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09/12/2008 - 19:52

América Latina, renda mais desigual do planeta, mas Brasil melhora

Marcia Carmo
De Buenos Aires para a BBC Brasil

Índice de pobreza cai na América Latina, diz Cepal

O índice de pobreza caiu quase um ponto na América Latina e no Caribe em 2008, passando de 34,1% em 2007 para 33,2% neste ano, com um total de 182 milhões de pobres, segundo o relatório Panorama Social da América Latina 2008, divulgado nesta terça-feira pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal).

A pobreza extrema ou indigência subiu levemente, de 12,6% (68 milhões de pessoas) no ano passado para 12,9% (71 milhões) neste ano, segundo o documento da Cepal, que faz parte das Nações Unidas e tem sede em Santiago, no Chile.

De acordo com o relatório, que analisou dados de 18 países e foi apresentado pela secretária-executiva da Cepal, Alicia Barcena, a pobreza e a indigência tiveram um “comportamento menos favorável” do que no período 2002-2007.

Naquele período, o número de pessoas na pobreza caiu 9,9% (37 milhões menos), e o número abaixo da linha de pobreza teve redução de 6,8% (29 milhões).

Alimentos

Segundo a Cepal, a inflação registrada a partir de 2007 em diversos países contribuiu para o resultado de 2008. A alta de preços de alimentos, acrescenta o relatório, foi o principal fator para esse quadro.

Entre os países que registraram fortes altas nos preços dos alimentos, mesmo antes do agravamento da crise internacional, estão Venezuela, Bolívia, Chile e Argentina, por exemplo.

México, Brasil e Peru, nesta ordem, estão entre os que tiveram menor inflação – total e de alimentos.

A secretária-executiva da Cepal disse à BBC Brasil, por telefone, que a alta de preços em 2007 impediu que 4 milhões de pessoas saíssem da pobreza.

Em 2008, segundo Barcena, 11 milhões caíram da pobreza para a indigência devido ao aumento nos preços.

Na Venezuela, apesar da alta de inflação de alimentos, a pobreza caiu devido aos programas sociais, de acordo com a secretária-executiva da Cepal.

Brasil

A secretária-executiva da comissão também comentou os avanços sociais registrados pela entidade no Brasil.

“Entre 2002 e 2006, o Brasil conseguiu reduzir a pobreza em 1,5 ponto percentual por ano. E entre 2006 e 2007, reduziu a pobreza em 3 pontos percentuais”, disse Barcena. “O Brasil é um exemplo de como a pobreza pode ser combatida.”

“O Brasil fez esforços muito importantes, e o programa Bolsa Família foi um dos de maior sucesso para esse avanço social”, acrescentou.

Segundo Barcena, a tendência de melhoria social também foi registrada em 2008. “Mas, em 2009, não sabemos o que vai acontecer”, disse.

“Acreditamos que países como Brasil estão bem posicionados, porque o emprego aumentou e a produção foi diversificada”, afirmou. “O país fez esforços para ter crescimento econômico, mas combatendo a desigualdade social.”

Crise internacional

De acordo com a Cepal, a situação social pode piorar no ano que vem devido à crise internacional.

“A Cepal prevê que a desaceleração econômica mundial vai se refletir na região com menor demanda de bens de exportação e menor investimento no setor produtivo, além de queda nas remessas de dólares dos imigrantes”, diz o relatório.

O documento afirma que o emprego deverá “estancar durante 2009″ e que os salários reais poderão se manter ou até diminuir levemente. Os mais afetados, diz a Cepal, deverão ser os trabalhadores que não têm carteira assinada e trabalham por conta própria.

Por isso, diz o relatório, a expectativa é de que a pobreza e a indigência “subam levemente” no ano que vem, ampliando o resultado negativo que começou a ser detectado neste ano.

No entanto, a Cepal afirma que a crise internacional não afetará todos os países igualmente. Segundo a comissão, serão mais afetados aqueles com menor nível de remessas (de dólares enviados pelos imigrantes), caso do Paraguai.

Também serão afetados países com conexão direta com o mercado dos Estados Unidos e que tenham estrutura de exportação menos diversificada ou sistemas fianceiros mais fracos, diz o documento.

Para evitar os efeitos sociais da crise internacional, a secretária-executiva da Cepal diz que é preciso “reforçar a assistência social” aos mais vulneráveis, desde cestas básicas até programas de emprego e de combate à desnutrição infantil, e ampliar o seguro-desemprego.

Concentação de renda

O relatório afirma que a concentração de renda continua sendo um drama na região, a mais desigual do planeta.

O documento diz ainda que o desemprego vem caindo desde 2002 na maioria das áreas urbanas, mas ainda é alto. A taxa de desocupação permanece mais alta entre pobres, mulheres e jovens, diz a Cepal.

O Panorama Social aborda também a violência juvenil e familiar na América Latina. “Essa violência se nutre de diversas formas de exclusão social, como a desigualdade de oportunidades e a falta de acesso ao emprego”, diz o relatório.

“A essas questões, somam-se a violência das quadrilhas e o recrutamento de jovens nas redes de crime organizado e conflitos armados”, completa.

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O sucesso da Bolsa Família e de outras iniciativas brasileiras no combate à pobreza foi tema de uma longa reportagem publicada nesta quinta-feira, de uma série sobre o país feita esta semana pelo jornal americano The Christian Science Monitor.

“Embora a crise financeira global esteja afetando o Brasil, a economia do país teve uma efervescência nos últimos cinco anos e o padrão de vida dos pobres subiu”, disse o jornal, explicando que “inflação mais baixa e acesso mais fácil ao crédito – juntamente com um salário mínimo mais alto – criaram uma nova classe de consumidores que mantiveram a economia em crescimento.”

“Com o maior programa de bem-estar com condições do mundo para os pobres, e uma enorme quantidade de iniciativas locais, estaduais e federais que continuam a ter como alvo os pobres – um marco da Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva – muitos brasileiros estão sentindo uma estabilidade econômica como nunca antes.”

E as iniciativas brasileiras estão servindo de “exemplo” para vários países, diz o jornal americano.

A reportagem, assinada por Sara Miller Llana, visitou Maria Joelma da Silva em Cumaru, no nordeste brasileiro. Segundo o Christian Science Monitor, ela recebeu a visita em agosto de “representantes de Angola, Gana, da União Africana e do Banco Africano de Desenvolvimento”, que queriam “estudar os programas sociais do Brasil”.

A Bolsa Família “teve um papel importante na redução da pobreza, o governo também trabalhou para criar mais empregos formais – 8,1 milhões mais desde que Lula assumiu o cargo – e elevou o salário mínimo para R$ 415 (US$ 187) por mês a partir de R$ 200 (US$ 90) por mês. O número dos pobres caiu de 18% em 2007 dos 19% do ano anterior. De acordo com dados do governo, a renda dos mais pobres aumentou 22% nos últimos cinco anos, enquanto a dos ricos aumentou 4,9%”, disse a reportagem do Christian Science Monitor.

“Os primeiros programas de transferência condicional de dinheiro do mundo foram introduzidos no Brasil em 1995 a nível municipal”, de acordo com o jornal americano, que afirma que “o conceito, desde então, tomou pé firme na América Latina, onde mais de uma dúzia de programas como estes foram lançados. Uma outra dúzia está sendo implementada no resto do mundo.” .

Autor: João Rocha - Categoria(s): Governo, Notícias, Politica Tags:
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