A bolsa da Dilma
Recebi ontem um e mail em tom bem indignado. Reproduzo uma parte:
A jornalista Anna Ramalho escreveu na sua coluna no Jornal do Brasil: “A ministra Dilma Rousseff, em foto publicada anteontem n’ O Globo, deve ter se esquecido de esconder a bolsa – tamanha foi a bronca no assessor do Geddel. Trata-se de uma Kelly, grife Hermès, criada em homenagem à princesa Grace, e objeto de consumo das milionárias mundo afora.”
Detalhe: a bolsa não custa menos de 4.700 euros – cerca de R$ 14 ml. Portanto… Quem ainda teme a revolucionária comunista dos anos 70 pode ficar tranquilo. Não se usa uma Kelly impunemente.É muito bonito pregar comunismo nas propriedades e com o dinheiro dos outros…”
Não sei bem o que é texto da matéria e o que é do e-mail, mas vamos a outro ponto de vista…. É curioso que se espere que Dilma, por conta da sua historia de guerrilha e luta social, renuncie a certas coisas. Parece ser esperado que, como sinal de coerência ideológica, pessoas como ela façam voto de pobreza, distribuam seu dinheiro aos pobres, abram mão de usufruir do fruto de seu trabalho. Sim, fruto do trabalho. Acredito que uma ministra da casa civil ganhe um bom salário, suficiente para comprar uma bolsa de R$ 14.000,00. Esse discurso de que ela compra a bolsa com o dinheiro do povo faz soar como se a ministra roubasse do povo para comprar sua bolsinha. Até que se prove o contrário, é dinheiro do povo tanto quanto qualquer funcionário público compra tudo com a contribuição do povo, uma das fontes da verba para a folha do funcionalismo. Acredito que há certa hipocrisia nessa acusação vinda de uma sociedade de consumo como a nossa. A mesma sociedade que não elegia Lula quando ele tinha aquela estampa de operário-sindicalista, mas que o elegeu quando passou a usar ternos bem cortados, barba meticulosamente cuidada, dentes melhorados. Todos podem ter seus sonhos de consumo, luxar, adquirir algo e pagar um preço proporcional ao desejo e não ao valor real e intrínseco. Todos, menos Dilma, provável candidata a presidência…
By the way: achei a bolsa muito sem graça, mas aposto que muita gente agora vai querer ter uma…
Autor: Ananke - Categoria(s): Sem categoria Tags:
A opinião do post está correta. Desde que comprado com seu salário, não tem problema nenhum andar por aí com coisas de marca.
O problema é que o Sr Lula e sua quadrilha fazem pose de operários na frente do povão, sempre colocando a culpa dos problemas numa suposta elite que, segundo eles, não quer que a vida das pessoas melhore. Fica um cheiro de hipocrisia no ar.
De onde concluímos que o mendigo está gripado. Cheiro??? Porra, eles estão cobertos de merda da hipocrisia e você diz “cheiro”???
R$ 12.000,00? A falta de “lógica salarial” alcança até os altos escalões do governo! Pô, conheci um advogado cheirando a leite que entrou em alguma carreira que não lembro mais ( não era juiz) ganhando R$ 14.000,00!
Mas Boko, vc acha mesmo que eles fazem pose de operário? Não sei, não. Pra mim Lula já deixou a estampa povão há muito tempo e aparentemente sem culpa ( vide seu aviãozinho). O PT mostrou “outra identidade” tirando a foice e o martelo da bandeira. Manteve o vermelho mas deixou apenas uma sugestiva (?) estrelinha.
Quanto a bolsa, ainda acho que ela pode pagar. Mas também existe a possibilidade de ser alugada ( mulheres agora alugam bolsa de grife !), ser presente de alguém ou mesmo de uma loja que ligou para a imprensa e disse: Fiquem ligados! A Dilma tá saíndo com uma bolsa de R$ 14 mil!!! rrrrr
E vai por mim, ministro de estado não ganha horrores assim não. Acho que gira em torno de R$ 12.000,00. Pra alguém viver nababescamente como toda a fauna marinha companheira do molusco vive, usando de sua própria renda, não sobra muito pra comprar bolsas de R$ 14.000,00.
Esse blig tá com uma mania feia!
Desnecessário dizer que o Blig botou o Zão em cima de mim e é provável que eu permaneça sob ele neste comentário também, mas na verdade eu vim depois dele …
(Apesar desta operação de risco, continuo viva!)
Pois é, Roto-Rooter, entendo sua perspectiva. Entretanto, o que eu me questiono é justamente se essa expectativa de que, num país pobre, uma candidata não poder ostentar objetos de luxo não seria certa hipocrisia. É meio querer substimar o povo identificando uma figura de poder e que deve ter certa receita mensal, com os pobres…Acho mais justo as coisas às claras mesmo. Afinal , o Brasil pode até ser um pais pobre(?), mas tem uma cultura extremamente chegada ao luxo. Já dizia Joãozinho Trinta: quem gosta de pobreza é sociólogo, pobre gosta é de luxo!
Ademais, algo não pode ser esquecido: a população provavelmente jamais saberia que a bolsa era tão cara não fosse a midia. Não nos enganemos: nenhum discurso é ingênuo!
P.S. Lá estou eu antes do comentário do Roto Rooter também!!! Ô Caio! Dá um jeito nessa parada!
Ananke,
O problema em si nem está na possibilidade ou não da Dilma comprar uma bolsa de 14 mil. Está mais para a situação do “tudo posso, mas nem tudo me convém”: Não é errado uma candidata a presidência ostentar objetos de luxo, mas não pega bem num país com grandes bolsões de pobreza, amenizados por medidas assistencialistas insustentáveis no longo prazo.
Fosse ela candidata a presidência da Noruega, aí a bolsa tava certa…
A Teoria dos Jogos e outros estudos já demonstraram que o homem tem uma natureza meio predatória, e no fim das contas se preocupa com poucas coisas além dele mesmo. Um exemplo usado na Teoria dos Jogos é o do grupo de pessoas que vai a um restaurante. Se as comandas forem individuais, o sujeito se controla, pede um prato não muito caro, pois sabe que vai doer no seu bolso. Já se é conta única, o sujeito pensa que o que ele pedir vai cair na divisão, e pede logo, salmão com caviar. Só que TODOS pensam da mesma forma, e a conta após a divisão acaba saindo mais cara do que a que ele pagaria se arcasse somente com o dele. Um ser humano médio não é capaz de enxergar os benefícios de uma coisa mais macro, como o bem social. Ainda que intelectualmente possa perceber que investindo no meio social poderá colher frutos maiores que o investimento, ninguém realmente sem empolga com a idéia. Ou seja, o cara se fode por pensar só nele, mas continua fazendo a mesma coisa.
Já ouvi a seguinte frase de um economista: “Não existe sistema econômico pior que o capitalismo, exto todos os outros até agora criados”. O socialismo, por exemplo, parte da idéia intrinsicamente errada que os seres humanos ficarão satisfeitos em uma divisão igualitária da produção, independente da contribuição que cada indivíduo. Seria uma sociedade perfeita, só que o ser humano é mesquinho e egoísta, e quer ter mais que o outro, ainda que saiba que uma sociedade igualitária seria melhor para se viver. Já o capitalismo pega essa mesquinhez humana e a põe a serviço do sistema produtivo, usa a imundície que é a alma humana como motor para o progresso. Por um lado isso é bom, mas por outro, cria-se um conceito de felicidade (felicidade é um conceito relativo, e que não é idéia nossa, mas ensinado pela sociedade) que só uns poucos podem alcançar. Por exemplo, de um monte de funcionários novos que entram em um banco público qualquer, digamos que existam uns 1000 querendo crescer. Todavia, só existem 100 vagas de gerente, posição que implica prestígio, poder e dinheiro (baluartes do que se quer alcançar dentro do capitalismo). Isso quer dizer que 90% dos que não alcançaram tais posições são fracassados? SIM, pelo menos pelo conceito de felicidade capitalista. Só que tem que haver algo de errado em um sistema onde 90% da população é fracassada.
Ao contrário do que psicólogos paternalistas pensam, alguma distância do sucesso não é ruim: serve para gerar “tensão criativa”, que impulsiona aquelas pessoas para tentar novamente subir, e isso impulsiona o sistema produtivo. Só que, quando há a percepção que essa distância para o sucesso é muito grande, ela parece inalcansável, e aí passa a ser desestimulante. O sujeito passa a não ter nenhuma perspectiva, nada a perder. Nessa situação, alguns caem no poço de vez, mas outros se revoltam, e aí acontece o que vemos na nossa sociedade. A barreira entre o que a mídia mostra e o que a maior fatia da população tem dá essa idéia de uma distância inalcançável, joga na cara do povo que eles são fracassados. Só que ninguém gosta de ser fracassado, e o moleque da favela vai deixar de ser fracassado, custe o que custar, pois ele precisa disso pra se sentir bem. Ele vai ter aquele tênis maneiro que fará dele um vencedor (segundo a propaganda da televisão), nem que tenha que esviscerar na faca aquele playboy fela-da-puta que tem o tênis que ele quer. É como o Darth disse.
Então, na minha opinião, a dona ministra não tem o direito de ostentar coisas caríssimas (aliás, acho que ninguém tem). Quando escolheu ser uma pessoa pública, ela escolheu ter certas restrições, e isso inclui não humilhar o povo indiretamente, ostentando na cara deles coisas que nunca poderão ter. Esfregando em seus rostos sujos que, conforme a mídia, ela é bem sucedida, e eles fracassados.
A solução? Extermínio generalizado de 80% da raça humana. Aí, no pós-apocalipse, haverão bolsas Hermés pra todos. Nem que tenhamos que tirá-los dos corpos putrefatos de ex-ministras de estado.
Por outro lado, ela pode ter a bolsa, mas é feia como uma orangotando, e tem câncer. Talvez exista algum equilíbrio no universo, afinal.
Seguindo por aí não fica certo nem existirem revistas como “Caras”, ou o programa “Estrelas”, da Angélica. Trata-se de ostentação pura, e acho errado de certa forma… Mas é errado ostentar aqui somente porque temos bolsões de pobreza (aliás, bolsões de riqueza)? Numa sociedade de consumo, isto é condição sine qua non. É esfregando a riqueza na cara do fudido que se estimula o consumo… Por outro lado, é mais do que sabido que a violência urbana é diretamente proporcional à diferença social, que, acredito, se não se tornasse tão evidente através da mídia a primeira não seria tão grande e fora de controle…
A idéia que a riqueza é oriunda da capacidade individual já está mais do que ultrapassada, afinal são muitos fatores concorrentes. Mas como tornar mais justa a distribuição de renda se só medimos o valor de uma pessoa através da sua produtividade, seja em serviços ou bens de consumo – a velha relação Capital x Trabalho? Teríamos que ser capazes de avaliar também o quanto uma pessoa faz uma sociedade funcionar (Por exemplo, qual o valor social de um professor? E de um banqueiro? E de um investidor da bolsa?) para poder julgar a melhor forma de distribuição, mas aí… É melhor parar por aqui se não vai ter gente babando verde…
A bolsa não é da marca Hermès. É de outra mais barata (R$ 500,00). Li a respeito há um tempo.
P.S.: Voltei!
Voltou de onde??? Quem te invocou pra tu sair assim de uma rachadura no chão???
No fim das contas, quem liga pra bolsa dela? Desde que o meu teja na conta no fim do mês, tá tranquilo.
Nunca vi tantos homens discutirem bolsa de mulher por tanto tempo!!! rrrrrr
Acho que a reflexão do post é sobre imagens e ideologias e sobre os usos que são feitos delas ( vide colocação de Rocco: a bolsa não era nem tão cara assim…) Existem revistas “Caras” , dentre outras coisas, porque somos um povo ligado à imagem, acostumado a julgar pela superfície, pela aparência. E isso pode ser muito conveniente, pois manipular imagem é muito mais fácil. E é exatemente isso que os políticos fazem. E é a isso que o povo responde. Não somos muito acostumados a pensar( não é a toa que o americano diz “I think”, o francês diz “je pense “, o brasileiro diz “eu acho”!!! ) Todos criticavam a Heloísa Helena dizendo que ela só usava a mesma blusa! Ninguém vai avaliar a criatura por suas propostas, por sua resolutividade, por sua capacidade de articulação, por exemplo. Acredito apenas que o que uma pessoa usa ou sua aparência não deve ser referente direto de seu caráter ou capacidade e esconder o que se tem para passar uma imagem de proximidade com o povo é demagogia dentro de um sistema capitalista assumido. Não desejo que me apresentem políticos montados, com imagens modestas, para que eu supostamente veja nisso a cara do Brasil e me identifique com eles.
Tenho que concordar com o Troll, apesar do esforço sobre-humano do blig em anacronizar os comentários, tirando assim todo o nexo da conversação…
Exatamente isso: Um gigante precisa ter cuidado para não pisar nas formiguinhas ou nunca mais poderá dormir na relva (ui, que lindo!!!). Uma pessoa pública – ou seja, formador de opinião – deve ter o cuidado de, por exemplo, não fazer o povo se sentir mais miserável do que já é (ou ao menos perceber tão graficamente a sua miséria) ou correrá o risco de ser analizada pelo Broken Arrow.
O Lado Negro é mais rápido e sedutor, mas sempre toma algo em troca…
“O Lado Negro é mais rápido e sedutor, mas sempre toma algo em troca…”
Caramba! É mesmo? Então terei que ceder alguma coisa para o lado negro da força???
Eu acho que não pega bem, uma cadidata a presidencia do Brasil andar aqui e mundo a fora, mulambenta como nos tempos de guerrilha e luta social. Mas ao mesmo tempo também não pega bem tamanha ostentação, principanmente em um país com tanta desigualdade social.
É issaí, Alisson.
Ananke, o Lado Negro me tomou a saúde, me transformando neste biomecanóide. Já no seu caso, como seu master eu invoco o “Jus primae noctis”. Já basta.
Traduza, Darth!
http://en.wikipedia.org/wiki/Droit_de_seigneur
Caramba Ananke!!! Não precisa ir ao Wikipedia, basta assistir o início de Coração Valente…
É mesmo Rocco! Não lembrava…Grande filme!
…..Hum…Interessante, Master Darth.Mas receio que seja um pouco tarde…!