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29/10/2008 - 11:08

Sonhei que estava na Disneylândia

Fátima Dannemann

 

             Folheio uma revista de turismo e lembro de alguns anos, quando a moda era ir aos Estados Unidos. Mais precisamente, a moda era a Florida, que não chega a ser toda a América, apenas um dos 50 estados norte-americanos. Mais precisamente ainda, a moda era ir aos parques de Orlando. Disney, Universal, Bush Gardens. Subiu o dólar, caíram as torres gêmeas. Bush, Osama Bin Laden e as dificuldades burocráticas se encarregaram do resto e hoje, penso, se tornou complicado conhecer o país do Mickey Mouse (sim porque a Disney é um mundo à parte).

              Aqui onde moro, já não se vêem aqueles outdoors imensos que me davam vontade de me juntar à pirralhada que todo ano ia brincar na Splash Mountain ou morrer de medo nos Piratas do Caribe e depois voltar de lá com a mala cheia de quinquilharias – preciosas inutilidades que nos tempos de Collor eram objeto de consumo de dez entre dez candidatos a high society reprovados pela política econômica de Zélia Cardoso de Mello. Levar meninos à sua primeira viagem internacional deixou de ser a mais importante das metas das agências de viagem até porque hoje em dia, outro filão vem se mostrando mais vantajoso, os cruzeiros maritmos.

              Mas, Disney é Disney e embora o Universal seja mais divertido, pisar o mesmo solo de Mickey, Minnie, Pato Donald e até de vilões como a Rainha de Copas e Malvina Cruela faz o delírio não só de crianças como até de adultos. E outro dia eu sonhei que estava lá. Uma Disney diferente, diga-se de passagem, pois não era nenhuma das três que eu conheci (sim, além da Florida, estive na Califórnia e em Paris. Advinhe onde?). E eu procurava “cadê Toontown? Cadê o castelo da Princesa?” No meu sonho, não havia a fantasia dos desenhos só a realidade de que hoje, apesar da economia brasileira estar melhor e mais estável, se tornou mais difícil viajar. Vistos, burocracia, o eterno jeito como o brasileiro é visto lá fora.

              Pois é. Em Londres, andam barrando até inocentes estudantes brasileiros porque “pode ser um terrorista”. Poxa… Terrorismo no Brasil? Só se for o baixo salário, a falta de segurança, a falta de oportunidades de emprego, o racismo, o preconceito, as doenças infecto-contagiosas, inclusive a AIDS, que avançam de norte a sul do pais, as balas perdidas que atingem inocentes. Não, não somos Osama Bin Laden. Terroristas são os outros. Talvez os fantasmas que impedem a minha Disney dos sonhos de ser algum dos três parques que eu conheci e curti em três diferentes pontos do planeta.

               O sonho tem algo de bonito e muito de angustiante: em volta do parque, uma praia deserta onde me dizem para não ir. “Perigoso”. Estacionamentos onde um carro corre o risco de ser perdido. Brinquedos esquisitos. Nem sombra do Mickey embora eu veja o ursinho Puff, “mas não é ele. É parecido”, me dizem, “engana”. E eu não quero enganos, quero certezas. Chego a conclusão que aquela Disney poderia ficar aqui mesmo na Bahia em qualquer boca-quente onde se entra por acaso e se sai por um golpe de sorte: a adrenalina da montanha russa é o medo de cair em mãos erradas. Não há trem fantasma porque quem precisa de trem fantasma se um ônibus é seqüestrado na esquina da sua casa?

               E essa é a parte feia. O bonito é ver que o mar, ali, ainda é azul. Que na praia tem coqueiros, tem mato intocado, sem nenhum pivete escondido e pronto para atacar. Ah, e dá para ver peixes nadando. Essa talvez seja a fantasia: peixes nadando tão perto sem medo de serem pescados. O vendendor de água de côco lhe dá o troco sem reclamar, e o sorveteiro garante que o picolé não foi feito com água poluída. Sim, minha Disney podia ser logo ali, num lugar onde o faroeste seria caboclo com direito a guerra urbana que nenhum governante resolve, que ninguém acena com um tratado de paz. Mas era um parque que me fez lembrar que já faz tempo que eu fui a Disneylandia, um parque que me fez lembrar que todo ser humano precisa de um pouco de fantasia.

 

Salvador, 26 de junho de 2007

Autor: Fada Básica - Categoria(s): Sem categoria Tags:


1 comentário para “Sonhei que estava na Disneylândia”

  1. MALATESTA disse:

    e eu que nem fui lá, nem vi,
    só fiquei salivando de vontade
    pela sua descrição

    bem que podia ter uma foto
    melhor se fosse da cerveja

    mas voltarei outras vezes
    para passar vontades

    quando puder
    visite esse vizinho

    abraço
    MALATESTA
    http://www.blig.ig.com.br/malatesta

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