Reprovação Escolar é uma “Fantástica” Covardia.

O programa Fantástico (TV Globo) está acompanhando 4 alunos que estão “ameaçados de reprovação escolar”. Nas reportagens “Os pendurados” (26/11/2006) e “A hora da recuperação” (03/12/2006) os jornalistas do programa Fantástico demonstraram total ignorância do que seja “avaliação escolar”…

A “avaliação” com “notas bimestrais” e “média final” é uma “avaliação burra”, ainda mais se incluir na “média” uma “prova final”.

Ensino-aprendizagem é um processo contínuo e nunca termina. As “provas” mal servem para avaliar um “momento”. As escolas brasileiras estão treinando alunos para serem aprovados em provas de exames vestibulares… muitas até já abandonaram completamente seu dever de educar e de construir conhecimento.

A avaliação mediante “provas escritas” é apenas um dos vários instrumentos de avaliação, mas não tem qualquer valor se for utilizada de forma isolada.
Os trabalhos (individuais e em grupos) e as apresentações em público também devem ser considerados na avaliação do ensino-aprendizagem.

Um dos principais absurdos do programa Fantástico é ignorar a responsabilidade da própria escola e dos professores no fracasso escolar.

O Fantástico não informa se as escolas são públicas ou particulares. Pela aparência das instalações, parece que são particulares; ou então são escolas públicas que pré-selecionam seus alunos, pois uma das alunas declara que será jubilada (expulsa) se repetir novamente…

O “caso” desta aluna é exemplar: foi reprovada em “Desenho Geométrico” e “Ciências” no ano passado. Não por coincidência, estas são as mesmas matérias em que ela está “de exame”: precisa de 10,3 (Ciências) e 10,7 (Desenho).
Não passou pela cabeça dos repórteres questionar às escolas sobre a eficácia de se reprovar alunos? Não seria mais razoável que a aluna refizesse apenas as matérias em que foi “reprovada”? Será que a escola não está repetindo o método que já se mostrou fracassado no ano passado?
Imaginem a seguinte situação hipotética:
1 – dois alunos da mesma série vão para “exame” (prova final) na mesma matéria;
2 – o primeiro precisa tirar “nota 5,5″ para passar de ano. Ele tira exatamente a nota 6. E passa de ano.
3 – O segundo, precisando tirar “nota 10,7″, acaba tirando 10,0… e é reprovado.
Pergunta: Se a prova final era para medir o aprendizado do aluno, o mais razoável não seria concluir que o aluno que tira “10,0″ aprendeu mais do que o que tirou “nota 6,0″?

A reportagem traz algumas “frases de efeito” que não correspondem à realidade. Por exemplo: “Professor não morde”, utilizada por um orientador pedagógico para induzir os alunos a falar com os seus próprios professores…
Será mesmo que “professor não morde”? Por que a reportagem não perguntou aos alunos os motivos pelos quais eles não pediram ajuda aos seus professores? Ou será que pediram e não foram atendidos? Será que os repórteres se esqueceram de seus tempos de escola? Como explicar que um aluno tem “boas notas” em oito matérias e, mesmo assim, é reprovado em uma ou duas outras? O problema seria com o aluno ou com os professores dessas matérias?

A reportagem induz as crianças a se culparem pelo fracasso das escolas e dos professores: – “Eu sei que a única culpada disso sou eu mesma…”, disse Shaylla (aluna de 16 anos que corre o risco de ser expulsa da escola se repetir o ano mais uma vez)
Não, Shaylla. Você não é culpada pelo fracasso da escola e dos professores. Você é a vítima de métodos ultrapassados.
Se um aluno tem bom aproveitamento em “matemática” e baixo rendimento em “desenho geométrico” significa que a escola está falhando… significa que os professores não estão atuando em conjunto para ajudar o aluno a construir um sólido conhecimento em Matemática.

Recado para o Fernando: Você não deve “desligar o computador”, pois o computador pode perfeitamente substituir “professores palestrantes”, aqueles que falam muito e não explicam nada. Ficar em “oito matérias” é prova de que a escola e os professores não estão ensinando. Exija que a sua escola ofereça educadores em sala de aula. Um educador jamais dirá que as novas tecnologias de comunicação sejam “umas pragas”.

Recado para o Bruno: Não abandone seus amigos nem o futebol. Eles são essenciais na formação de sua personalidade e de seus valores culturais. Não abandone o futebol nem o violão, pois eles te ensinarão mais sobre “física” do que um livro de fórmulas para decorar. E, sobretudo, não abandone o Corinthians, ainda mais neste momento de crise em que o Timão quase foi rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Ele vai superar esta fase e provavelmente te trará mais alegrias do que qualquer um destes seus professores que não ensinam nada.
Peça para a sua professora de “física” apresentar e explicar os principais conceitos físicos envolvidos na vibração das cordas do violão, numa trajetória de uma bola de futebol e numa “ola” produzida por milhares de torcedores vibrando em uma partida de futebol do Timão. Isto sim poderia ser uma boa aula de física.

Para saber mais:
- Reprovação escolar é covardia
- Ao que vai chegar…
- Avaliando o(a) Professor(a)

Postado por: Mauro A. Silva – Movimento Comunidade de Olho na Escola Pública