acreditar chorando

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17/03/2009 -  23:05     

“Conexões Urbanas”

Eu sempre tive consciência que a Beleza é algo que tira o fôlego facilmente. Quando digo Beleza, digo aquela incontestável, aquela que, mesmo odiando dar tanta atenção, tu não pode deixar de segui-la. Todas as coisas, uma por uma, param por um segundo. Como uma flor bem aberta, mas mais durável. E com vasos mais que diferentes.

 

Foi assim que ela chegou. Com um casaquinho ciano e branco, em listras, revelando um pouco mais o verde fundo de seus olhos. E ela parou na caixa, com os cabelos levemente desarrumados, gritando um loiro que nem precisava ser tão natural. Ela sempre soube, desconfiava pelo canto do olho. Sabe que, mesmo ao sorrir, aquilo poderia ser considerado pretensão. Indiscrição. Então sorriu de leve, esperou a moça do caixa lentamente ajeitar suas coisas. Nem percebeu, de acostumada, essa última arrumar com desdém. Com puro desdém, de uma raiva profunda por ela mesma. Pela biologia. Pelos seus cabelos negros demais, por sua boca levemente torta e seus olhos castanhos usuais. Dóia-lhe na boca do estômago e cada gesto da beleza loira era quase uma provocação silenciosa.

 

Foi assim então. Também de canto de olho, a moça do caixa avistou uma criança gritando irritada. Era loira também, com o fundo dos olhos verdes demais para passarem despercebidos. Verde – esmeralda. Face rosada, mesmo aos gritos. E, por um segundo, todos os olhos concentravam-se na criança. Por um segundo, a única importância daquela tarde eram suas mãozinhas gordinhas pelo ar. Pelo ar, passando nas mesas. Nos móveis, com gritos agudos demais para calma. Mas tudo estava sereno, o fluxo cardíaco da moça do caixa se harmonizara. Com um leve e novo sorriso, essa pegava na mão da criança. Com essa leveza, todos da fila concentravam-se em suas bochechas rosadas. Na pretensão que virassem gargalhas explodindo no ar, em vez de gritos desesperadores.

 

Foi assim. Foi assim que vi suas gargalhadas explodindo delicadamente no ar, como bolhas de sabão. Puras, leves e rápidas. Uma coceira gostosa incomodava nos braços, no estômago cada vez que a criança abria um sorriso. As mãos precisavam tocá-La, fazê-La rir. E qualquer um que passasse sentia essa ligação não só com uma criança rosada, mas entre todas as pessoas. Em suas ânsias de agradá-La.

 

Sem querer, como tudo que é verdadeiro, a criança tinha criado um elo entre todas elas. Por um momento, não importavam-se se o rosto, se as jóias, se o jeito de uma ou outra era melhor. Não importavam-se se alguém parecia melhor, se existia alguma ameaça. Naquele segundo, o importante era alegria pura das coisas que transcendem normas sociais, mas que estão no crescimento resplandecente da vida. E essa criança era assim, uma conexão entre todas as camadas que, se antes inseguras e hesitantes, agora ligavam-se em celebração da vida.

 

Foi assim? Sim. Foi assim que percebi que.

Percebi que, se continuo como sou. Ou se busco essa vontade boba nos outros. É porque também gostaria de trazer essa conexão, essa alegria radiante, entre as pessoas.

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Tags relacionadas:  alegria, beleza, conexão, criança, pureza, vida
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11/02/2009 -  09:33     

Receitas

Sinta.Estipule um grau de tolerância. Faça muitas outras coisas e use o tempo. Use o tempo até que esse sentimento vá se diluindo no corpo dos dias. Até um dia que esse tempo ocupe mais espaço que a substância. Ela nunca sumirá. Mais sim dependerá da crença e da alta sensibilidade cotidiana às suas gotas homeopáticas de insegurança.

 

Encha uma xícara vazia de café quente. Ande pela sala. Passe tantas vezes o necessário em volta da mesa, para controlar as reações. Pare. Pense que isso é uma fantasia. Pense e ignore. Faça todas as coisas invisíveis que lhe fazem ser o que é. Faça-lhes novamente, mesmo sabendo que as mais bonitas delas nunca serão vistas. Convença-se que tu te divertes muito. Convença-se que o tempo passa rápido demais para morte.  Perceba que é verdade e feche a pálpebra pesada e doída do dia.*

* “… Fogem… Fecha-se a pálpebra do dia…”- Raimundo Correia- Anoitecer

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11/02/2009 -  09:30     

Diálogos

Minha menina arisca e mais sensível. Arrepiada em qualquer estrondo e entregue a qualquer toque.

Porque não existe ironia. E sim explicação de uma coisa em outra. Ação e reação.

Mas nesse caso, inversamente. É claro.

 

E dizem as mulheres:

- Malditos homens.

E o que dizem os homens?

- Malditas mulheres.

- Maldito mundo- dizem as pessoas.

- O que foi que eu fiz? Diz o mundo.

Quando alguém achar sua responsabilidade isso para.

 

‘Agite antes de usar’ ‘Manuseie com cuidado’ ‘Este lado para cima’

Tu podes entregar teu corpo ou teu coração com divertidas palavras de rótulos.

Porque eu nunca direi ‘eu te amo’ novamente. Palavra banal.  ‘eu amo a Airlines’

Dizendo é como ‘bom dia’ e já estarei finita. Tenho medo do indescritível.

Então desconverso.

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11/01/2009 -  22:09     

“Viva la Vida”

“… Eu não tinha lhe dito isto antes porque tinha vergonha. Mas a verdade é que vi demais e seria um cafajeste se te visse se quebrar assim sem razão. E eu te amo. Você foi uma luz quando eu tinha cinco anos, com tua cabecinha careca e com as multicores que não eram permitidas a mim. Mas que eu adorava. Sempre adorei a força do roxo no branco, dava-me liberdade. Era um lilás a tornar-se. Era eu a tornar-me, mas eu não sabia. Não sabia que deveria avançar tanto para tocar cores sem ter medo. Como se ele um dia fosse desaparecer…”

Luna acertou os lápis na frente de sua mesa, pediu que Luís parasse de mexê-las como soldados. Ele parara, cansara de gritar e falar coisas como morte e desaparecimento. Sentara na cadeira e fazia ursinhos com massinha, como qualquer criança. Inclinava os pés para cima e observava o peso dentre o ar. Entortava o nariz quando o ursinho deformava e lhe abraçava na junção dos polegares, contando uma historinha no pensamento.

- Tia, tia! Você não faz mais massinha!Faz? Faz? Faz? Tia é o soldado que lhe manda Tiaaaaaaaa! Sabia que sabia que os ursos têm muitas cores, eu gosto do branco porque ele nunca se suja…e não deve levar bronca- E gritava, rindo de faz-de-conta, para se concentrar em outra cor de massinha…escarlate…em segundos depois.

“… Quando você se pintava de rosa, a boca, as pálpebras era quase uma indecência de cores. Brilhava a meia noite, com gliters em redor o corpo e chorava sempre. Chorava sempre ao voltar, com o telefone em mãos. E esperava e esperava. Riscava os dias. Ficava sem comer carne ou sem falar os nomes das pessoas por duas semanas, esperando o telefonema. Pulava de um pé só até a rua. E passava,… Enchia-se de mais gliters furta cores em outras noites e saía, eu gritava com voz grave: “Menina desregrada! Pai vai saber!”Mas eu sabia que você tinha ido, depois de toda sua concentração usual em traços, em palavras, em gestos para aquela noite…”

- Sabe que na lua há branco. Branco cinza. E esverdeado nas pedras, aquele esverdeado grudento. Ui!!! hihih Você diz ui para as lesmas….Ui ui ui!!! Tia tia, se foi e se foi aquele cachorrinho né. Ele era marrom também e branco. Branco como a luz, quando está com frio!!!

“… O branco reluz na Luz Negra. Porque os opostos se seduzem, nunca se encontram realmente, mas adoram a imagem de si mesmos ao contrário. Uma hora cansa. O que olham não lhes ajuda, não lhes apóia. Os amigos não concordam e olhar para ele é perceber um ser que lhe envergonha. Ele/ela te beija, muda uma coisa ou outra em puro desespero. Tu dizes que não conseguiria amar alguém que tem vergonha de si mesmo, alguém volúvel. Mas tu sabes que, se a situação fosse igual como no começo, mas materializada, tu arranjaria outro modo de afastá-lo. Porque opostos divertem, mas não lhe servem como apoio…”

-Tia, tenho namorada. Ela é a mais inteligente e bonita da escola. Como eu. ‘Agente’ vai ser biólogo e ela vai cuidar dos pingüins e eu vou abrir eles para estudar. Daí daí ela vai cuidar dos filhotes enquanto eu caço mais pingüins.

 

“… Tinha gliters em todo quarto, sempre tinha. Eu saboreava pintar meu rosto com cores fortes e jogá-los umas três vezes nas bochechas. E é óbvio que meu pai me bateu muitas vezes, quando pequeno, mas depois aprendi a me colorir com discrição. Fazia design, era pintor. Era o que dizia, enquanto ele entrava no quarto com todos meus lápis de cor fielmente alinhados. Ele me odiava, eu sabia. Seria bonito se dissesse: meu filho morreu na guerra; meu filho é médico, engenheiro; meu filho morreu, porque aberração desaparece. Mas não ser uma coisa ou outra lhe irritava, minha presença gerava dúvidas e cochichos. Nada poderia fazer para uma verdade total, ele também não sabia como esclarecer tudo sem se afundar…”

-Tia, o que você está lendo pode criança lê? Tia tia, que é escarlate? Que é que é?

-Para piá, para Pedro, para! Larga esses lápis, larga a cola colorida. Larga larga. Ei olhe lá, teu pai ta chegando. Ei, olha lá a cola colorida, teu pai ta chegando!

“… Tudo que continha cores não era você. Era a maior injustiça. Suas cores infestavam seu quarto, tu tinhas tudo que não queria. Vestia-se em azul escuro e rosa claro. Pintava as mãos em notas de diversos tons. E tu nem sabia os nomes. Como eu tinha ódio, tu nem sabia os nomes. Eu aprendia só de olhar os nomes e a combinação de tonalidades. Tonalidades jogadas de lado por suas fases de preto, de rosa, de azul pálido e, por fim, de branco. Tudo branco, fronhas de cama e pijaminhas de bebês. Tudo jogado fora, todos os gliters e brilhantes. Quando, por fim, tive que fazer engenharia tive raiva. Eu lhe amo e te odiava. Tu se cercava das cores para te amarem e eu fugia de todas elas que me alegravam, que curavam minha insônia, que coloririam meu corpo oco para a tranqüilidade de outrem também.

Qual era seu problema? Qual era o meu? Qual qual amor, qual Luna? Diga o que fizemos Luna…diga se não bastasse sermos nós mesmos, chorar, declararmos ?Diga que tipo de amor é esse que espera que nos recolhamos, criemos dúvidas para maior atração? Que tipo de aceitação é essa que espera que nos entreguemos…que espera que sejamos tudo aquilo que somos…para perder o interesse? Para fugir, desconcertados?

Olhe, que cor é essa irmã? Essa é minha, tu és branco. Essas são minhas e fico com elas, sorrindo agora, só que me restam. Recebi suas flores, não sentia mais cheiro durante muito tempo. Sei que morrerei sozinho Luna, meu pai se foi. Como ele diz. Eu morrerei sozinho Luna, mas eu nunca me cortei, aparei-me por muito tempo para que me amassem como você. Se é pouco? Parece muito pouco, mas é tudo que sou irmã. Então é muito, porque eu sempre serei tudo para mim…”

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26/12/2008 -  22:00     

Sobre o Amor e sua Unitilidade

Você pega um filhote em mãos, um ser que nem é de sua espécie. E ele é macio, morno em contato com sua pele. Todo seu corpo estira em seus braços, aninha-se em completa entrega. Segurança. E você sabe que é um dos maiores erros que ele poderia cometer, sabe que se fosse outra situação faria tudo para alertá-lo. Mas não, seu nariz lisinho, seus movimentos leves te seguem. Mal percebem que normalmente, tu és um predador voraz. E você sabe disso, com toda evolução predadora e necessária. E se pergunta, do que você tem medo?

Eu tenho medo do amor. Ele é sem motivo, inexplicável. Agora possuo um radar sensível dentro de mim. Meu coração pula quando lhes ouço ao longe, todo meu corpo hesita em imaginar suas ausências. Ouço o miado ao longe, sinto arrepio quando chove e estão encharcados. E isso é inútil.

É inútil para um ser que vive menos que eu. Possivelmente, milhas distante, morrerás antes de mim. E meu choro verdadeiro não será amparado, pois os prantos por essa espécie são considerados inúteis. Mas eu choro, eu amo, sinceramente não sei por que.

Eu sei por que. Esse é meu melhor preenchimento e eu sou fraca, frágil. Trago para meu coração um animal que poderia me arranjar doenças. Doenças. Doenças. Pestes. Compras. Vazio. Caminhar. Cansaço. Força. Vontade.

Doenças e medo que não seriam suportados

Sem o Amor.

 

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Tags relacionadas:  amor, animais, medo, vida
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