No primeiro ano da ocupação da França pela Alemanha, Shosanna Dreyfus testemunha a execução de sua família pelas mãos do coronel nazista Hans Landa (Waltz).
Shosanna escapa por pouco e parte para Paris, onde assume uma identidade falsa e se torna proprietária de um cinema.
Em outro lugar da Europa, o tenente Aldo Raine (Pitt) organiza um grupo de soldados americanos judeus para praticarem atos violentos de vingança. Posteriormente chamados pelo inimigo de “os Bastardos”, o esquadrão de Raine se une à atriz alemã Bridget von Hammersmark (Kruger) em uma missão para derrubar os líderes do Terceiro Reich. O destino conspira para que os caminhos de todos se cruzem em um cinema, onde Shosanna pretende colocar em prática seu próprio plano de vingança…
“Bastardos inglórios” de Quentin Tarantino combina histórias de opressão, infames, verídicas e heróicas da Segunda Guerra Mundial.
““Bastardos inglórios” não pretende ser uma reflexão sobre a natureza do bem e do mal, ou um olhar crítico sobre o que foi a loucura do conflito. “O resgate do soldado Ryan”, “A lista de Schindler” e “Além da linha vermelha”, entre outros filmes sérios, já fizeram isso muito bem. O filme é pura diversão cruel e irresponsável. Todos são movidos pela lei de talião: olho por olho. Se os nazistas são maus, é hora de dar o troco na mesma medida, e dão mesmo. As cenas são fortes o bastante para incomodar os espíritos mais sensíveis. Sem qualquer compromisso com os direitos humanos (ou com a verdade histórica), o diretor nos dá aquilo que muita gente sempre desejou fazer, mas nunca teve chance, ou seja, detonar os nazistas sem piedade. A alta cúpula do governo alemão incluída, com Hitler e tudo.” (Rodrigo Fernandes)
“Gráfico ao retratar a violência (é um filme de Tarantino, afinal de contas) e jamais entediante, Bastardos Inglórios é uma experiência vazia, mas curiosa; metalingüística até a raiz, mas incapaz de envolver o espectador em sua narrativa. É, enfim, um Tarantino menor que, embora se auto-proclame “a obra-prima” do diretor, serve principalmente como indício de que o cineasta talvez deva tentar encontrar um equilíbrio melhor entre seu amor pelo Cinema e sua necessidade de contar suas próprias histórias. Caso contrário, ele acabará voltando às origens profissionais de balconista de locadora e usando seus filmes como simples indicações de obras melhores e mais memoráveis.” (Pablo Villaça)
“Como é habitual na cinematografia do cineasta, ele mistura linguagens, épocas e escolas – que praticamente desaparecem no resultado, tornando-se algo só dele. Dos faroestes de Sergio Leone (que já haviam inspirado Kill Bill Volume 2) vêm a inspiração para a música (Ennio Morricone está na trilha!) e a tensão nos duelos (verbais ou físicos). De John Ford ele empresta a temática da vingança, todo o “Capítulo 1″ e um enquadramento arrancado de Rastros de Ódio (The Searchers, 1956). A criação do personagem Aldo Rayne (Brad Pitt) vem de atores como Aldo Ray (1926-1991) e John Wayne (1907-1979). De um obscuro filme de guerra italiano de 1978 o título do filme. Da nouvelle vague o teor do “Capítulo 3″, com a Shosanna de Mélanie Laurent lembrando as personagens dos filmes de Truffaut… a lista é extensa… e tenho certeza que triplicará quando eu assistir ao filme novamente.” (Érico Borgo)
Para quem não gosta de mínimos de misturas entre tipos de filmes, “Bastardos inglórios” desapontará. É certa tendência cinematográfica hodierna o fato de os autores/diretores ultrapassarem as barreiras do estilo de filmes, vale dizer, cada vez mais os filmes não se encaixam somente em um estilo. Um bom exemplo são as comédias românticas: não são nem comédias, nem romances, tamanha foi sua importância que foi criado um estilo à parte. Nominalmente, um grande exemplo é o filme “Click”: uma excelente comédia, mas com ótimos lances de drama. “Bastardos inglórios”, embora em menor grau, não foge muito à regra: é um filme de ação, mas com lances de drama (como na cena inicial), lances de suspense (em especial nas aparições de Shosanna), (boas) cenas de comédia (este item merece um parágrafo à parte), e, logicamente, o fim precípuo, ação, ação, mais ação e sangue.
Por ser um filme de Quentin Tarantino, eu até imaginei que seria mais “sanguinolento”, mas também não deixa a desejar para os que esperam tal fato.
Quanto aos lances de comédia, foram ao estilo pastelão. Por outro lado, fizeram as pessoas rirem, e foram piadas razoáveis. Creio que a intenção era manter quem estava assistindo em um ritmo sem tédio. A ação não chegou ao 100% (como em “Kill Bill – vol. 1”), e uma (boa) maneira encontrada para chamar a atenção foi a leve comédia intercedendo momentos sem grande tensão (ou mesmo com tensão).
O filme não exigiu grandes efeitos, tampouco boas atuações. Ambos estavam ausentes, mas podiam ser um acréscimo, se presentes. O filme, deste modo, ao invés de levar uma nota 7, levaria um 8. Quanto aos efeitos, é compreensível, até certo ponto, um nível mediano, mas Tarantino, se quisesse, poderia usar mais. Já a atuação é, definitivamente, decepcionante: o elenco auxiliar, ou seja, os coadjuvantes, era de bom nível, se não fosse por eles a qualidade cairia brutalmente. Quem decepcionou foi Brad Pitt: é bem verdade que sua participação foi diminuta, mas ele não pareceu empenhado em fazer um Aldo Rayne memorável, ao revés, seus melhores lances foram os de comédia. Repito: os coadjuvantes dão um show, ainda mais se comparados com Pitt, que já é veterano. Destaques: Diane Kruger, que captou a essência de sua personagem; Mélanie Laurent, que soube manter sua personagem como era, sem ser volúvel, o que se tornou possível em várias cenas; Christoph Waltz, talvez o melhor do filme; e Daniel Brühl, garoto que parece ter bom futuro, demonstrou que consegue fazer uma personagem volúvel na medida certa (em especial em suas cenas finais). De resto, todos fracos.
A direção de Tarantino, conforme já evidente, deixou a desejar para os seus padrões. No entanto, ele ainda se mostra um diretor acima do nível da maioria. Um detalhe interessante, talvez mesmo um ganho, foi que ele voltou a aderir ao formato de filme em capítulos. Sua genialidade vai ainda além: demonstra duas histórias paralelas, cuja intersecção só se concretiza ao final. Brilhantismo do diretor, mas também da autoria. Outro fato interessante foi que, apesar de o filme ter 153 minutos (tendência, como eu tenho dito), não cansa de forma alguma. Outro mérito da equipe.
Resumindo, é um bom filme, mas não chega a ser espetacular como “Kill Bill”. O maior erro, por incrível de pareça, foi a escolha do “protagonista” (se é que ele realmente o é), pois Pitt deixa muito a desejar. Ainda assim, é ótimo para quem é menos criterioso e gosta de ação.