
Biblioteca nº 02 – escrito em 26/02/2008, por Alexander Grünwald*
Ele correu contra alguns dos maiores gênios do esporte a motor de todos os tempos. Defendeu grandes equipes em 14 anos de Fórmula 1. Marcou pole-positions, venceu corridas, mas por causa da reunião de alguns fatores, como a reconhecida inabilidade para escolher o momento adequado para trocar de equipe, acabou não conquistando o sonhado título mundial. Um destino assim poderia atormentar para sempre um piloto obcecado pela glória. Mas este não é o caso de Gerhard Berger, cujo ‘desencane’ dá o tom em cada novo capítulo de “Na Reta de Chegada”, sua segunda autobiografia.
Como já havia escrito um livro em 1989 (não publicado em português), contando seus primeiros passos no automobilismo e abordando a época em que passou de coadjuvante a vencedor de corridas na Fórmula 1, Berger fez algo diferente das biografias tradicionais. Escoltado pelo amigo jornalista Herbert Völker, optou por mesclar a narrativa histórica com enfoques bem particulares do universo das corridas. Uma fórmula acertadíssima para ligar com precisão e estilo os altos e baixos de alguém tão carismático como este austríaco, nascido em 1959 numa família simples do Tirol.
As duas fases na Ferrari (a primeira delas tendo sido o último piloto escolhido pessoalmente pelo Comendador Enzo), os anos com Senna na McLaren e a conturbada experiência na Benetton, em fim de carreira, são contados sob a ótica de um competidor nato. Além de expor as dificuldades e as conquistas nestas equipes, Berger devaneia, por exemplo, sobre o ronco musical dos motores V12 ou sobre a verdadeira reação de um piloto – “rir por dentro” – ao ver o companheiro de equipe na barreira de pneus.
Nesta mesma linha, o austríaco trata com fluência e desprendimento sobre temas como pilotagem, família e estilo de vida. Dá dicas a jovens pilotos, válidas para dentro e fora das pistas, e fala sem pudores do que conquistou e do que deixou de conquistar financeiramente como um piloto de corridas, deixando bem claro que não tem qualquer arrependimento ou culpa neste aspecto.
O capítulo que situa sua passagem pela McLaren aborda situações diversas, como as constantes traquinagens entre ele e o companheiro de equipe, a vitória cedida pelo brasileiro na última curva em Suzuka/1991, e culmina com um emocionado depoimento sobre o fim de semana de Ímola/1994, no qual Berger perdeu dois grandes amigos. Um verdadeiro contraste com a penúltima parte da obra, que mostra uma análise sincera e bem humorada dos colegas de pista, tanto do lado profissional quanto do humano, dissecando de Niki Lauda (autor do prefácio) a Alexander Wuz.
Bem traduzido e com várias fotos de diferentes épocas num encarte colorido, o livro esbanja personalidade e prova que não são apenas as vitórias e títulos que rendem boas biografias no automobilismo. Além de valorizar as inestimáveis conquistas pessoais, Gerhard Berger, especificamente, é um daqueles pilotos que pendura o capacete cheio de histórias para contar.
Ficha técnica
Título: Na Reta de Chegada
Autor: Gerhard Berger, em depoimento a Herbert Völker (tradução de Jorge Meditsch)
Editora: Globo
Formato: 13,5 x 20 cm
Páginas: 240
Lançamento: 2000 (1999 no original em alemão)
País de origem: Áustria
ENTREVISTA COM JORGE MEDITSCH (TRADUTOR)
(depoimento por telefone a Alexander Grünwald, em 26/02/2008)
Autoteca: Como e por que você decidiu traduzir esta obra?
Jorge Meditsch: Fiz a pedido da Editora Globo, onde eu trabalhava na ocasião, como editor da revista Época. Já havia traduzido outros livros, como “A Arte de Pilotar”, do Emerson Fittipaldi, e um do Ayrton Senna, que curiosamente tem o mesmo título. Achei o livro ótimo, e a tradução foi feita do inglês. Não sei se saiu em outras línguas além do português, mas creio que não tenha havido muitas outras versões.
Autoteca: Qual o trecho mais marcante do livro, na tua opinião?
Jorge Meditsch: A parte do relacionamento dele com o Ayrton. Ele tomou couro o tempo todo e mesmo assim ficaram amigos! É impressionante, porque foi algo que ele aceitou como natural, pois viu que não conseguiria vencer o companheiro.
Autoteca: Berger foi contemporâneo de alguns gênios do volante. Qual deles foi o maior adversário?
Jorge Meditsch: Como eu disse anteriormente, o Senna estava em um nível tão elevado que era simplesmente impossível competir com ele. Mas, mesmo assim, sobram grandes nomes na lista. O Piquet deu muito trabalho ao Berger em alguns momentos, não foi fácil, mas creio que contra o Prost ele jamais deu o braço a torcer.
Autoteca: É verdade que há um trecho que não pôde ser publicado na versão em língua portuguesa?
Jorge Meditsch: Sim, pois a Ana, esposa do Berger, é portuguesa e pediu para ler o material antes de ser publicado. Ela não gostou de uma citação que há no capítulo do encontro com o Comendador, que dizia que o Enzo Ferrari tinha o hábito de cuspir no lenço. Achou que era algo grosseiro e solicitou que isso fosse retirado. Mas está nas outras versões, em alemão e em inglês.
*Alexander Grünwald é jornalista especializado em automobilismo. Após dez anos atuando no mercado publicitário, ingressou no canal a cabo SPORTV em 2006, tornando-se, no ano seguinte, produtor do programa Grid Motor. É dono do Grün Blig e possui também uma coluna semanal no blog Voando Baixo, chamada Sexta Marcha.

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