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iBest BrTurbo
07/11/2009 - 22:28

GOURMET

Acho que nunca revelei aqui no CLÃ DO ÓCIO que sou praticamente um gourmet. Admito, porém, que não sou um gourmet genuíno (aquele que condiz com o verdadeiro sentido da palavra). Sou um gourmet versão Standard. Estou sempre procurando refinar meu cardápio. Lembrem-se que sou um nobre. Vivo num mundo de muito luxo e ostentação – não que me importe com isso, absolutamente – mas como príncipe, devo manter certos hábitos.
Felizmente para mim, hoje as coisas são mais flexíveis. Determinadas iguarias já não fazem parte do cardápio obrigatório das comilanças nobres. Deus sabe quanta porcaria requintada tive de engolir (as vezes à seco) para fazer pose perante o resto da nobreza. Tempos difíceis. Felizmente, findados.
Hoje a coisa é diferente. Hoje vivemos o tempo do politicamente correto. Tudo saudável, tudo seguro, tudo devidamente certificado e garantido pelo seu órgão competente (seja comida, seja eletroeletrônico, seja o que for).
No caso específico da gastronomia, vivemos a era do saudável. Chega de consumir alimentos de procedência duvidosa ou de teores exorbitantes de gordura ou colesterol. Agora tudo é devidamente dosado e, sempre que possível, o mais natural possível. Tudo por uma vida mais longa, mais sadia. E como o poder de persuasão dos meios de comunicação engajados nessa causa nobre (estou tão paranóico que acredito que alguém deve estar levando “algum” nessa) são surpreendentes. Eu, o Príncipe do Ócio, decidi embarcar nessa e verificar com meus próprios olhos (e boca) os efeitos, sabores e tudo mais sobre essa vida natureba.
Após lamentar um pouco a entrada nessa era do saudável (no meu tempo, quando as crianças tinham sede, bebiam água da primeira torneira que viam na rua), dei meus primeiros passos rumo a um novo mundo gastronômico. Com menos fritura, menos fast food, menos comida de microondas, e parti com determinação em direção à tão propagada alimentação saudável.
Entretanto, sou gastronomicamente conservador. Assim, para evitar um possível choque, que pudesse colocar em risco a continuidade de meu projeto, optei por uma coisa simples. Aventurei-me pelos sabores da soja.
A soja, já faz um tempinho, vem sendo muito bem falada na mídia (e não estou falando de seus aspectos econômicos). Dizem que é um alimento bem completo. Assisti a muitos programas de televisão que mostravam diversos preparos à base de soja. Um mais interessante e – aparentemente – saboroso do que o outro. Cara, decepcionante. A soja me desapontou. Seu sabor não é nada espetacular. Aliás, ela só ganha do chuchu, que é a coisa mais sem graça e sem sabor que eu conheço até o momento. Achei que a soja fosse algo melhor do que o feijão. Pois é, achei. Mas, apesar disso, não a escanteei logo de cara. Continuo consumindo-a. Embora sem o mesmo entusiasmo que nutro pelo feijão. Mas tudo bem, seu alto valor nutritivo compensa sua falta de sabor.
Minha outra experiência saudável foi com uma coisa mais “normal”, uma cenoura. Nunca tive nada contra a cenoura. Sempre gostei dela. Na infância, invadia hortas vizinhas para surrupiá-las e devora-las. Bons tempos. Entretanto, tinha reservas quanto ao seu consumo cozida. Não me parecia algo muito atrativo. Hoje reconheço o engano. É uma boa opção para quem quer melhorar seus hábitos alimentares sem maiores surpresas.
Minha outra experiência gastronômica foi com a alface. Eu tinha sérios problemas com a alface. Quando criança, ouvi dizer que a alface causava sono. Foi o suficiente para eu nunca tentar apreciar o seu sabor. Não me agradava a idéia de que aquele alimento pudesse me causar sono num momento em que eu, provavelmente, não iria querer dormir.
Mas para minha sorte, quando fui visitar uma tia, no Paraná, acabei arriscando e consumi uma salada de alface, feita na hora e temperada apenas com sal e limão. Espetacular. Nasceu, nesse dia, uma nova paixão. Agora, todo o dia de feira eu dou uma conferida no preço da alface. Se estiver barato (não pago mais do que R$ 0,50 num pé de alface) eu levo. Do contrário, espero a próxima feira. Infelizmente precisamos respeitar os limites do bolso. É o preço que se paga na busca por uma alimentação saudável.
Minha última incursão na busca por novos sabores saudáveis foi o discriminado brócolis. Ainda farei uma pesquisa para saber por que o brócolis é tão mal visto pela maioria das pessoas.
Eu tinha sérias razões para desconfiar do sabor do brócolis. Mais uma vez, quando criança, tive uma experiência traumatizante. Fui forçado a consumir o primo do brócolis, a couve-flor. Que experiência apavorante. Quase vomitei naquele dia. Eu estava na casa da minha madrinha. Por alguma razão que não lembro agora, ela me obrigou a comer a maldita couve-flor. Provavelmente eu devo ter dito que não gostava de couve-flor, mesmo sem tê-la provado – as crianças têm esse dom de saber o que gostam e o que não gostam sem a necessidade da degustação.
Mas muitos anos se passaram desde essa trágica experiência. Eu já estava pronto para um desafio desse porte. Caso eu não nutrisse grandes amores pelo brócolis, a perda seria financeira (R$ 2,58, para ser exato). Já gastei quantias maiores com coisas incomparavelmente estúpidas, que no caso do brócolis a experiência sairia praticamente de graça. E para minha surpresa, acabei gostando do brócolis. Ao contrário da couve-flor, o brócolis é saboroso. Recomendo seu consumo cozido. Agora só falta eu descobrir suas propriedades nutricionais.
Bem, essas foram minhas primeiras experiências saudáveis. Reconheço que, sequer engatinhei rumo à alimentação saudável, aquela tão recomendada pelos especialistas na área hoje em dia. Lembrando que vivemos a era do politicamente correto. Tudo tem que ser seguro e reverter em benefício para as pessoas. Principalmente os alimentos. Entretanto, nem sempre o nosso bolso está capacitado para proporcionar tais benefícios. E aí entra o jeitinho brasileiro, que se não pode nos proporcionar uma alimentação 100% saudável, seguramente vai garantir uns 40%. É claro, isso também vai depender da nossa força de vontade. Pois é difícil abrir mão das boas batatas fritas, ou das ótimas pizzas, ou ainda, daquelas incontáveis delícias prontas para se fazer num forno de microondas. Só de pensar, já penso em largar as coisas saudáveis. Mas sou um cara de força de vontade. Não desisto tão facilmente. E ainda tenho muitas provas naturebas para degustar, como a beterraba, o feijão branco e a berinjela. É claro que, antes de correr o risco de entrar numa roubada, farei uma busca no google para ver qual deles valem o investimento. Do contrário, volto correndo para as batatas fritas.

Príncipe do Ócio

Autor: superdesiderio@ig.com.br - Categoria(s): Gastronomia, Humor Tags: , , ,


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