11/11/2009 - 02:02

AREIAS ANDARILHAS
Areia branca, areia fina
pés descalços não querem fronteiras
percalços de uma vida livre
a caminho de Itapuã.
E lá se vai
o coração sem prumo
sangrando lentamente
a areia da ampulheta do destino
com grãos pequeninos,
feito resquícios
dos meninos de um Buñuel esquecido
saga de muita miséria e poesia,
sacolé de morango esparramado
nas escadarias da Rocinha
impertinentes memórias
que o vento insiste em varrer das mentes
tufaneando um outono modorrento
erguendo poeira do canteiro de obras
da Catedral da Sagrada Família
embaçando o olhar sagrado
das freiras catalãs
que não sabem dos Lençóis Maranhenses
nem dos vodus encomendados em Codó
mas conhecem a fama das ciganas romenas
que buscam nas linhas das mãos
segredos de um sobreviver sem ansiedade
de se deixar rolar nas dunas de Morro Branco
e ser aprisionado dentro das garrafas
de finas areias coloridas
que por fim serão lançadas ao mar
para que não fiquem imóveis
sobre os móveis empoeirados
das casas humildes
e sigam boiando, horizonte adentro,
numa travessia que não tem fim.
Autor: Betusko - Categoria(s): POEMAS
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09/10/2009 - 17:55
“O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas
Era pouco, muito pouco e se acabou”
COISAS DA VIDA
Da proa do veleiro amarelo
avistava-se um casal
a velar o pôr-do-sol
contemplando com melancolia
o horizonte faiscante
em visível contraste
com o sentido explícito
de um amor que envelheceu
e oxidou seus sonhos
embotou suas emoções
borrou suas tatuagens
de lua, sol e estrela
envenenou com o desânimo
o que de mais belo existia
nos corações comprometidos
Amor apodrecido este
que cancelou assim todos os delírios
calou o grito do gozo concebido
decretou a falência de um convívio vívido
até sangrar o matiz mais caro
da tela de uma vida inteira
e deitá-lo em vala comum
junto a tantos outros sentimentos
há muito abandonados
a exemplo da paixão
que hora jaz em amizade tímida
nas veias de um triste casal
que aprecia a natureza
sob o balanço tímido
da pequena embarcação dourada.
Autor: Betusko - Categoria(s): POEMAS
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19/09/2009 - 07:47

DESPEDIDA
Lá vai o trem das seis
e eu ficando aqui parado
pressentindo o vai-e-vem
perscrutando o coração
sondando aparvalhado
fiapos de emoção
neste dia tão nublado.
Foi-se embora o trem de aço
com belém, belém na curva
tengo-lengo, tengo-lengo
e eu sentado aqui sozinho
transmutando pensamentos
tombado na plataforma
sentindo um vazio enorme
colhendo uma dor infame
neste tão duro momento
da separação disforme
da alma presa no arame:
eu prá cá, você prá longe.
Autor: Betusko - Categoria(s): POEMAS
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09/09/2009 - 00:01
MORRER É VIRAR UMA FOTO NUMA CAIXA DE SAPATOS
Até pouco tempo atrás, quando alguém falecia, levava vinte a trinta anos para se tornar apenas uma fotografia no meio de outras quinhentas, numa caixa de sapatos. Não nos iludamos, apenas três ou quatro pessoas vão cultuar nossas memórias por mais uns anos:
_ Vó, quem é este aqui do seu lado, fazendo careta?
_ Ora, menina, era seu bisa…
Agora, na era digital, quando ninguém mais faz ampliações, quanto tempo levaremos para virarmos apenas uma imagem que ninguém mais vai acessar, perdida em uma pilha de centenas de dvds, isto é, se tiverem o cuidado de fazer um beckupzinho…
O CONTROLE REMOTO DA VIDA
Às vezes parece que temos o domínio sobre nossas vidas e nos sentimos confiantes, apertando os botões do controle remoto com bastante desenvoltura. Porém, a cada tranco que a vida nos dá, percebemos que este nosso aparelho de controle não tem pilhas e na verdade é a vida quem nos controla, é ela é quem nos domina, nós apenas dançamos conforme a melodia. Então: “Deixa e vida me levar, vida leva eu…”
AMOR X PAIXÃO
“O Amor está para o Red Bull assim como a Paixão está para a morfina – no dia seguinte é que se percebe a diferença.”
SEM O AMOR
Sem o amor, a vida se resume a uma engrenagem enferrujada, sem função e sem valia.
ALGUÉM ESTÁ TE XINGANDO?
Quando alguém quer nos dar um presente e não o aceitamos, este presente volta a pertencer a quem nos ofereceu; assim também, quando alguém tenta nos agredir com palavras, humilhar, ou desqualificar-nos, – se não aceitamos estas ofensas, deixamos de dar poder a elas e as mesmas voltam a pertencer a quem as proferiu.
Não devemos dar ouvidos a provocações.
CORAÇÃO AMARRADIM
Ocultei sua caixa de costura na esperança de descobrir seus segredos e quando dei por mim, minha alma já estava costurada na sua e meu coração, amarradim, amarradim…
A FÚRIA
“A violência de um terremoto, a explosão de um vulcão ou a força de um Tsunami não são nada comparado com a fúria de uma mulher com T.P.M.” Sai da frente!
SONHO FURTADO
Na calada da madrugada, o pivete roubou-lhes as roupas do varal, a bicicleta, as ferramentas e suas últimas esperanças de viver em tranqüilidade naquela cidade minúscula, perdida no meio do nada no sertão, após deixarem para trás a cidade do Rio de Janeiro.
Autor: Betusko - Categoria(s): PENSAMENTOS
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20/08/2009 - 00:17
Há dias em que acordamos e pulamos da cama como um Curupira; com os pés virados ao contrário e uma vontade danada de dar bordoadas nos infratores da nossa floresta.
E saímos assim, cambaleando em busca de um café puro e fumegante. Giletes velhas e sem fio rompem-nos a velha cara de pau matinal e deixam um trocinho de esparadrapo no queixo choroso. A resistência do chuveiro não oferece nenhuma resistência aos pingos gelados d água que nos fustiga os neurônios teimosos em não se abrir para o dia. O maço de cigarros cospe apenas um vento vazio de intenções. Na passagem pela portaria, o Zé nos entrega um envelope do SPC com carimbinho: Urgente. Na garagem o motor de partida do velho Gol não parte para lugar nenhum, somente resmunga um nhem-nhem-nhem tradicional e depois se cala para todo o sempre. Pilares estreitos e uma moto na frente impedem a tentativa de dar um tranco no bicho preguiçoso. O jeito é correr para o ponto do busão. Compromisso na primeira hora da manhã é foda e não perdoa.
No coletivo coletamos todas as sensações possíveis: mulher tossindo gotículas de Gripe Suina, malandro querendo correr os dedos na bolsa da loura, jovem gordo imprensado no banco lateral, cobrador cobrando respeito e um passinho á frente. Para ajudar, o coletivo tem sua correia dentada repentinamente desdentada e, á pé, partimos todos nós passageiros de uma nau perdida, em meio à avenida de trânsito caótico.
O elevador da empresa resolve fazer greve no quarto andar e, com mais seis pessoas em pânico, quinze minutos parecem uma eternidade.
Uma hora de atraso, chefe com cara de bosta, cliente “ fumando numa quenga” e o Curupira aqui, todo troncho sem conseguir abrir o note-book com o projeto da campanha.
A gota d água foi a espinha de bacalhau do bandejão do meio-dia. O grito foi ouvido
em todos os corredores da praça de alimentação: _ Puta que le o pariu!!!!
Como não há mal que sempre dure, a noitinha nos encontra no quarto do hospital, em meio a amigos e parentes solícitos e cordiais demonstrando o carinho imprescindível; até o chefe com uma revista Playboy com capa de uma BBB qualquer para nos entreter.
Foi uma crise de stress, falou o médico residente plantonista, só isso.
Dia seguinte, começa tudo outra vez. Êta, vida besta!
Autor: Betusko - Categoria(s): CRONICAS
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16/08/2009 - 23:38

É NOITE…
É noite, os cães latem
todos os cães,
os amantes partem,
todos eles se vão
a lua quase morta de minguante
anuncia que hoje é segunda-feira
dia de apascentar o espírito
de apalpar os calos do coração.
É noite, os anjos descem
todos os anjos baixam
e sob a batuta invisível tecem
um pano com tramas astrais
para socorrer os atormentados
os apaixonados, os enfermos
e, sobretudo, os poetas cansados
que recolhem-se ante ao torvelinho
de latentes emoções virais.
Autor: Betusko - Categoria(s): POEMAS
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13/08/2009 - 22:30

Vago como um cometa errante
em noites frias e enfumaçadas
por entre vielas escuras,
onde meu corpo é arrastado
refém de correnteza fugaz
que atrai alucinações.
Emudecido, caminho ao léu,
são muitos, muitos vácuos
a percorrer em solidão,
em cada bar, uma certeza:
o pesadelo continua
atroz, corrosivo, implacável
arrancando-me um grito bestial
do fundo do peito apreensivo
que ecoa angustiado
contra sombrias paredes.
Quase insano, já sem rumo
avanço sobre a rota de Dante.
Há pedras e mais pedras no caminho
seres horrendos a rastejar,
vultos acenam-me ao longe.
Alargam-se as avenidas
infindáveis e tristonhas
furtadas à negra noite,
gélida cada vez mais.
Subitamente caio de joelhos
aos pés de uma porta enorme
grafitada em Latim vulgar:
“Deposite aqui todas as esperanças”
Abro-a com ansiedade e vislumbro
lá estão elas, todas elas
infernais criaturas a me esperar…
Autor: Betusko - Categoria(s): POEMAS
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11/08/2009 - 23:23
ANGÚSTIA
gaivotas dão rasantes no cais
estivadores cantam baixinho
gemem uma saudade pontiaguda
containers melancólicos são içados
tristeza e solidão bóiam nos corações
o vermelhão da Aurora rompe dissabores
passarelas de madeira passeiam
sob o ar gelado e nauseante
balanças e estacas se estranham
e num canto escondido
daquele porto febril
um homem soluça em silêncio
escravo de um vil sentimento
a dor de um amor perdido.
Autor: Betusko - Categoria(s): POEMAS
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01/08/2009 - 10:03

PRÁ FRENTE, BRASIL!
O céu estava forrado por centenas de balões naquela tarde de domingo. A folhinha do Sagrado Coração de Jesus, pendurada na parede da cozinha marcava 21/06/1970. Estávamos todos gritando vivas e pulando feito touro em rodeio, com as veias jugulares quase explodindo no pescoço de tanta euforia. Em cada esquina, o som que se ouvia em unanimidade nos aparelhos de rádios, sempre no último volume, era o tão conhecido hino que seguíamos cantando indefinidamente:
“Noventa milhões em ação,
Pra frente Brasil,
Do meu coração…
Todos juntos vamos,
Pra frente Brasil,
Salve a Seleção!”
O juiz mal acabara de apitar o encerramento da partida entre Brasil e Itália e a Vila Carmozina em São Paulo entrou em catarse. Cada garoto pegou sua bola de couro, de plástico de meia e saiu à rua a driblar e a chutar, desesperados em comemoração ao tricampenonato do Brasil e à posse definitiva da taça Jules Rimet. Os vizinhos todos, exceto seu Carmelo que era italiano e meu pai, que sempre vinha com a mesma ladainha quando tinha jogo de futebol pela TV – “os jogadores ganham uma fortuna e o povo morre de fome” – se abraçavam e comemoravam loucamente a conquista como se estivessem dentro do estádio Azteca na cidade do México. Quase podíamos abraçar um Pelé imaginário, um Rivelino, um Tostão, o goleiro Félix – a muralha – e o técnico Zagalo. Com o capitão Carlos Alberto levantarmos a taça tão desejada. Ah, como a vida era boa, como era bom ser brasileiro naquele momento!
Todos regurgitavam felicidade e eu estava lá no meio, dançando e imitando os dribles e gingados insuperáveis do rei Pelé. Foi neste cenário alegre que ao erguer a vista a alguns metros adiante, topei com a figura triste do colega Giba, sentado no meio fio, na calçada em frente a sua casa, tendo a cabeça entre as mãos, em estado de choro convulsivo. Eu sabia por instinto que aquilo não era choro de alegria, não. Mas fiz questão de virar o rosto para não contaminar minha felicidade naquela hora. Puro egoísmo, quem sabe.
O Giba era irmão mais velho do Bitoco, nosso amigo e estava de volta ao bairro depois de um mês em que ele não dava as caras no pedaço.
Mas este dia que estou narrando teve um começo inesquecível também, pois, logo pela manhã, um caminhão das lojas Mappin parou em frente à minha casa para descarregar nossa primeira TV colorida. Entrega urgente para um domingo especial. Meu irmão mais velho – que era caixa do Banco Mercantil – comprara o aparelho – marca Telefunken em prestações e fizera segredo em nossa casa. Bem que eu havia percebido umas conversas diferentes que se esvaziavam quando eu mostrava interesse. Ele e seus amigos falavam em transmissão em cores, em calcinhas com gosto de frutas, em fulano que apanhava no pau-de-arara – coisas que em respeito aos meus dez anos de idade -, eles não deixavam vazar para mim. Bem que eu tentava, com cara de sonso, me aproximar devagarzinho para ouvir o papo dos mais velhos, fingindo que estava brincando com algum objeto nas mãos. Mas quando a turma percebia minha pesença, a prosa diminuia e mudava de rumo.
Pois bem, a partida final estava marcada para as 17:30h e seria a primeira Copa do Mundo a ser transmitida em cores. Com o nosso novo aparelho de TV – que era “uma brasa”- é lógico que a torcida se reuniria em minha casa, pelo menos os garotos que moravam nas casas ao redor da minha.
Tudo combinado, Nico, Tatá e Lalau trariam o açúcar, Dinho, Mané e Vavá, os pacotes de Ki-suco de vários sabores, e as embalagens de milho de pipoca ficavam por conta dos demais. Não queriamos que minha avó se intrometesse em nossa reunião, a não ser para vigiar o fogão e fiscalizar a algazarra.
Neste dia jogamos futebol das duas às cinco da tarde. Com certeza todos os garotos do bairro, todos os meninos do Brasil inteiro, que tinham condições, correram atrás de uma bola em algum canto do país.
Nossas partidas na rua ou no campinho eram assim, cada um escolhia para si um nome de um jogador da seleção, eu, por exemplo, era sempre o Jairzinho. Na verdade, eu queria mesmo era ser o Pelé mas este era exclusividade do Giba que driblava como ninguém e metia a mão na “fuça” de quem o contrariasse. Para dar mais veracidade à pelada, alguém, sentado em cima do muro, ia narrando o jogo até se cansar e trocar de lugar com algum dos jogadores.
E desta maneira a fama da seleção canarinho ia se perpetuando país afora, se avolumando cada vez mais, em cada esquina, cada bairo, cada cidade.
Mas, continuando a narrativa, naquele domingo, todos estavam reunidos em grupos, nas igrejas, nos botecos, nas pracinhas, – menos seu Honório, pai do Bitoco e do Giba. Estranhamos naqueles dias como a família de seu Honório estava mesmo esquisita. Ele e a esposa não eram mais vistos na rua. Ele saia bem mais cedo para o trabalho, ainda escuro e ao voltar, evitava passar em frente às casas dos vizinhos conhecidos. Havia muito fuxico sobre o que estava acontecendo. Diziam as santas línguas que o Giba tinha se envolvido com a Polícia, lá na faculdade em que ele estudava, e seus pais, gente humilde, estavam envergonhados com a situação.
Cinco minutos antes de começar a partida dos sonhos, a pipoca ja estava pronta, o refresco enchia as jarras em formato de abacaxi e os cubos de gelo eram trazidos por cada participante do evento em forminhas de plástico multicolorido.
Finalmente, o televisor foi ligado, contando com o apoio imprescindível de seu Elias no telhado, para buscar a melhor posição da antena de modo que a imagem não tremesse nem chuviscasse além do tolerável, enfim, era a seleção canarinho que entrava em campo. E como era lindo apreciar o colorido do uniforme verde e amarelo pela primeira vez! Enchia os nossos olhos e corações.
Pois bem, penso que estes noventa minutos mágicos deveriam ser congelados e eternizados por um decreto qualquer, se bem que em meu coração eles já estão gravados feito uma tatuagem da taça cobiçada.
O resultado da surra foi de quatro a um para o Brasil . A Itália tombava de joelhos diante da poderosa seleção brasileira. Para mim, a melhor seleção de todos os tempos.
E a festa correu até onde iniciamos a narrativa, com o céu colorido por balões, no tempo em que ninguém se preocupava se podia ou não soltá-los.
Assim estávamos todos comemorando, quando me aproximei de meu mano mais velho que conversava com seus amigos e não percebeu minha chegada no meio da rua cheia de gente. Pude ouvir seus comentários entre a gritaria geral:
_ Caparam o Giba! Deixou escapar um dos amigos de meu irmão, tapando a boca com a mão,
_ Parece que arrancaram as bolas do saco dele com alicate… Foi lá no DOPS. Emendou outro participante da rodinha.
Meu coração gelou ao ouvir este diálogo, a corneta que eu trazia caiu e foi pisoteada. Era uma conversa surreal para mim. Mesmo no meio da alegria geral, senti um baque profundo. Uma história de horror assim só podia ser mentira… Não, no Brasil da Copa, não, isto era gozação, com certeza. Eu tentava desesperadamente me iludir naquele momento. Instintivamente virei o rosto para o lado da casa do Giba mas não o vi mais.
O assunto virou um tabu na rua e semanas depois a família de seu Honório se mudou para outra cidade e nunca mais soubemos notícias. Porém, a imagem do Giba expressando sua dor medonha tem assento marcado na galeria de memórias doloridas que se somam áquelas causadas pelos percalços em nossas vidas, são feridas impossíveis de apagar e se abrem em chagas vez por outra.
Mas, segundos depois, olhando Dedé fazendo embaixadinhas com a bola nova de capotão que ele ganhara do avô, fui esquecendo aos poucos a dor daquela revelação e me enfronhei no meio da roda, jogando, jogando até não querer mais:
_ Prá frente, Brasi!!
Autor: Betusko - Categoria(s): CRONICAS
Tags: Copa de 70
26/07/2009 - 20:52

O SONHO DO SOBRADO QUE VIROU PESADELO
Dia destes encontrei, comendo um pastel em uma barraca de feira, meu amigo de infância Kiko que há anos não via. Voltei ao bairro para ir ao cartório passar uma escritura de um terreno que eu havia vendido.
Kiko era daqueles amigos, pau-prá-toda-obra. Sempre disposto a todas as empreitadas; jogar futebol na chuva, correr atrás de pipas no quintal do seu Juca louco, entrar nos bailinhos de sábado à noite mesmo sem saber dançar, enfim, um amigão.
Mais tarde, lá pelos vinte e cinco anos de idade, Kiko iniciou a construção de uma casa, tipo sobrado, no mesmo bairro. Terminou apressadamente a parte de baixo, com sala-dormitório, banheiro e cozinha deixando a parte de cima para construir aos poucos. Casou-se com a Betina e mudaram-se assim mesmo para a casa em construção.
Neste período eu namorava uma garota enquanto Kiko já namorava a Betina. Saíamos juntos os quatro sempre que possível. Após o casamento, toda vez que eu o convidava para fazermos uma programação, tipo cinema, barzinho, shows, ele sempre perguntava: “_Quanto vai morrer no programa?” – Eu dizia: “_Uns cinquenta paus, mais ou menos, por cabeça.” Então Kiko respondia: “_ Putz, com cinquenta paus eu compro três sacos de cimento!”
E assim seguia a história.
_Kiko, vamos no show do Legião Urbana? Vai toda a galera…
_E com quanto vou ter que morrer? Inquiria meu amigo.
_Custa oitenta paus o ingresso.
_Caraca, oitenta paus vezes dois, são cento e sessenta. com esta grana compro quatro metros quadrados de piso para o banheiro da suíte. Respondia sem pestanejar o eterno construtor.
Esta ladainha foi nos enchendo a paciência até que ninguém mais chamava Kiko para nada, apenas para festas em casa, quando ele não tinha que pagar nada. Por fim, fui transferido no trabalho indo morar em outro Estado.
Oito anos depois, encontro meu amigo Kiko traçando um pastel e um copo de caldo de cana. Estava calvo, magro como sempre e com óculos de grau maior ainda.
_ Porra, kiko, que bom te encontrar aqui! Exclamei todo contente.
_E ai, bicho, “tá que o pariu”, quanto tempo, você sumiu! Respondeu Kiko.
_Como vai a Betina? Você tem filhos? Fiz aquelas perguntas habituais.
_Não, cara, você nem sabe, nos separamos há três anos e não tivemos filho…
_Poxa, que chato, mas e o sobradão, você conseguiu terminar?
_Pois, é, Zé, terminar eu terminei. Quatro quartos, duas suítes, sala de som, salão de jogos e o “cassete à quatro” – Concluiu o amigo.
_E quem está morando lá? Perguntei interessado.
_Ah, nem te conto, três meses depois de eu terminar a construção total, a Prefeitura tomou meu sobrado por desapropriação. Derrubaram todas as casas da rua para levantar uma praça, vê se dá para acreditar!
_Mas você recebeu a indenização da Prefeitura? Indaguei surpreso.
Ai é que está o problema, recebi uma porra de uns precatórios que eu sei que nunca vou poder trocar por grana. Eu soube de gente que está há trinta anos esperando indenização. Concluiu pesarosamente, Kiko.
_E onde você está morando?
_ Na edícula da casa dos meus pais. É a vida…
_Então você voltou a viver com seus pais? Puxa que coisa! Espantei-me.
A conversa seguiu mais um pouco e depois nos despedimos prometendo rever-nos em breve. Entrei no carro e segui viagem para casa. No caminho fui ponderando: Será que valeu a pena o Kiko ter feito tanta economia naquela época. Quantos anos de privação para nada. Mas, é a vida, quem é que pode saber…
Autor: Betusko - Categoria(s): CRONICAS
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