acreditar chorando

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19/12/2008 -  19:59     

Um sim, como vela e penumbra

- Eu não sou um bichinho. Tu não podes circundar-me de coisas agradáveis e bobas. Não sou seu círculo de paz, que lhe resgatará energias no finalzinho do dia. Deixe-me levantar a mão para isso agora. Veja, estou pedindo, mas não precisava. Tu encaminhas para seus locais prediletos, para sua instituição de amizade construída no silencio e na superioridade. Não sei o que isso, não compactuo com a exclusividade. Com a relevância procedente do elitismo. Veja bem, só meus ombros descobertos te atordoam. E sou uma só… Estou parada aqui, com uma criança que sabe menos meu nome que qualquer uma. E ela é minha. E eu sou daquilo que me criou e se foi, que não pergunta coisas e não me diz um caminho. Nunca ouvi tua voz, mas acredito que seu silêncio tanto em minhas coisas bobas como densas, certifica-me das possibilidades anônimas que sempre manti. De minha dominação silenciosa, de minha vitória esgueirada.

E ele dizia:

 

- O que você diz é essa ave voando levemente pelo ar. É leve, quase macia atravessando na superfície invisível.  Mal sabem que atrás dessa brancura penetrante… que me extasia. Tu, meu deus. Poucos sabem que esgueira os olhos levemente, como uma dança e prepara o bico para o ataque. Viramos os olhos, não gostamos de imaginar em coelhinhos brancos brigando…ou qualquer coisa que se relacione a filhotes e sangue…Mas tudo é sangue e leite, meu amor. E preto e preto como o para sempre. Sempre e mortal. Engraçado, tu dizes. A única coisa eterna é a morte, a mais engraçada delas. Porém, não sou humorista meu amor. Tenho lábios cerrados de terror e ignoro e ignoro, para não me encontrar facilmente com minha possibilidade de morte. Quando vejo os noticiais, tendo dar-lhes um motivo errado e uma distância para seus acidentes, suas tragédias. Quando tomo café penso nisso e quando, sem querer, uma gordura escorre por meus lábios, repito por ser sortudo da morte ter passado essa descontinuidade.

 

- E a criança. Ela não existe para ela mesma ainda. Não que não quisesse. Porém, enquanto por seu nome respondermos, será apenas um ser que cresce para formar suas próprias memórias. Tomara que dê tempo. Tempo o bastante para perceber-se como humano e rápido o bastante para não perceber a dor dessa existência. E dói, dói quando ela prende os olhinhos em pequenas pedras, quando se encolhe com um estrondo. Tantos estrondos e enjôos de pedras, logo não perceberá nenhum dos dois. Será um ser bege e mecânico, andando num mundo não imutável e surpreendente. Queria não amá-La assim,como se pudesse levar uma parte de mim quando se machucasse. Mas a amo, mas não fui mãe suficiente para não trazê-la ao mundo. Para não planejar ter mais uma menina, menino, para este mundo. Poderia ter adotado, criado uma criança que já está infortunamente inserida. Mas não é fácil, não é. O sangue escorre todo mês e tu não vês à hora de se tornar um rosto, um coração com emoções.

 

Com batidas, leite e sonhos como eu. Como seu pai, que também choraria se pudesse fazer isso sem perder-se. Eu posso, eu choro e grito. Aceito. Digo sim tantas vezes. Pois consigo manter minhas partes em mim mesmo assim, consigo resguardar um pedacinho verdadeiro dentro de mim. Intocável. Mesmo se me batessem e eu dissesse que era merecida, minha flor iluminada piscaria dentro de mim… E voltaria nua e virgem como sempre. Pois meu sim não é mais forte, minha voz e meu medo não são mais fortes, do que me tornei.

 

Mas agora vou deixá-la dormir. Quando ele se foi, com todo aquele medo, joguei-me ao caixão em pequenos pedaços. Mas, se voltei é porque sempre voltaria. Forte, porque sempre me fui assim… Para mim mesma. Danço no ar como uma pena doce e delicada. Encontro os corpos como uma leve brisa, como lagarta colorida. Pico levemente, como beijo de amor. E levo a pessoa comigo, toda aquela energia estatelada ao chão, por um veneno imperceptível. Sou sua alergia a coisas inóspitas. E acordo, pego minha filha que é inútil amar, mas que, independente de mim, amo e carrego todo esse corpo macio. Digo sim, sorrio, mas fortaleço um não dentro de mim. Sempre vazias, sempre impenetráveis, aquelas palavras que saem de mim. Porém, sempre crescentes, minhas partes intocáveis e reluzentes.

“Rosana. São três..você sempre erra…são três, não dois. Como pode errar? Eu lhe disse e é óbvio, tudo decorativo é três e você é decoradora. Ligue-me depois e atenda as ligações. Ele ligou mesmo e pediu desculpas. Bem rápido, o pai estava atrás sussurrando, tenho certeza. A Laís aceitou, eu tenho raiva. Você sabe. Ligue-me quando ouvir, porque faz dois meses. Faz dois meses.Beijos e…beijos!”

 

- Eu estou aqui e não lhe respondo. Quero ter uma dúzia de recados quando ele chegar a casa, para dizer-lhe que não morri como o outro. Para dizer que falam comigo, mesmo ele não existindo. Para ele pensar, mesmo sendo só mulheres, que sou tão agradável…tão agradável que alguém possivelmente irá me indicar para alguém. Um alguém que sorrirá e fingirá não ter me encontrado para isso, mas que poderei dizer que fui eu que não gostei. Ele sorrirá, apertará a boca e dirá que já viu uma dúzia assim. Uma dúzia. E eu rirei, porque mesmo que ele esteja mentindo, pelo menos achará que sou de uma elite diferente da dele. Mas não há nada, só essa calma e essa certeza, que lhe direi “sim” e “possivelmente”, mas nunca serão minha total entrega. Ah, a Júlia… Júlia possivelmente ligará de novo, precisa que fale para sua filha não ter outro filho com quinze anos. Ela não quer conseguir falar e sempre sabe que digo Sim.

 

Só por fora, um grande e grave sim. Sim e sim, grito nos ecos dos estacionamentos vazios. Mas quanto maior esse Sim, quanto mais forte, quanto mais inflo meus pulmões para gritá-lo com meu maior fôlego possível. Quanto mais meus músculos da pelve distendem e hesitam na amplitude de minhas falanges. Quanto mais isso atinge como uma luz amarelada no meio e angelical, nevoada, nas pontas… Maior é essa escuridão intocável, grande e profunda é essa sombra. Para sempre minha, densa, negra e impossível integridade dentro de mim. Acendam a vela, machuquem o olhar com tamanha luminosidade e percebam a acumulação também de sua penumbra.

 

 

 

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Tags relacionadas:  aparência, família, integridade, sim
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28/11/2008 -  12:54     

5_2008

dia 28                                  13 e pouco oh 14

Canso-me rapidamente de ter filhos ao vê-los correrem pelas cadeiras da paróquia. E as meninas, que apenas consigo ver gravidezes, choros e abandono. Ter menina me dói, assim que nasceste minha primeira filha e Sarah disse-me que o útero não agüentaria mais, sorri de alívio. Ela não viu, abraçava sua menina como se finalmente tivesse achado algo que lembrasse sua casa. Era deveras ridículo. Agora se sentiria pertencente a outra coisa então? Eu dizia, em tom de brincadeira, tem filhos mulher!Tem filhos! Mas nada lhe fazia ser menos enjoativa. Decorava as faculdades, decorava seus cadernos e empilhava livros…livros que nunca tinha tido capacidade ou interesse de ler. E eu dizia, “ponha uma boneca e um kit de maquiagem se quer ela feliz.” Ela sorria a contragosto. “Parece que se odeia mulher, não era isso que tu gostava?”

 

“Tu nunca soube o que eu gostava”, tiro na escuridão, fez virar-me com olhos receosos, como alguém que precisa pegar nas rédeas do cavalo rapidamente, antes este saiba que é controlado. “O que disse amor? Oh amor, é uma menina…é uma menina…Vais crescer e ser o que se é. Tem filhos de monte, não acha que odiarão a menina assim? Tem filhos e um marido, cuidamos de você. Eu cuido da menina, tu cuida….não sei por quê a maior preocupação.”

 

“Ela não chora Sr, Ela só sorri…e deita no chão, balança as mãozinhas. Nunca chora. As mães vem aqui e me exaltam, falam que sei métodos de bons costumes,..dizem que sou mãe completa. Eu sorrio, enquanto tremem de inveja da serenidade da menina.”

 

“Oh, claro! Mas que carinha é essa amor? Que carinha? A menina é doce, saudável, não faz desfeita…não não, ela seguirá as palavras. Seguirá o que é bom para se agüentar nesse mundo…”

 

“Ela…olhe …sim, olhe. Ela te lembra quem Sr ?”

 

“Alguém? Claro, nós…somos pais dela meu amor…sim, meu amor. Não tenho desconfiança, muito menos ela é menos bonita que tu. Tem meus olhos, é nossa…Não vê, é uma menina, mas é nossa. Ah e parece você…”

 

“Sim Osvaldo, ela me parece”

 

“Não vejo ainda o sorriso! Ela é doce, bem comportada, bonita. Parece você, com certeza.”

 

“Sim, me parece…E olha o que me tornei…”

 

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Tags relacionadas:  comportamento, família, frustração
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26/11/2008 -  10:42     

3_2008

dia 26    11 e poucos

“Lua cheia amarela, estrelas piscantes e apagadas, lua nova, lua limpa, lua inexistente. Sol, que sol? E pessoas, para todos os lados. Tu é minha canção leve e de tom agudo, machuca meus ouvidos quando diz não, mas os fere mais quando se cala. Preciso pelo menos da dor de seu ódio, do seu comprometimento com meus erros. Preciso que ria com seus amigos das minhas humilhações, que eu seja a revolta antes de ti dormir com a mesma calma de sempre. Quero que sinta isso, já que nada mais lhe envolve. Desejo que lembre daquilo que poderia ter ido até o fim, das frases perfeitas atrapalhadas por pessoas ou por meus impulsos, quero que sinta raiva daquilo que prometi e não fui capaz de lhe entregar. Eu não sei o que seria estar no meio, não quero ser a importância morna que todos sorriem e comentam: bem doce, legal até e o que vamos fazer agora? Não me diga isso, não importa o que se seguirá agora. Tu, em outra família e não quero que pense que consigo manter-me sozinha e bem. Preciso que me xingue ás vezes e ache-me a filha errada. Nunca poderia agüentar que tocasse-me levemente e sorrisse sem ação, como se tudo resolvesse por si só.

Porque quero que saiba que quando boto fogo em tudo que estava prestes a dar certo, queria que percebesse que a fogueira não apagou e ela sou eu, em cada momento. Pai, não estou ainda em cinzas, me destruo e destruo em volta, o calor está vivo e não apagará se tu fechar os olhos.”

 Lúcia tinha 35 anos.

Lúcia tinha dez anos, uma pinta no canto da boca e vários prêmios de literatura.

E ela amava quando o pai se encontrava com ela, junto de muitas pessoas. Ela segurava sua mão nas pontas dos dedos, a fim de não demonstrar além do que deveria. Olhava para frente e os lados, conferia cada respiração perdida perto dela e suspirava com alívio. O calor das pessoas era sua luz acesa dentre aqueles momentos. Odiava esse sentimento de outra pessoa na mesma, como dizia. Seu coração batia mais forte e seu corpo tremia em vergonha quando lhe via. Seu pai que, em cada passo rápido e confiante dado, lhe dava esperança de de repente tornar-se algo parecido com os outros.

 Sentia-se mais adulta que as outras, muitas vezes. Muitas vezes. Porque, mesmo quando ele lhe escondia no quarto de ferramentas e abusava dela. Mesmo quando lhe dizia que aquilo era completamente normal entre familiares. Quando lhe dizia as coisas com voz grossa, com o hálito quente em seus ouvidos e apertava mais partes machucadas de seu corpo de três anos…Mesmo assim, ela sentia que algo poderia ser diferente do que era, que nada poderia ser fechado por si só.

 E sim, ela odiava ter nascido com um amor incondicional. Pela ânsia de um pai e uma mãe, que a olhava na verdade,  com inveja. Mas desde aquele dia, tudo fazia parte de um projeto maior para seu resto de vida. Nada no mundo e nem ninguém lhe diria que o inerente é vivo e incontestável. Que o nascimento é irreversível. Que todos estão enovelados por uma cadeia intransponível.

E foi assim que ela tornou-se Antropóloga.

 

 

 

 

 

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Tags relacionadas:  abuso, cultura, família
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