Arquivo da Categoria cronica
01/10/2009 - 19:42
Fatima Dannemann
Manhã estranha. Seria uma sexta-feira qualquer se fosse outro mês. Se fosse outro ano. Não havia aviões desgovernados no céu. Mas havia sinais de guerra na terra. Não havia Osama, mas ladrões pé de chinelo. O dia era o mesmo, o décimo primeiro de um setembro e de ano impar, que somado dava 11. Coincidências que os cabalistas, fatalistas, mágicos adoram. Lá em Nova York, nos antigos escombros transformados em monumento, sobreviventes choravam a memória dos mortos no atentado as Torres Gêmeas. Aqui, junto às cinzas de ônibus queimados e postos de polícia metralhados, sobreviventes davam entrevista a televisão disfarçados e trêmulos de medo.
- A situação está sob controle, disse o governador da Bahia na televisão. Será que há controle numa sociedade onde a violência desgovernada corre solta banalizada pelas novelas e filmes? Bandidos sendo transferidos e um jornal estampando a manchete: já vai tarde. Mas a violência continua, disseminada entre os bairros da periferia, escondida nos lares e entre famílias onde pais espancam filhos, irmãos esmurram irmãs que acabam por se refugiar nos braços de meninas. O clima de terror pode até ter amainado. Mas a violência paira como uma sombra negra nos corações trazendo medo, fazendo senhoras idosas e pacatas vibrarem ao ver personagens (“bons”) de novelas espancando os vilões. Dá no mesmo, só que ninguém nota. “Bater em malvado, pode”, como diria aquela outra personagem.
Uma sexta-feira em que vestir branco passou em branco em alguns corações apavorados. Como se a sombra de Osama Bin Laden pairasse sobre a Bahia e ofuscasse o céu azul e o mar convidativo onde gregos e baianos fazem festa todos os verões. No supermercado, escuro, medo. “Calma, foi apenas a luz”, diz um funcionário meio sem graça. Perecíveis tirados as pressas. Calor. Reclamações, chão molhado. “Coincidência dar problema na energia justamente hoje. Será que foram os terroristas ou os bandidos?” Alguém ri achando improvável. Mas os telefones também dão pane. “Foi apenas a energia”, a caixa diz achando divertido.
A energia. Os esotéricos acendem velas e rezam. O karma está pesado. Hare baba! Preparativos para de noite assistir o final da novela. Sim, precisamos da fantasia, do colorido de uma Índia de mentirinha onde todos podem ser felizes para sempre. Quem dera. E surgem os palpites. Destinos de Surya, Yvone, Norminha, as “najas” da novela ganham mais destaque do que os ataques aos ônibus e postos de polícia em bairros distantes que ninguém visita. “Pobre vota. Nego esquece que pobre vota. E como vota”, reclama alguém no ponto de ônibus lotado. E ainda é apenas de manhã.
Chove. Sim, ainda por cima chove nesta manhã de sexta-feira de um mesmo dia quando a turma de Osama resolveu abalar o império Americano. A águia tremeu ao ver as torres caírem. Aqui, o terror durou mais tempo. E como os aliens do filme, começaram os ataques no Dia da Independência. Um sete de setembro vermelho, não como a bandeira de um certo partido, mas como um sinal de alerta. Um sete de setembro negro de fuligem e com cheiro de bala. Um clima de terror que se prolongou por vários dias e afetou a cidade inteira.
Violência. Banalizaram a violência assim como banalizaram o sexo e criaram-se comportamentos bizarros que nem Freud, nem Jung explicam. Violência em escola, nas famílias, nas ruas, entre vizinhos, na fila do banco, em porradas e em farpas destiladas em e-mails. Comportamos que desunem. Tribos estranhas que se multiplicam e criam guerrilhas particulares até em shoppings. “Estamos numa época de desamor”, alguém disse na noite dessa sexta-feira negra. Um dia triste. Sem luz no mercado. Com telefones mudos. E ainda por cima, chovia.
Salvador – 13 de setembro de 2009
Autor: Fada Básica - Categoria(s): cronica
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12/07/2009 - 21:51

Fatima Dannemann
Lembro do dia em que Carol morreu. Nunca vi tantas moções de pesar na net. Quando descobriu-se que a defunta não se chamava Carol nem era uma adolescente estudante de direito com a perna (eternamente, aliás) quebrada e engessada, mas Aline, uma “coroa” de mais de 40 anos, tão obesa e doente que não saia de casa, ninguém retirou as condolências e a chamou de falsária. Pelo contrário, em um site de altar virtual as chamas das velas animadas ardeu mais do que nunca. Todo mundo perdoou a pobre coitada que inventou toda essa mentira apenas porque “era doente, sem esperança na vida”. E a pior doença de Carol era a mentira e a maldade, a prepotência com que tratava pessoas que não formatam mensagens “me recuso a ler mensagem sem figura ou música”. Mas foi um tal de perdoar Carol… E vi perdoando a defunta gente que meses antes me condenou a fogueira quando denunciei o roubo do meu poema Bolero. Eu, mesmo coberta de razão, era a “má, demonia, desgraçada que estava reclamando só porque um coitadinho que não sabia escrever tirou meu nome do poema e colocou o de Drummond”. Pois é. E além de condenada eu ainda ouvi de amigos do ladrão “poxa, você é egoísta, tem mais de mil poemas e reclama de unzinho”.
Mas corta… Falar da net é fácil pois na rede acontece de tudo: suicidas voltam do mundo dos mortos, bruxas posam de médicas e tratam das tias de amigas virtuais, beldades namoram o bebum ancorado na praia mais próxima. Tudo acaba sendo mais ou menos permitido só porque o público aproveita para soltar seus diabos na rede. Não só imitam a vida como vão muito mais além de todos os limites. A falta de vergonha chegou a tal ponto que foi preciso criar delegacias na rede. Conselhos de ética não bastam até porque tem gente que nem sabe o que é isso. E eu até penso em deixar o jornalismo, pedir matricula especial pra direito e virar advogada especializada em internet (mas agindo aqui fora, claro, porque não acredito em cadeia virtual).
Prefiro falar do mundo real. Como a figura do mal acaba sendo confundida com sofrimento. Vai ver que é porque é sofrimento que as pessoas más atraem não só para suas vítimas, mas para si próprias. Uma vez, quebrei o maior pau no jornal: mataram um bandido perigoso, o Toinho. Pois colocaram o cara como se fosse vítima da sociedade mesmo ele tendo invadido uma casa, estuprado e matado três adolescentes, matado o pai delas e feito a mãe e avó se suicidarem, para roubar uma merreca (era casa de veraneio, sem nada de maior valor dentro dela). Eu me zanguei. Outra vez, só faltaram me bater quando eu falei que tanto faz roubar um banco como um cotonet, o delito é o mesmo, e quando falei que mentiras não me interessam simplesmente porque não podem ser sinceras. É bem assim. Bastou merendar fora do recreio e vira herói. Osama Bin Laden ganhou fãs em todo o mundo (eu assumo que sou uma delas), Leonardo Pareja, um criminoso, seqüestrador e assaltante, que tripudiou e fez gato e sapato da policia de quatro ou cinco estados, foi enterrado com honras de herói.
E a velha mania de achar que a bota pode roer o rato e quem anda na contra-mão é que está com a razão. Não é bem assim. Maldade é maldade e em minha cabeça tomar partido dela só faz a pessoa ser tão ruim quanto o outro. Mesmo que seja a titulo de “dar o troco” como tem acontecido nas novelas.
Os valores podem estar temporariamente trocados. Os maus podem fazer seu teatro, posar de vitima, inventar internamentos hospitalares o saude frágil. Desculpas que não convencem os mais espertos que já começam a dar o troco. Ah, não troco em forma de surras violentas como a que Suzana Vieira deu em Renata Sorrah numa novela. Pagar o mal com o mal é tão ruim quanto apenas ser vítima desse mal. Mas troco em atitudes. Deixando de votar em políticos que não agem de forma limpa, que não são nenhuma flor de pureza. E deixando de dar Ibope as falsas boas da net. Pois é, por mais que haja quem ainda aplauda o lado ruim da vida, a idéia de que só o bem é seguro vai começando a gerar suas primeiras sementes. Quem sabe um dia e…
Autor: Fada Básica - Categoria(s): cronica
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11/03/2009 - 15:53

Lula dizia que a crise economica mundial não iria atingir o Brasil. O que se vê agora é justamente o contrário. Até quem está empregado e ganhando bem sofre para pagar as contas do mês. Com a palavra, o presidente…
Supermercado caótico, lotado de gente, filas enormes e uma madame resolve fazer malandragem: coloca a cesta vazia na fila, vai buscando as compras aos poucos enquanto o povo pena com carrinhos lotados. Não colou e ainda tomou vaia.
E Dalila, heim? Nunca foi deusa, mas por causa de uma asneira dita por Ivete Sangalo até a versão da Bíblia anda sendo contestada por adolescentes e jovens desinformados e dizendo amém a tudo o que vem da mídia. Lamentável.
Carlinhos Brown deu uma entrevista a TV e confessou que o nome da música seria outro. Ai, de ultima hora, resolveu mudar para Dalila e pegou. A deusa ou alguém que faça a cabeça ficou por conta da imaginação de Ivete Sangalo.
A moda Índia já começa a pegar no rastro da novela de Glória Peres. O que tem de gente dizendo “hare baba” e “tcha tcha tcha tcha” por ai não está no gibi. Só falta agora abrir escola para ensinar a dançar a bangra.
Mudando de assunto totalmente, a Set andou fiscalizando estacionamentos proibidos nas imediações da FIB, no Stiep. Rebocou diversos carros sem avisar aos donos. Resultado: quando saíram das aulas, os estudantes pensaram que tinham roubado seus carros.
Enquanto isso, a SET continua desrespeitando totalmente a vida dos pedestres da cidade. Empregadas domésticas, serventes, vendedores de loja e outros trabalhadores todos os dias arriscam suas vidas ao atravessar ruas como a Avenida Paulo VI, na Pituba.
O papo sobre o padrão de medidas para roupas michou e as confecções voltaram a fazer apenas roupas P e M. Enquanto isso, peruas e patricinhas se recusam a comprar nas poucas lojas que olham para os seres humanos e investem na auto-estima de quem nunca fez plástica mesmo já passando dos 25.
E o paredão do BBB9 desta semana? A Globo se enrolou, Pedro Bial se contradisse, as pesquisas dos sites erraram, mas uma coisa está clara: alguém anda protegendo Ana Carolina e Naiá e não é nenhum anjo de asinha e auréola.
Max, líder pela segunda vez, já sacou o lance da relação vovó e netinha que vem sendo explorada pela Globo nessa edição do BBB. Mas, se houver lisura, quem leva essa edição do programa é a morena Priscila. Pelo menos, é a que mais merece.
Liquida Salvador fraquinha esse ano. Muitas lojas ficaram de fora. Quem queria concorrer ao carro ou assistir ao show de Fabio Junior de graça perde as esperanças. Até porque há lojas que não estão dando os cupons aos consumidores mesmo participando da promoção.
“Quem quer ser um milionário” venceu o Oscar e deixou alguns baianos, que não sabem direito como se dá a escolha do melhor filme do ano pela Academia Americana de Cinema, ficaram indignados. Mas, quem viu, garante que o filme é ótimo e mereceu ganhar.
Enquanto isso, no camelódromo mais próximo, todos os hits da temporada: O Leitor, A Troca, Noivas em Guerra, e vários outros filmes, estão sendo vendidos em cópia pirata por apenas R$5,00. Isso acontece até na porta de algumas agencias bancarias. Pirataria é crime, mas ninguém diz nada.
Autor: Fada Básica - Categoria(s): cidades, cronica, dia a dia
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18/02/2009 - 15:17
Fatima Dannemann©
Aonde mora a inspiração? Tem gente que diz que basta ver alguma coisa interessante e produz um desenho, uma música ou um texto. Não é bem assim. Sentar-se em frente a uma tela vazia de computador e encher de letras como se fosse uma linha de montagem dessas que trabalha no piloto automático? Não é bem assim. Onde mora o assunto? Cadê o tema?
Alguém me diz para lembrar dos amores… ou das dores. Em poesia, até vá lá. Amor rima com dor. Mas, em prosa a coisa muda de figura. E o computador é implacável. Está ali com sua tela aberta, pronto para mostrar as letras trocadas as frases começadas por minúsculas, acentos que faltam, os fatais erros de concordância, as vírgulas que faltam e as que estão sobrando.
Vírgulas, tremas, til, acento agudo. Pequenos detalhes que fazem os perfeccionistas mandarem a inspiração para as cucuias. O negócio é seguir os padrões, usar as palavras corretas. Dar um molho aqui, outro acolá e mostrar que em matéria de vocabulário a pessoa é fera, se bem que muita gente nem desconfiam o significado das palavras que dizem. Inove e verá: vai ter um bocado de gente lhe chamando de doido apenas porque você inventou uma coisa diferente. Excentricidades humanas.
E os parágrafos? Onde começar? Onde acabar? Quantas linhas? Pequeno demais, coisa de criança. Grande demais, coisa de gente prolixa que não sabe mudar de assunto. O médio, que seria o correto para muitos, é tão difícil de alcançar. Mesmo que seja um médio mais flexível, daqueles que aceitam variação ou margem de erros e acertos, para mais ou para menos, um pouco maior.
Diálogos? Comece com travessão e alguem lhe pergunta: porque não botou aspas? Bote aspas e lhe perguntam pelo travessão. Use o discurso indireto e nego diz que está monótono. Coloque um itálico, ao invés de aspas ou travessão e ninguém vai entender o que está passando por sua cabeça. Essa falta de consenso acaba com qualquer inspiração e pode matar um bom diálogo entre seus personagens.
Descrever, narrar, contar histórias, tudo isto acaba sendo bem mais difícil do que sonham muitas pessoas. Culpa dos detalhes. Detalhe demais, fica monótono, detalhe de menos, incompleto. Até mesmo quando o assunto é uma simples reportagem. Tem dez fontes, ouviu nove, tem gente de menos. Se ouvir onze, não precisava tanto. Mas reportagem é outra coisa. Não precisa inspiração, bastam os subsídios.
Se o texto é encomendado, entretanto, menos mal. Pior quando não é. Pode ser uma história, um romance, uma poesia, ou mesmo um e-mail a um amigo. Se a inspiração não bate, o resultado não sai. E vai se protelando tudo até cair no esquecimento. E morre o texto… A tela do computador continuará vazia. Implacavelmente em branco a espera das palavras.
Autor: Fada Básica - Categoria(s): cronica
Tags: cronica, fatima dannemann
09/02/2009 - 12:00

Fatima Dannemann
Gosto de imagens em preto e branco.
Gosto de olhar fotos e filmes e ilustrações em preto e branco e imaginar as cores que eles possuem.
Quando eu era pequena, as vezes pegava um lapis de cor e pintava… Ou uma caneta. Ai, colocava dentes cariados em sorrisos colgates. Fazia chifrinhos em pessoas que eu achava feias.
Ou simplesmente coloria uma paisagem.
Imagens em preto e branco. Engraçado. Da primeira vez que eu vi Paris foi assim que ela me pareceu. Preto e branco. Com toques de cinza. Não sei. Paris pela primeira vez foi como um artista que você idealiza. Encontra o cara, vê que é apenas humano, perde a graça. Paris era um sonho. Quando vi que era apenas uma cidade, ah, e caótica como qualquer grande cidade, perdeu a graça. Enxergava tudo cinza. Não cinza como o cinza das fotos de Cartier Bresson, mas o cinza do cinza, do feio…
Então voltei de Paris e fui ver as votos de Cartier Bresson. E vi que Paris em fotos, mesmo preto e branco, tem seus encantos. Mas, Cartier Bresson é Cartier Bresson, e as pequenas fotos que faço na minha Canon amadora até a bobina que segura o filme, são apenas ousadias bem intencionadas de repórter que não sabe fotografar.
E nesse meio tempo eu fui a Londres e vi o sol e o céu azul numa cidade que diziam cinza, cheia de fog. E vi doidões tocando blues em pleno metrô. E o hyde parque mais verde do que os parques de Paris e desisti de atravessar a Mancha no Eurostar.
No ano seguinte voltei ao Paris. Munida de filmes coloridos. E comprei postais em preto e branco para minha coleção.
Estão no meu album, na verdade um saco de plástico guardado no meu armário que esqueço de mostrar as pessoas. Ninguem tem paciência de ver o exagero de fotos que uma jornalista curiosa tira em férias. Nem mesmo eu.
Autor: Fada Básica - Categoria(s): Pessoal, cronica, opinião
Tags: fotografia, grayscale, reflexões
11/12/2008 - 10:23
Fátima Dannemann
Nana Caymmi canta Sábado em Copacabana numa novela de televisão. A Internet anuncia e mostra foto de duas mil pessoas protestando nas mesmas areias da praia que Nana diz no velho samba-canção ter esperado uma semana para conhecer. Em São Paulo, A perícia continua investigando a identidade dos mortos do avião da Tam. Outra cantora, mais ousada, longe da mídia, diz que “Copacabana não me engana, não/ Copacabana é uma ilusão de fim de semana”. Na Bahia, a ressaca e ventos violentos de 30 km/h arrebentam o clube mais chic da cidade. Longe das praias, das músicas, a população do Rio chora as vitimas das eternas balas perdidas e pede que o aparato policial montado para o Pan continue pelo menos por uns tempos.
Esse é o retrato do país pós-pan, pós-tempestade, pós-morte de ACM, o último coronel do norte que se foi desta para uma melhor sem ver duas coisas que ele talvez gostasse de ter visto: Lula vaiado no Maracanã, Waldir Pires demitido do ministério. Mas até isso passou. Botaram a culpa nos pilotos do avião que caiu em Congonhas, implodiram o prédio atingido e, daqui há alguns anos, restarão lembranças. Nana Caymmi segue cantando na novela num cinco estrelas de cenário para uma platéia que mistura personagens do folhetim com personagens da revista Caras e mais alguns artistas. A essa altura, os Jogos Panamericanos ficaram para trás. Lula não foi receber as vaias que sobraram para o prefeito e o governador do Rio. Nem veio enterrar ACM, mandou o vice. Preferiu ir ver a neta dançando em Joinville.
Sim, está nas revistas chiques, vovô Lula vendo a netinha, gorducha e barriguda, dançando no festival de ballet mais importante do país. Na mesma revista que mostra o casamento da filha de Alckmin, que concorreu com o presidente nas ultimas eleições. Uma festa tucana, cheia de empresários, globais, globetes e até uma ilustre ex-detenta: a dona de uma famosa boutique de luxo, trancafiada por duas vezes como sonegadora de imposto. A imagem nesse pós-prisão é melancólica: vê-se uma senhora de meia idade gorda, mal arrumada, mal penteada e com um vestido que até pode ter custado caro, mas não lhe assentou bem. Passou…
Passou mesmo. Ninguém precisa mais de convite para entrar em certos lugares ditos exclusivos. E senhoras dita colunáveis são vistas em camelódromos comprando imitações. Quem vai dizer que não? “Londres”, diz uma esnobe, “nunca mais me vê. Achei aquele aeroporto o fim da picada”. Pobre esnobe que nem sabe que enquanto Nana Caymmi emenda uma música com a Rosa Morena de seu próprio pai (Dorival), uma perua fictícia lá da novela diz que “in mesmo é Reikjavik, na Islândia, civilizadíssima”. Não! Decididamente muita gente tirou o avião de seus planos depois do acidente em Congonhas. “Vou de navio”. Se não der? Fico em casa e vejo o mundo pela janela.
Só que em terra de bala perdida quem fica em janela tem instinto suicida. Melhor fazer que nem Daiane dos Santos, dar uma desculpa e ficar livre do vexame. Já chegam os micos que todos os brasileiros pagam nesse Brasil do pós tudo. Já chegam os baianos verem a Fonte Nova depedrada e descartada caso o Brasil venha a sediar alguma copa do mundo. Já chegam outras incertezas e a cara de pau de colocar a culpa do acidente de avião nos pilotos só porque, a essa altura do campeonato, não há defesa. E vamos continuar vivendo, sim, porque mesmo tendo passado o Pan, o acidente, ACM, e até a novela das oito já esteja além da metade, a vida continua. É a alface que sobe no supermercado tornando a salada que o médico recomenda simplesmente inviável. É o refrigerante que torna seu lanchinho mais caro do que um jantar no japonês mais próximo. São as ondas e os ventos que cedem lugar ao sol. Ainda bem, porque depois de tanto rolo é preciso um refresco.
Autor: Fada Básica - Categoria(s): cronica
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24/10/2008 - 20:41
Fátima Dannemann
- Ali a esquerda fica a faculdade de comunicação… Ninguém leu errado. Faculdade de comunicação, sim. E melhor: um ponto turístico em Varsóvia, capital da Polônia, pais que há 15 anos se libertou do ultimo “grilhão” e vem fazendo uma nova história. Nova, sim, totalmente, porque se tornou um dos raros países europeus onde a população é predominantemente jovem. Pois é. Pouca gente sabe maiores detalhes, mas a Polônia é um país jovem, bonito e alegre apesar das feridas do passado ainda não terem cicatrizado totalmente. A pior delas? A dominação soviética. Há poloneses que se mostram capazes de perdoar os alemães, “porque o mundo estava em guerra e nem todos eram nazistas”, mas de não perdoar os russos, “eles ficaram aqui por 40 anos. Mataram mais”. Das mazelas, sobraram enormes caixotes cinzas chamados de prédios de apartamentos que vão sendo modernizados pelos moradores. Antes não tinham elevador, nem banheiro, muitos não tinham nem janelas. Agora, alem de tudo isso, ainda ganham cores e jardins. Coisas de uma Polônia que nasce (ou renasce) para o mundo.
Essa é a maior surpresa que o brasileiro tem quando chega ao país lá no norte da Europa, na beira do mar do norte. As tristezas estão ali em forma de museus de horrores como Auschwitz, mas a alegria é maior. Ninguém esquece o passado. Mas, os milhares de estudantes que moram e freqüentam as universidades de Cracóvia são pura alegria ao saírem as ruas vestidos de Branca de Neve e os Sete anões, sem medo de ser feliz. Nas ruas largas da capital, presença de griffes famosas denunciam que tempos de cafonices e roupas escuras ficaram em algum canto dos livros de história. Guias mostram detalhadamente o castelo do rei Poniatowski, lembranças de uma era muito mais gloriosa em que amantes do rei eram presenteadas com castelos em um parque maravilhosamente verde que em muito lembra os trianons de Versailles, com uma diferença: os reis poloneses amavam o povo, a democracia e a liberdade. Estavam tão a frente de seu tempo no século XVIII que a monarquia acabou não dando certo.
O país ama a liberdade, sempre teve artes e ciências avançadas, uma religiosidade a toda prova e talvez por isso tenha sido escravizado e seu povo sofrido horrores. Na segunda guerra mundial, havia mais de 40 campos de concentração onde morriam não somente judeus, mas poloneses e, já no final da guerra, gente de todo o continente europeu. Auschwitz, Bierkenau, Treblinka, nomes que são mais que dados a serem decorados por estudantes de história. São palcos de terror. Trabalhar como guia em Auschwitz onde ainda se sente cheiro de corpos queimados é tão penoso que se trabalham dois meses e descansa-se um. No máximo. Do gueto de Varsóvia, onde milhares de pessoas foram trancafiadas dentro de um muro e depois incendiadas, sobrou um memorial com muitas fotos e um monumento.
Apesar disso, o país não perde o pique e vem se refazendo. Já aderiu à Comunidade Européia, vem fazendo uma série de obras e melhorando toda a infra-estrutura que andou uns 40 anos atrasada (é impossível ligar direto ou a cobrar para o Brasil, entre outros detalhes). Como boa parte da população morreu durante as dominações nazistas e comunistas, o pais vem refazendo seu povo que é jovem, bonito, alegre, bem vestido, e criativo e culto como dois de seus maiores expoentes, o compositor Chopin e o astronomo Nicolau Copérnico, sem falar no mais famoso deles, o papa João Paulo II. Longe das mazelas históricas, os bares e restaurantes, muitos deles com decoração primorosa, fervilham de pessoas que aproveitam o dia que se estende, no verão, até mais tarde. A cozinha é um primor. Come-se muito bem e bebe-se melhor ainda, principalmente vodka e cerveja. Sem falar nos doces e sorvetes. A Polônia é uma festa. Depois de uma era de dominações, o pais respira liberdade e transforma tudo isso em juventude e alegria. Uma grata surpresa, como a primavera que volta todos os anos depois dos rigores do inverno
Autor: Fada Básica - Categoria(s): cronica
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23/10/2008 - 20:41
Fatima Dannemann
Imaginava algo grandioso, com certa aura de mistério, como a música do Jethro Tull. E era… Imaginava o Danúbio correndo dos dois lados de cada cidade, Mas não era uma ilha. Eram duas cidades interligadas pelas pontes por onde andaram reis e rainhas. E do alto o castelo contemplava o rio e as pessoas que corriam com medo da tempestade. Nos dois lados do rio, bosques escondiam lobos, esquilos, corujas, cervos. Alem do bosque, tocavam violinos ciganos. E alguém falou que parecia Paris. Mas não era…
No calçadão da Vatchi Utca, tentava pronunciar nomes equisitos. Palavras esquisitas e faladas pareciam esconjuros mágicos. Mas não eram… Kösönom, obrigado, que pronunciado lembra qual seu nome. E ninguém responde nada. O goulash vem num caldeirão e a palinka servida no “miguelito” anuncia que a noite dormiremos todos bêbados. E foi mesmo assim. Enquanto isso, as águas do Danúbio não parecem azuis e são quase negras. Logo ali em frente é a Romênia. Mas aqui… Não era… E o mercado apinhado de gente. Turistas que se acotovelam em busca de quinquilharias. Lá embaixo a páprica é vendida com vinho tokay. Pimenta que na boca de quem prova o goulash é refresco.
Memórias húngaras numa tarde de verão. Vitrines, engarrafamento, correria. Alguém lembra que o sol se põe no oeste que ali fica atrás das colinas de Buda. Pest? Faz jus ao nome. É cinza e feia como lembranças dos tempos em que o país foi dominado por outros povos. Do alto da coluna, o Arcanjo Gabriel abençoa a cidade e uma guia ranzinza diz que as obras de Picasso são apenas uns quadros que ele pintou para homenagear as namoradas. Desprezo numa face que não sorri e demonstra saudades dos tempos de pouca liberdade.
Húngaros parecem correr atrás do tempo perdido. Tudo custa cinco euros. Ou quarenta. Numa cotação de câmbio que dá nó nos cérebros pouco matemáticos. Os olhos das pessoas são azuis como o céu de verão sem nuvens. Não se ouve o Jethro Tull, mas a cidade é grandiosa e, de certo modo, bela. A magia das pontes iluminadas se acentua ao som de uma rapsódia de Liszt. A cidade tem o som de violinos e as pisadas firmes do sapateado dos ciganos. Doido contraste entre medieval, pós-moderno e cigano. A cidade não tem graça quando relampeja e troveja. Tudo se derrete pelas águas da chuva. Arvores caem, pânico e alguém confunde raios com fogos de artifício.
E a Hungria se mostra confusa como um saco de gatos. Um país que já passou poucas e hoje estaria numa boa se não fosse o Forint, uma moeda desconhecida no resto do mundo, com quase nenhum valor. Olhos nativos brilham ao divisar euros nos bolsos alheios. Mãos furtivas batem carteiras, dizem. Mas eu não vejo. Ruas cinzentas, casas escuras, ciganos, florestas. E se o lobisomem aparecer? Basta assoviar ensina alguém cantando uma musiquinha que servem para os lenhadores voltarem para casa sãos e salvos depois de atravessarem as florestas no meio da noite.
Budapeste, o Danúbio iluminado a noite coroa uma rainha. Sissi andou por la. Atila, o huno, também viveu por lá. Mas a moça que não sorri não fala em List. Prefere Bartok, das músicas que ninguém ouve mas que os estudantes de piano precisam decorar para as provas. E eu imaginava algo grandioso como um rock do Jethro Tull. Achei uma cidade monumental, e era. Cheia de gente que não sorri. E eu não gostei de Budapeste.
Autor: Fada Básica - Categoria(s): cidades, cronica
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16/10/2008 - 11:54
Fatima Dannemann
Liverpool amanheceu ensolarada naquele domingo. Pelo menos teoricamente, era manhã. Lá pelas sete horas, quase isto, um pouco menos. Mas, ainda havia noite cerrada. Um grupo descia para o café da manhã no mesmo hotel onde o Liverpool, time de football, amargava a derrota contra outro time por algo próximo a 3×2, e uma moça descia o elevador ainda em trajes de noite. Tinha os olhos visivelmente vermelhos. Teria chorado?
Ela parecia decepcionada e não parava de tentar uma ligação telefônica de todos os aparelhos disponíveis no local.
_ Será que ela caiu na mão dos hooligans?, cochichavam os amigos que tomavam o café boquiabertos de ver que a noite do Outono Inglês pode durar bem mais que um amanhecer tardio. E os resultados tanto poderiam ser deecpcionantes, como no caso da moça chorosa e que, alias, vestia uma jaqueta prateada, ou supreendentes, como no caso de duas morenas frajolas que desciam o elevador às gargalhadas justamente quando o grupo que acordava provava as toasts (torradas) com raspberry jam (a velha e boa geleia de framboesa, diga-se de passagem) de seu breakfast.
Para aquele grupo, a moçoila de jaqueta prateada, nervosa, doida para conseguir uma ligação, possível presa dos hooligans ou quase isto, parecia um personagem de filme de suspense.
_ Seria a vítima ou a criminosa?, especulavam os comensais à mesa.
Era loira como as protagonistas dos filmes de Hitchcock. Estava visivelmente em crise.
_ Foi por isso que Liverpool inspirou os Beatles. Por causa dessa vida desvairada.
Na porta da legendária cavern club, a boate onde os Beatles começaram sua carreira e que nem é mais a original, mas uma reconstrução mais que perfeita, garrafas quebradas, latas amassadas, copos plásticos, camisinhas usadas e outras coisas mais.
_ Parece a Praça Castro Alves depois do carnaval.
_ Cansada?
_ Não, decadente e degradante, apenas com o lixo da festa e mais nada.
Liverpool inspira música não por seus muros de tijolo vermelho ou por suas casas idênticas, mas por seus ares de submundo.
O lixo no ponto histórico da cidade portuária inglesa parecendo o lixo legitimamente baiano. A moça loira da jaqueta prateada chorando as dores de amores fazem jus aos Beatles. A vida é louca como uma canção piscodélica e é sempre a mesma coisa, não importa o local. Acorda-se para ver o sol nascer em Liverpool, às 7 horas’. Não, não tem sol. É noite cerrada. Aqui tem sol. Mas ninguém tem tempo de reparar nesses detalhes. A moça loira chora ao telefone. As duas moças morenas riem frenéticas. Enquanto isto, outros tomam o café da manhã. E a vida, como um show, must go on and on and on…
Autor: Fada Básica - Categoria(s): cronica
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20/09/2008 - 17:47
Fatima Dannemann
Você conhece alguém do Acre? Você já viu alguma foto do Acre? O Acre existe ou é uma lenda criada pelos extra-terrestres? Antes que alguém possa rir, aviso, isso é serio e ocupa várias páginas da busca do Orkut. Várias comunidades foram criadas apenas para discutir se o estado mais a oeste do Brasil existe de verdade ou “é uma obra de ficção”. O Acre existe, claro. É tão real quanto o Rio de Janeiro, apenas não aparece na mídia. Assim como não aparecem Rondônia, Roraima, Amapá, e mesmo os mais “chiques” Mato Grosso, Amazonas e Pará. Mas destes três, ninguém duvida. Pipocam comunidades para discutir existência de um Brasil pouco visto, pouco conhecido, pouco mostrado e visitado embora, quem se digna a pesquisar fotos e sites descobre lugares interessantes, sítios históricos e vários endereços que, se o Brasil fosse outro Brasil, seriam um must entre os turistas que têm cultura e dinheiro.
Distantes dos grandes centros, desprezados pela mídia, esquecidos pelas agencias de turismo (até porque são estados carentes de infra-estrutura e de investimentos na área de turismo e hotelaria), os ex-territórios promovidos a estado sequer são nomes de rua em cidades como Salvador onde Acre e Amapá continuam sendo chamados de “território” e Rondônia e Roraima ainda são Guaporé e Rio Branco. A culpa, dizem, é da mídia, especialmente da televisão, que só mostra o norte do país quando há crimes como a morte de Chico Mendes, escândalos políticos, como o que envolve os deputados de Rondônia, ou conflitos indígenas, enquanto as novelas insistem em mostrar cidades violentas como o Rio
como verdadeiros paraísos onde ninguém nem trabalha e só vivem na praia pegando onda. Não é assim não, violão.
A culpa é da mídia e é também da própria sociedade que adora estereótipos. Para muita gente, baiano come acarajé o dia inteiro e toma banho com água de coco, qualquer nordestino tem cabeça chata e os gaúchos são homossexuais somente porque o modelo da calça de seus trajes típicos é um bocado estranho. No caso do Acre, o mais grave é que professores de geografia são os primeiros a fazer piadinhas sobre a não existência do estado. Tudo bem que ninguém nunca ouviu a locutora do aeroporto dizendo: “passageiros com destino a Rio Branco, embarque imediato no portão tal”. Mas, sabe-se lá quantas conexões são necessárias até sair do todo poderoso – e de certo modo racista Sudeste- até os confins do Norte do Brasil? Apesar disso, moradores de Rondônia (tão longe quanto o Acre, mas atualmente mais famoso por motivos pouco elogiosos – a questão dos deputados) já chegaram a Bahia e de carro.
As comunidades podem ser engraçadas, ter tiradas de humor, mas revelam algo muito triste alem do descaso para com o norte do Brasil e o esquecimento da mídia: a ignorância dos estudantes brasileiros. Muitos não se abalam em aproveitar o “gancho” para pesquisar ou mesmo procurar fotos e conhecer esses lugares (incluindo Roraima, Amapá e Rondônia) um pouco mais. Preferem todos ficar na gaiatice embora os moradores, nativos e simpatizantes do Acre, Rondônia, etc, tenham criado comunidades pra falar de seus estados e cidade.
Enquanto a discussão persiste no Orkut, algumas comunidades dizem que “Acre is a lie” outras dizem que “O Acre existe, ora” logo no titulo, há quem aproveite para fazer gracinhas e digam que bem que a globo podia fazer uma novela em que a mocinha iria migrar para o Acre em busca de uma melhor qualidade de vida com mais verde e mais ar puro em vez da poluída e conturbada Miami. Talvez assim, América fizesse mais sucesso. Aliás, falando em América, advinhem para onde o pai de Tião se muda nos primeiros capítulos da novela? Será que foi por isso que o diamante que ele achou na Mina nunca chegou a sua família?
Autor: Fada Básica - Categoria(s): cronica
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