casa, era o cheiro perfume cheiro do meu pai entrando em casa, da minha mãe me chamando, do meu irmão rindo beeem alto, e eu me lembro até do cheiro fedô dele (fedô do IRMÃO, não do manacá).

Então, todo mundo deveria ter um pé de Manacá enquanto é criança, ter um pé de Manacá depois de adulto nunca vai ser a mesma coisa, adulto não sabe aproveitar nada direito, não sabe nem fazer um dicionário.

Acho que eu vou fazer o meu dicionário com cheiro, risada, desenho, susto, medo, grito e  tristeza de cada palavra.  Vai ser um dicionário da história de todas as palavras.

Eu vou fazer um Sentimentário.

Créditos:Jorginho dono da palavra “infinito”  e Cândida proprietária de todas as árvores do mundo

Ao meu pai, infinito pai.


Autor: marinamiyazaki@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags:
07/10/2009 - 13:53

“E PAI FRANCISCO FOI PRA PRISÃO…”

“Pai Francisco entrou na roda tocando o seu violão doro-rón dondón

Vem de lá Seo Delegado e Pai Franciso foi pra prisão

Como ele vem todo requebrado parece um boneco desengonçado”

Mãe, cadeia não é pra bandido? Meu pai não é bandido e por que ele tá preso hein, mãe?

Na escola todo mundo já sabe. Eu nunca liguei pra ninguém de lá mesmo, e todo mundo de lá é chato, e eu não queria ter amigo mesmo. E eu nem quero mais ir pra escola.

Mas vou contar porque o meu pai é o melhor pai do mundo. Ele me conta estórias, ele sabe de tudo, de todas as coisas que existem no mundo, ele sabe umas dez mil coisas, ele sabe infinito. Quando ele me busca na escola, é o melhor dia. Mas ele quase não vai, não dá tempo. Antes, eu achava que ele era médico, nunca está em casa à noite, igual ao médico do Postinho, que me costurou outro dia quando eu caí e eu nem chorei muito, chorei um poucão.

Agora vou falar como foi o nosso passeio pra ver o meu pai. Nossa, foi muito legal, minha mãe ficou guardando muita coisa gostosa pra levar. Acordamos de madrugada, já com tudo prontinho, ela levou o mais pesado. O meu pai falou que, enquanto ele não estivesse, eu seria o homem da casa e teria que cuidar da minha mãe, mas mesmo assim ela não deixou, tive que carregar aquela sacolinha de criancinha.

Andamos, andamos e nunca chegava. Pegamos um ônibus, outro ônibus, dormi, acordei, dormi e acordei. Passei frio, calor, frio e calor. Quando chegamos lá, foi muito legal, tinha muita gente na fila, eu fiquei brincando com outras crianças, achei legal, porque eles também tinham o pai lá, o outro tinha um irmão e o outro tinha o tio. Eu gostei muito de saber que tinha tanta gente junto com o meu pai.

Nossa, quando eu vi o meu pai, fiquei pulando pra ele me pegar logo e eu ficar altão. Ele  me levantou daquele jeito e me abraçou e chorou, sendo que eu estava tão feliz.

Já passou um tempão e tem dia que eu estou um pouco triste, só um pouco, mas não choro, meu pai me disse pra eu não chorar, por que ele logo estará de volta.

Hoje, está quase perto do meu outro aniversário, falta dormir mais 3 vezes, é depois de hoje e depois de depois de hoje. Minha mãe já falou que não vai dar tempo do meu pai chegar de novo. Mas ele gosta de fazer surpresa pra mim. Aí nós vamos jogar bola. Eu sou o melhor do nosso time e ele é o único que sabe tirar a bola do telhado, e prometeu que vai me ensinar. Meu pai tem que vir logo, enquanto isso, eu não vou comer salada, vou esperar sem crescer.

Autor: marinamiyazaki@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags:
24/09/2009 - 07:34

QUEM TEM RAZÃO

Cada vez que o meu pai começa a fazer barulho, é sinal de que ele já quer sair, eu vou atrás, tento convencê-lo a ficar, mas meu pai ainda não entende que eu poderia ficar brincando com ele. Ele ainda não tem muita paciência e quer logo ir pro outro lado da porta, dou tchau, até dou beijo. Ele adora essas coisas.

Meu pai se parece mesmo comigo, ele também gosta de chaveiros com chaves de verdade, ele nunca quer levar aquelas chaves coloridadas de plástico.

Ele abre a porta e desaparece. Não sei o que ele fica fazendo do outro lado da porta o dia inteiro.

Quem sai ganhando é a mamãe, fica comigo a maior parte do tempo. Minha mãe está começando a aprender tudo, eu fico aqui de cima, sentado, jogando as coisas para ela pegar. Jogo várias vezes. Ela já entendeu que é pra pegar e me devolver, mas logo enjoa, então eu tenho que gritar, ficar bravo pra que ela continue pegando e me devolvendo. Ela não percebe que eu estou tentando saber se as coisas vão pro chão, pro lado, pro teto. Até agora nada flutuou, e eu já tentei várias vezes.

Fico preocupado, ela não consegue ficar sem mim. É só eu dar uma fugidinha, fico quietinho no meu canto, estudando os problemas da TV, vendo o que acontece com o pessoal lá dentro. Mas não tem jeito, ela está muito dependente, logo me acha e vem correndo. Não me deixa em paz um minuto. E ainda vem gritando desesperada. Tem ciúmes até de uma TV. Não posso pegar qualquer coisa que ela também quer.

Outro dia, finalmente, eu consegui pegar o controle remoto, logo chegou alguém na sala… ainda bem, era o meu vô, é o único que me entende um pouco mais. Ele diz que eu consigo fazer melhoramentos no controle remoto.

À noite, meu pai sai do outro lado da porta e vem pro lado de cá. Aí ficam os dois, o meu pai e a minha mãe no meu pé, eu não consigo terminar nada do que estou fazendo.

Amanhã será um novo dia complicado. É o meu primeiro dia na escola, vai ser difícil, minha mãe vai ficar daquele jeito, com cara de sofrimento quando eu tiver que deixá-la no portão. Não tem outra saída, vou ter que chorar muito pra que ela tenha certeza de que sentirei sua falta e de que a amo muito.

Autor: marinamiyazaki@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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