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23/11/2008 -  22:10     

2_2008

23 e poucos…dia 23

Sinto que a estréia será boa, vejo os chapéus se reunirem em locais reservados, para as pessoas que possuem oportunidade de preocupar-se com suas cores. Liana senta na mesma cadeira e sorri, tem sapatos simples e os limpa discretamente. João Carlos vai levá-La ao altar depois da segunda lua de inverno, parece tudo perfeito o bastante para uma vida mortal, onde se arrepender é melhor do que observar uma velhice solitária. E os casais que se odeiam, mas juntos. E a esfera da vida girando em azul. Não, na verdade, não vais casar. Tem dezoito anos, gosta de inventar histórias mortais, onde, no último pingo de chuva de verão, o padre descobrisse que a noiva é viva demais para ser a mesma. Todo o tempo, virando para ela e falando que, em seus sonhos, ela era estátua de louça fria, que caminhava sozinha e causava suplícios. Ela era um suplício, uma graça ao longe cantada nos encontros da senhoras na tardinha, nas vozes das velhas que relembravam uma juventude encantada. E ela era feita disso, de neve, de naftalina e de pedras de rio. Poderia ficar horas lhes observando paradas, transformando-se pelas pancadas e ficando mais belas. Geladas, macias. Como queria tê-las, sorve-las, mas era impossível como ela…quase se entregavam, quase chamavam para o sempre, mas não passavam de pedras de riacho…nunca como barro recém queimado, que ainda lembrava o fofo da lama nas mãos e, no forno quente, as coisas que podem ser domesticadas.

 

“Não durma agora, disse para seu peixinho de riacho, não durma. Vou contar uma história de uma menina que caminhava na praia e que tinha tudo que é depois, tudo que chega logo. Tudo que parece impossível, como carregar na barriga um ser humano e ter um homem. Era quente quente e quente até o frio, como o vapor tonteante na neve. Como a coceira pós caminhada no vento frio. Era forte e forte seu ventre e suas mãos usadas. De verdade. Ela era tudo aquilo que lembrava a morte, pois cozia e cozinhava repetidamente. E ao ver suas crias crescendo, tinha a coragem de ver materializada sua mortalidade.”

Enviado por:    stahly@ig.com.br - Categoria: Sem categoria
Tags relacionadas:  mortalidade, pedra polida, receio
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23/11/2008 -  21:58     

1_2008

22 e poucos…dia 23

 

O som de sua voz é o som oco, de quando no ladrilho descubro uma falha de construção. É aconchegante e fatídico, já que um toque mais agressivo faria arrebentar a louça. O resto deles tem som ecoante, frio, mas durável. Nós não somos duráveis, tu me amordaça na noite fria e leva de mim qualquer coisa. Quero saber o que, a sensação de algo perdido é pior que a ausência. Não sinta pena, tenho uma dor dentro de mim que não me transcende. Não impregna as pessoas que vejo nas ruas, que ensaiam alguns passos e sorriem rapidamente, para não comprometer-se. É SÓ MINHA, POIS NÃO INFECTO. Percorro sozinha um caminho longo com dor nas pernas, lhes coço. São partes além de mim, tentam mostrar mortalidade. Esqueço e ando. Esqueço até a verdade de minha mortalidade, esqueço mesmo, porque não pode ser verdade que algo que respire vire oco. Aconchegante e fatídico. Respiro o arrepio na espinha que me imobiliza por alguns segundos, passo por ele, sinto pena e assim cumpro meu dever humano. Digo algumas palavras de revolta, viro, olho por alguns segundos e penso: talvez vá morrer sim, talvez eu morra, por a injustiça já mostrar-se na fatalidade de alguém viver assim e só. E só. Não, não estou triste. Levanto o queixo, alguém me olha e vira com vergonha, não consigo me sustentar assim por muito tempo. Volto a mim, pequena, desequilibrada que tropeça entre os próprios dedos, entre os próprios sapatos. Que sapatos são esses? E as flores ao vento, lhes olham. Não são minhas graças-a-deus, senão não saberia como contê-las ou mantê-las em um significado próprio. Quando morressem, o que diria? Era só isso e agora? O que vem agora? Elas morreram, era só isso. Subo no ônibus de muito dias, não odiei cada momento, fui minha e o tropeço foi minha graça. Subo e desço em ônibus ainda viva. Oca, respirante e sem superfície durável.

Enviado por:    stahly@ig.com.br - Categoria: Sem categoria
Tags relacionadas:  cidade, mortalidade, respiração
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