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28/11/2009 - 07:49

Paula Brito: 200 Anos

 

http://peregrinacultural.files.wordpress.com/2009/07/paula-brito-francisco.gif

RIO – Dezembro marca o bicentenário de uma figura esquecida

na história de nossa cidade, personagem marcante na cena

carioca de meados do século 19. Poeta, tipógrafo, livreiro,

editor, jornalista e dono de jornal, comerciante, impressor,

tradutor, compositor, dramaturgo, Paula Brito marcou seu

tempo não só por tudo isso, mas principalmente por criar em

seu estabelecimento um espaço de sociabilidade que o

transformou num dos mais importantes agentes de mediação

cultural da sociedade de então.

 Nascido no dia 2, em 1809, na então Rua do Piolho

(atual Carioca), Francisco de Paula Brito passou a infância

no interior da província na cidade de Suruí, região de Magé.

Retornou à cidade em 1824 junto com seu avô materno

Martinho, que seria desde sempre uma de suas maiores

influências. Também não era para menos. Embora pouco

se saiba da biografia de Martinho Pereira de Brito, esse

pouco nos permite afirmar que é preciso buscar conhecer

melhor sua trajetória. Discípulo de Mestre Valentim e um

dos maiores toreutas (arte de esculpir em metal, madeira

ou marfim) do seu tempo, foi também comandante do 4º

Regimento de Milicianos, o famoso Regimento dos Pardos,

onde foi reformado como sargento-mor. Não se sabe

exatamente onde nem quando nasceu, mas sabe-se que

morreu com aproximadamente 100 anos em 1830, deixando

o neto em profunda tristeza.

 Apesar do golpe, foi mais ou menos nessa época que adquiriu

de um primo uma pequena loja de miudezas conhecida como

“loja de chá do melhor que há” e, nos fundos dela, instalou sua

tipografia, onde iria botar em prática os ensinamentos adquiridos

em seu primeiro emprego como aprendiz na Tipografia Nacional.

Surgia ali a famosa Loja do Canto, como era conhecida sua livraria

 no Largo do Rossio, atual Praça Tiradentes. Ao longo dos anos

foi se expandindo e teve vários endereços onde funcionaram

tipografias, editoras e livrarias.

 Paula Brito foi o responsável pela criação de vários jornais,

como A Mulher do Simplício ou A Fluminense Exaltada e

A Marmota na Corte (depois A Marmota Fluminense,

depois só A Marmota). Pioneiro em tudo que fez – basta

lembrar que a impressão no Brasil data de um ano antes

de seu nascimento – foi também o primeiro a editar um

jornal inteiro dedicado a temas, digamos, pouco

recomendáveis para a época, tais como: O Limão de Cheiro

(1833), alusivo ao carnaval, e O Homem de Cor (1833),

tido como um dos primeiros periódicos a discutir

questões raciais.

 Como se não bastasse, foi na sua casa que Machado de

Assis teve seu primeiro emprego como revisor de provas,

além de ter sido na Marmota Fluminense que publicou

seu primeiro artigo. Foi Paula Brito também o editor do

primeiro livro de Machado, bem como da primeira edição

de As primaveras, de Casimiro de Abreu. Será pouco para

um filho de carpinteiro, negro e autodidata que nasceu

há 200 anos?

http://www.livrariafolhaseca.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/03/caricatura_cassio_baixa.jpg

 Para Paula Brito parece que sim. Sua loja virou ponto de

encontro de toda gente, políticos, professores, poetas,

músicos populares… Era amigo até do imperador Pedro II.

Gonçalves de Magalhães, Joaquim Manuel de Macedo,

Laurindo Rabelo (o poeta Lagartixa), Mello Moraes Filho,

Casimiro de Abreu, Araújo Porto Alegre, Machado de Assis,

Manuel Antonio de Almeida.

 Nesse ambiente surgiu a Sociedade Petalógica, entidade um

tanto anárquica (não admitia estatutos ou normas) que

pretendia apenas ser uma reunião descompromissada

para discutir qualquer assunto que seus associados julgassem

pertinente. Seu nome vinha de peta, pequena mentira ou

lorota. Machado de Assis deixou algumas impressões sobre

essas reuniões em suas crônicas, tema que a historiadora

 Mônica Pimenta Velloso tem trabalhado em artigo ainda

inédito em livro.

 De temperamento romântico e espírito conciliador,

acolhia em sua residência quem estivesse precisando.

Teixeira e Souza, autor de O filho do pescador, tido como

o primeiro romance brasileiro (um doce para adivinhar

quem editou) teve nele um grande amigo e protetor.

Chegou a ser um dos tantos agregados da casa de Paula Brito

quando veio pobre de Cabo Frio justamente para trabalhar

na livraria.

 Apesar de tudo isso e também de ser reconhecidamente

um estabelecido homem de negócios, em 1853 um sócio do

recém-fundado Clube Fluminense, de nome José Silveira do

Pillar, escreveu longa carta aos diretores da dita sociedade

protestando contra a exclusão do nome de Paula Brito da

lista de sócios sob a alegação de ser ele “um homem de cor”.

O Jornal do Commercio repercutiu o fato na época,

comentando que o referido sócio retirou-se da agremiação

junto com outros indignados.

 Foi nesse ano mesmo de 1853 que Paula Brito compôs

os versos de um lundum que seria cantado aos quatro

ventos não só na cidade do Rio, mas também no interior

da província e arredores. Tratava-se de A marrequinha

de iaiá, buliçosa composição propositadamente libidinosa

e matreira, parceria com Francisco Manuel da Silva,

autor de um hino destinado a festas da independência

que mais tarde se transformaria em nosso Hino Nacional.

 Isso tudo fez José Ramos Tinhorão escrever um belo

artigo na Revista Cultura, número 28 de 1978, onde

afirma textualmente que foi na loja de Paula Brito

que surgiu a canção popular de parceria, isso entendido

como letra e música sendo produzidas conjuntamente.

Isso só foi possível pelo encontro que ali se dava dos

poetas da geração romântica com os músicos populares

frequentadores da casa. Para Tinhorão, Paula Brito

assumiu brilhantemente o papel de mediador entre a

cultura popular e a da elite nos anos de transição para

o Segundo Império.

 Por mais que haja espaço sempre faltará dizer alguma

coisa sobre o homenageado. Não falei ainda que Paula

Brito foi o responsável pela vinda em 1853 do litógrafo

francês Louis Thérier para desenvolver novos ramos de

impressão em seus estabelecimentos: a impressão de

imagens em cores e também em larga escala a partir da

prensa litográfica rotativa, novidade da época.

 Segundo o historiador da arte Rafael Cardoso, no livro

 A arte brasileira em 25 quadros, uma das primeiras

imagens reproduzidas nesse sistema foi o retrato do

marinheiro Simão, carvoeiro do vapor Pernambucana

que em 1853 naufragou tragicamente, num desastre

onde 28 pessoas morreram. Das 42 que se salvaram, 13

 ficaram devendo a vida ao marinheiro, que arriscando a

 própria sorte, transpôs 13 vezes as ondas e resgatou da

morte, entre outros, um cego e um militar amputado. Nas

palavras de Rafael, percebendo o prato cheio que a ação

heróica do marinheiro seria para quem quisesse atacar o

preconceito racial, Paula Brito mandou fazer seu retrato e

distribuiu encartado na Marmota Fluminense, produzindo

possivelmente o primeiro panfleto abolicionista de que se

tem notícia.

 

 Rafael destaca Paula Brito como um dos mais importantes

nomes da nossa história editorial, lembrando inclusive que

foi ele o idealizador da primeira revista cultural brasileira, a

Guanabara (que tinha como redatores nomes como Araújo

Porto Alegre, Joaquim Manuel de Macedo, Gonçalves Dias) e

também da primeira versão da Revista Brasileira.

 A historiadora Renata Santos, autora do livro A gravura no

Brasil, é outra a destacar nosso amigo, dedicando várias

páginas do seu trabalho a ele e sempre que possível

lembrando sua existência. Pois é incrível perceber que,

apesar de todas essas atividades que aqui listamos, pouca

gente sabe da existência de tão importante brasileiro.

 Como lembra Sergio Caldieri em artigo publicado na

Revista da Academia Fluminense de Letras, em 2005,

foi fatídico o fim do ano de 1861, tendo levado em fins de

novembro Manuel Antonio de Almeida (aos 30 anos num

naufrágio no litoral de Macaé), logo depois Teixeira e Souza

e uns dias mais, o nosso Paula Brito. Segundo Mello Moraes

Filho, seu préstito fúnebre teve mais de 200 carros, tendo

sido o coche escoltado por sege do Paço, do Campo de

Sant’Anna ao cemitério de São Francisco Xavier. Foi-se

assim o iniciador do movimento editorial brasileiro.

 Texto de Rodrigo Ferrari

Extraído do site do Jornal do Brasil

27/11/2009

Autor: arquipelagob@superig.com.br - Categoria(s): Editores Tags:
27/11/2009 - 09:57

Guerra Junqueiro, 1896

«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio,

fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,

aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de

misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a

energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é

capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia

ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem

onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que

eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na

noite da sua inconsciência como que um lampejo

misterioso da alma nacional, reflexo de astro em

silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta

até à medula, não descriminando já o bem do mal,

sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo

homens que, honrados na vida íntima, descambam

na vida pública em pantomineiros e sevandijas,

capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira

à falsificação, da violência ao roubo, donde provém

que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença

geral, escândalos monstruosos, absolutamente

inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;

este criado de quarto do moderador; e este, finalmente,

tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara

ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções,

incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo

céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos

nos actos, iguais um ao outro como duas metades do

mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar

disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de

não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.»

Encontre livros de Guerra Junqueiro em:

http://www.livrobsebo.estantevirtual.com.br

Autor: arquipelagob@superig.com.br - Categoria(s): Livros & Autores Tags:
26/11/2009 - 18:51

Ilustrações de Warhol Vão a Leilão

O facto é pouco conhecido. Entre 1957 e 1959,
o artista pop Andy Warhol, então com cerca
de 30 anos, ilustrou o clássico da literatura
infantil “The Little Red Hen”.
O conjunto de desenhos vai agora a leilão,
dia 9 de Dezembro, em Nova Iorque. As
peças não estão sozinhas. Fazem parte
de um total de 365 livros e ilustrações
originais.
Autor: arquipelagob@superig.com.br - Categoria(s): Artes Tags:
25/11/2009 - 07:10

Centro das Nossas Desatenções

Sigamos até a São José. Passando pelas muvucas em torno

do terminal Menezes Cortes, bares e restaurantes cheios,

pagodes em frente dos pés-sujos, lojas de discos que tocam

chorinhos sem parar. Calçadas cheias de gente a passar e a

me ver passar , como na velha canção de Antonio Maria,

um dos melhores cronistas do Rio, que na verdade era

pernambucano.

Um pastor evangélico brada para um pequeno rebanho.

Mendigos pedem esmola. A esta hora, no Lidador, o maître

Walter já deve estar fazendo o seu discurso, para lembrar a

todos, mais uma vez, que o bar fecha às 20 horas, passando

a servir a primeira das penúltimas rodadas.”

-Trecho de “Centro das Nossas Desatenções”

de Antonio Torres, volume da coleção Cantos do

Rio da Editora Relume Dumará.

Onde Encontrar:

http://www.livrobsebo.estantevirtual.com.br

Autor: arquipelagob@superig.com.br - Categoria(s): Livros & Autores Tags:
24/11/2009 - 11:02

Remedios Varo

As realizações plásticas de Remedios Varo constituem com seu

mágico mundo onírico um capítulo particular dentro do surrealismo,

ao aliar questões das ciências ao universo do além-sonho do surrealismo.

Filha de um engenheiro, Varo nasceu na Espanha, perto da Barcelona de

Gaudi, em 1908. Mudou-se para a Cidade do México em 1942 e lá residiu

até a sua morte em 1963. Entronizada no mundo das artes-plásticas pelo

pai, seu estilo e temática mantém-se consistentes durante toda sua vida,

com os tecidos delicadamente modelados nos quadros e a sua composição

estética muito devedoras das práticas correntes na arte flamenga do século

XV.


Autor: arquipelagob@superig.com.br - Categoria(s): Artes Tags: ,
23/11/2009 - 15:42

Poesia Incompleta Livrarias Pelo Mundo 5

Aberta ao público em 24 de novembro de 2008, a “Poesia Incompleta” é a primeira livraria portuguesa especializada em poesia. Trabalhando com livros novos, esgotados e raros, tem além de poesia portuguesa, largo catálogo de autores espanhóis, brasileiros e de outros países em mais de 20 línguas.

A Poesia Incompleta funciona de segunda a sábado, das 10 às 19h45, e está localizada à Rua Cecílio de Sousa, 11, Lisboa.  poesia.incompleta@gmail.com Telefone: 00 351 96 000 53 60 ou 213047583 Skype: poesia.incompleta

Autor: arquipelagob@superig.com.br - Categoria(s): Livrarias Tags:
21/11/2009 - 19:12

Uma imagem: Balthus

 04.Balthus,Portrait_de_Femme_en_robe_bleue

Balthus: Portrait de femme en robe bleue (Madame Georges Hilaire)
Autor: arquipelagob@superig.com.br - Categoria(s): Artes Tags:
20/11/2009 - 11:13

Das Distorções Globais


O texto abaixo foi extraído do blog Viomundo, de autoria do jornalista Luiz Carlos Azenha, e  faz parte do livro que será lançado pela Ediouro como resultado do prêmio obtido pelo blog no BlogBooks. É um registro de como a TV Globo deturpa e distorce o noticiário sobre as cotas raciais e qualquer outro assunto relativo aos direitos dos negros brasileiros .  O curioso é que, como só acontece no Brasil, tal “política racial” é perpretada por uma empresa jornalística criada por um afrodescente, o sr Roberto Marinho, cujos filhos, brasileiramente, não se dão conta de sua própria origem. Mas quem são os filhos de Roberto Marinho?

Como a Globo distorce e deturpa para negar direitos aos negros brasileiros

WASHINGTON – À medida em que se aproximam as eleições de 2008 é importante educar os telespectadores menos atentos para a “sutileza” da TV Globo ao distorcer ou manipular informação. Em tempos de internet, dificilmente um meio de comunicação se atreve a mentir descaradamente. É só lembrar dos tempos do rádio, nos quais um narrador de futebol tinha liberdade relativa para narrar a partida que quisesse. Desde que surgiu o videotape essa “criatividade” com a informação perdeu espaço.

Hoje, para julgar a mídia, é preciso considerar não só o que é publicado, mas o que DEIXA DE SER PUBLICADO. É preciso considerar as investigações que são feitas, mas também AS QUE DEIXAM DE SER FEITAS. E é preciso considerar o tratamento dado por um órgão de imprensa a um determinado tema AO LONGO DO TEMPO.

Falemos, por exemplo, sobre o Estatuto da Igualdade Racial que está tramitando no Congresso. Recentemente, o Jornal Nacional dedicou 2 minutos e 30 segundos ao assunto – o que é uma eternidade em televisão. A própria manchete do JN já é definidora: FALTA CONSENSO SOBRE ESTATUTO DE IGUALDADE RACIAL. Eu diria que não existe consenso em quase nada que é discutido no Congresso. O fato é que o Estatuto passou no Senado e pode passar na Câmara. Mas a falta de consenso é a premissa do Jornal Nacional, apesar do estatuto JÁ TER SIDO APROVADO EM UMA DAS CASAS DO CONGRESSO.


A “tese” da TV Globo seria provada na reportagem a seguir. O autor do projeto, senador Paulo Paim, do PT do Rio Grande do Sul, não foi entrevistado. O texto da reportagem explicou que seriam criadas cotas na administração pública, nas universidades e para atores negros em filmes e novelas. Primeiro vieram as opiniões “a favor”.

O advogado Hédio Silva Júnior, da Educafro, falou durante 10 segundos. A ex-ministra Matilde Ribeiro, que apoiava a aprovação do Estatuto, falou durante 12 segundos.

Depois de anunciar que tem gente que acha que o estatuto “incentiva o racismo em vez de combatê-lo”, o Jornal Nacional apresentou dois entrevistados. Primeiro falou José Carlos Miranda, do Movimento Socialista Negro, durante 19 segundos: “Imagina que, com a aprovação do estatuto, o operário negro, o trabalhador negro conseguirá um emprego por causa da sua cor de pele e o operário branco não, mesmo ele tendo a mesma situação econômica. Imagina isso acontecendo milhões de vezes.” Bastante razoável a opinião, se não fosse baseada numa COMPLETA FALSIDADE. O estatuto não cria cotas em empresas privadas e, portanto, não afetará operários, quanto mais “milhões de vezes”.

Finalmente, vem a opinião da antropóloga (branca) Yvonne Maggie, que fala 15 segundos: “O racismo é um mal que assola a humanidade. Os brasileiros sofrem dessa praga. No entanto, para combater o racismo a primeira providência terá que ser abolir o critério e a idéia mesmo de raça.” A antropóloga (branca) não diz como isso será feito. Vamos decretar que, a partir de amanhã, todos os brasileiros são brancos?

Eu lhes pergunto: uma antropóloga branca teve direito de opinar no Jornal Nacional, mas o autor do projeto não? Os que criticaram o projeto falaram durante 34 segundos. Os que defenderam o projeto falaram 22 segundos.


Uma antrópologa branca, que teve a palavra final, falou mais que a ministra de Estado? Um militante negro, que usou uma noção FALSA para criticar o projeto, falou mais que a ministra de Estado? O projeto, repito, fala na adoção  de cotas nas universidade e na administração pública, mas não na iniciativa privada. O texto do estatuto diz apenas que o estado deve estimular “a adoção de medidas similares pelas empresas privadas”.

Ou seja, a reportagem do Jornal Nacional foi claramente tendenciosa, para não dizer desonesta quando endossou uma hipótese baseada em uma interpretação falsa do texto do Estatuto.

Estou dizendo isso como alguém que é contra cotas por decreto, de cima para baixo. Mas também sou contra a manipulação e a distorção de informações.

Tomada isoladamente, a reportagem pode ser considerada por vocês um simples “erro”.

Mas é preciso considerar a folha corrida da TV Globo na questão racial: de acordo com o ex-repórter da emissora, Rodrigo Vianna, uma entrevista gravada por ele com o senegalês Doudou Diène, das Nações Unidas, fazia parte de uma reportagem “derrubada” pela direção de Jornalismo da emissora por não se enquadrar na linha editorial da empresa .

Quem é Diène? O rapporteur da ONU para formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância. Diène estava no Brasil e disse, na entrevista, que havia racismo no país, sim.

No dia 18 de setembro de 2006, em Genebra, numa reunião do Conselho de Direitos Humanos, Diène apresentou um relatório francamente favorável ao Brasil.

“O aumento do racismo e da violência xenofóbica como resultado da ascensão da extrema-direita e de grupos neo-nazistas foram confirmados por assassinatos racistas na Bélgica e na Federação Russa. A difamação da religião, o antisemitismo, a cristianofobia e a islamofobia também estão em ascensão. Também há legitimação intelectual do racismo, da discriminação racial e da xenofobia. Há uma banalização racista e xenofóbica de práticas de governo e outras plataformas. Também há uma crescente prática de diferentes formas de racismo, xenofobia e discriminação racial em pontos de entrada, recepção e espera e também uma piora nas manifestações de racismo em esportes, particularmente no futebol”, diz um resumo da apresentação.


Especificamente sobre o Brasil, Doudou Diène afirmou que “o compromisso do governo de lutar contra o racismo foi confirmado no mais alto escalão e o país parece disposto a enfrentar sua herança histórica de racismo.”

Doudou Diène não falou no Jornal Nacional, mas um representante do Movimento Socialista Negro teve 19 segundos para falar uma inverdade em rede nacional de televisão. O que explica isso?

As fotos que ilustram este texto são

de Autoria do fotógrafo norte-americano

Gordon Parks


Autor: arquipelagob@superig.com.br - Categoria(s): Notícias Tags:
20/11/2009 - 07:10

Langston Hughes

 

James Langston Hughes (1902-1967), poeta negro americano,

transportando para a poesia os ritmos e a cadência da música

do negro americano, falou, como poucos, da alma do negro universal.

Autor de 16 livros de poesia, 3 de contos, além de documentários,

peças teatrais, poesia para crianças, programas de rádio e TV e

artigos para revistas e jornais, é um quase desconhecido no Brasil.

“O Negro Fala Sobre Rios” é seu poema mais famoso, onde considera

a história das comunidades negras desde o Oriente bíblico e a

África até a diáspora na América. Aos 18 anos, em um trem

viajando para a Cidade do México, onde o pai morava, quando

o trem cruzou o rio Mississippi ao cair da tarde, começou a

refletir sobre a escravidão e o significado daquele rio para

o negro americano, resultando no belo poema que se lê

 

abaixo.

Langston Hughes Fotografado por Gordon Parks

 

O Negro Fala Sobre Rios

Conheço rios:
Conheço rios tão antigos quanto o mundo e mais
          [ velhos que o fluxo de sangue humano
          [ nas veias humanas.
Minha alma se tornou profunda como os rios.

Banhei-me no Eufrates quando eram jovens as
                                                   [ auroras.
Construí minha cabana junto ao Congo e ele
                          [ me cantou canções de ninar.

Olhei para o Nilo e acima dele levantei as
                                                     [ pirâmides.
Ouvi o canto do Mississippi quando Abe Lincoln
    [ desceu até New Orleans e vi seu seio
    [ lamacento tornar-se ouro, ao pôr-do-sol.

Conheço rios:
Antigos, cinzentos rios.    

Minha alma se tornou profunda como os rios.


THE NEGRO SPEAKS OF RIVERS

 

I’ve known rivers:
I’ve known rivers ancient as the world and older
             [ than the flow of human blood
             [ in human veins.

My soul has grown deep like the rivers.

I bathed in the Euphrates when dawns were
                                                      [ young.
I built my hut near the Congo and it lulled me
                                                  [to sleep.

I looked upon the Nile and raised the pyramids
                                                   [ above it.
I heard the singing of the Mississippi when
           [ Abe Lincoln went down to New Orleans,
           [ and I’ve seen its muddy bosom turn all
           [ golden in the sunset.

I’ve known rivers:
Ancient, dusky rivers.

My soul has grown deep like the rivers.

Langston Hughes

Tradução: Carlos Machado

 

 


 

Autor: arquipelagob@superig.com.br - Categoria(s): Poesia Tags:
14/11/2009 - 11:29

Canção do Exílio

“Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade! “

Murilo Mendes

Poemas (1930)

Autor: arquipelagob@superig.com.br - Categoria(s): Poesia, Sem categoria Tags: , ,
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