“… Como eu poderia esperar sempre. Como poderia esperar agora, sentada aqui. Com meia dúzia de dúvidas a criar.”

- Faltam vírgulas e muitas exclamações. – ajeita as pernas mais uma vez, daria um milhão de reais a quem lhe ensinasse ficar parada.

-Oi?

-Ah, nada…

Nas mesmas folhas de antes, os mesmos rabiscos. Desenha uma flor grande, cada cor possui o valor da palavra que nunca diria.

-Vou indo.

-Ah sim…

-“Ah sim”- sorri e vai.

“Eu me pergunto se eu daria também um milhão de reais se conseguisse dizer uma palavra. Uma palavra que não fosse “sim” ou “tudo bem”. Ou se me calasse a maioria daquelas que resultam em silêncio, vazio. Se pudesse articular meus braços. Mas o tempo pára e a maior agitação vem de um coração, da taquicardia, da falta de ar. Eu daria um milhão, trilhões para ficar sozinha. E bem. E respirar o ar leve de quem vai sem esperar respostas. De quem não precisa se odiar demais ou se policiar tanto por não saber ser algo além. Quando ser quem se é já é muita coisa.”

- Mary…

-Ah… ah-s…Oi.

-“Ah-sim”, era isso que esperava.

-Eu sempre digo isso, é irritante. Atropelo e corto frases mais longas. Falo porque perco o ar por alguns segundos, porque não consigo controlar uma junção de palavras mais inteligentes. Falo porque estou perdida e não sei pensar de outro jeito, criar outro jeito por segurança. Então exponho a peça mais frágil e perene ao ar oxidante. Não sei cobri-la com cuidado, não sei qual material poderia mantê-la. Exponho-lhe até o sumo, pois não sei como poderia guardar eu mesma sem deixar de me perceber.

- Se era o que esperava, era o que eu precisava. Hoje tu me falaste mais que vários meses, é verdade. Mas me contento com essas gotas de palavras, em que seus olhos… ”Ah-sim”… na simplicidade entregam tudo.

-Acorde- falou em voz mais alta que gostaria. Falaria “Ah, sim” novamente, muitas vezes, sem resposta. Pois esse diálogo não passava de um sonho, um desejo. De muitas palavras que não chegariam a tornarem-se :voz.