- Eu não sou um bichinho. Tu não podes circundar-me de coisas agradáveis e bobas. Não sou seu círculo de paz, que lhe resgatará energias no finalzinho do dia. Deixe-me levantar a mão para isso agora. Veja, estou pedindo, mas não precisava. Tu encaminhas para seus locais prediletos, para sua instituição de amizade construída no silencio e na superioridade. Não sei o que isso, não compactuo com a exclusividade. Com a relevância procedente do elitismo. Veja bem, só meus ombros descobertos te atordoam. E sou uma só… Estou parada aqui, com uma criança que sabe menos meu nome que qualquer uma. E ela é minha. E eu sou daquilo que me criou e se foi, que não pergunta coisas e não me diz um caminho. Nunca ouvi tua voz, mas acredito que seu silêncio tanto em minhas coisas bobas como densas, certifica-me das possibilidades anônimas que sempre manti. De minha dominação silenciosa, de minha vitória esgueirada.
E ele dizia:
- O que você diz é essa ave voando levemente pelo ar. É leve, quase macia atravessando na superfície invisível. Mal sabem que atrás dessa brancura penetrante… que me extasia. Tu, meu deus. Poucos sabem que esgueira os olhos levemente, como uma dança e prepara o bico para o ataque. Viramos os olhos, não gostamos de imaginar em coelhinhos brancos brigando…ou qualquer coisa que se relacione a filhotes e sangue…Mas tudo é sangue e leite, meu amor. E preto e preto como o para sempre. Sempre e mortal. Engraçado, tu dizes. A única coisa eterna é a morte, a mais engraçada delas. Porém, não sou humorista meu amor. Tenho lábios cerrados de terror e ignoro e ignoro, para não me encontrar facilmente com minha possibilidade de morte. Quando vejo os noticiais, tendo dar-lhes um motivo errado e uma distância para seus acidentes, suas tragédias. Quando tomo café penso nisso e quando, sem querer, uma gordura escorre por meus lábios, repito por ser sortudo da morte ter passado essa descontinuidade.
- E a criança. Ela não existe para ela mesma ainda. Não que não quisesse. Porém, enquanto por seu nome respondermos, será apenas um ser que cresce para formar suas próprias memórias. Tomara que dê tempo. Tempo o bastante para perceber-se como humano e rápido o bastante para não perceber a dor dessa existência. E dói, dói quando ela prende os olhinhos em pequenas pedras, quando se encolhe com um estrondo. Tantos estrondos e enjôos de pedras, logo não perceberá nenhum dos dois. Será um ser bege e mecânico, andando num mundo não imutável e surpreendente. Queria não amá-La assim,como se pudesse levar uma parte de mim quando se machucasse. Mas a amo, mas não fui mãe suficiente para não trazê-la ao mundo. Para não planejar ter mais uma menina, menino, para este mundo. Poderia ter adotado, criado uma criança que já está infortunamente inserida. Mas não é fácil, não é. O sangue escorre todo mês e tu não vês à hora de se tornar um rosto, um coração com emoções.
Com batidas, leite e sonhos como eu. Como seu pai, que também choraria se pudesse fazer isso sem perder-se. Eu posso, eu choro e grito. Aceito. Digo sim tantas vezes. Pois consigo manter minhas partes em mim mesmo assim, consigo resguardar um pedacinho verdadeiro dentro de mim. Intocável. Mesmo se me batessem e eu dissesse que era merecida, minha flor iluminada piscaria dentro de mim… E voltaria nua e virgem como sempre. Pois meu sim não é mais forte, minha voz e meu medo não são mais fortes, do que me tornei.
Mas agora vou deixá-la dormir. Quando ele se foi, com todo aquele medo, joguei-me ao caixão em pequenos pedaços. Mas, se voltei é porque sempre voltaria. Forte, porque sempre me fui assim… Para mim mesma. Danço no ar como uma pena doce e delicada. Encontro os corpos como uma leve brisa, como lagarta colorida. Pico levemente, como beijo de amor. E levo a pessoa comigo, toda aquela energia estatelada ao chão, por um veneno imperceptível. Sou sua alergia a coisas inóspitas. E acordo, pego minha filha que é inútil amar, mas que, independente de mim, amo e carrego todo esse corpo macio. Digo sim, sorrio, mas fortaleço um não dentro de mim. Sempre vazias, sempre impenetráveis, aquelas palavras que saem de mim. Porém, sempre crescentes, minhas partes intocáveis e reluzentes.
“Rosana. São três..você sempre erra…são três, não dois. Como pode errar? Eu lhe disse e é óbvio, tudo decorativo é três e você é decoradora. Ligue-me depois e atenda as ligações. Ele ligou mesmo e pediu desculpas. Bem rápido, o pai estava atrás sussurrando, tenho certeza. A Laís aceitou, eu tenho raiva. Você sabe. Ligue-me quando ouvir, porque faz dois meses. Faz dois meses.Beijos e…beijos!”
- Eu estou aqui e não lhe respondo. Quero ter uma dúzia de recados quando ele chegar a casa, para dizer-lhe que não morri como o outro. Para dizer que falam comigo, mesmo ele não existindo. Para ele pensar, mesmo sendo só mulheres, que sou tão agradável…tão agradável que alguém possivelmente irá me indicar para alguém. Um alguém que sorrirá e fingirá não ter me encontrado para isso, mas que poderei dizer que fui eu que não gostei. Ele sorrirá, apertará a boca e dirá que já viu uma dúzia assim. Uma dúzia. E eu rirei, porque mesmo que ele esteja mentindo, pelo menos achará que sou de uma elite diferente da dele. Mas não há nada, só essa calma e essa certeza, que lhe direi “sim” e “possivelmente”, mas nunca serão minha total entrega. Ah, a Júlia… Júlia possivelmente ligará de novo, precisa que fale para sua filha não ter outro filho com quinze anos. Ela não quer conseguir falar e sempre sabe que digo Sim.
Só por fora, um grande e grave sim. Sim e sim, grito nos ecos dos estacionamentos vazios. Mas quanto maior esse Sim, quanto mais forte, quanto mais inflo meus pulmões para gritá-lo com meu maior fôlego possível. Quanto mais meus músculos da pelve distendem e hesitam na amplitude de minhas falanges. Quanto mais isso atinge como uma luz amarelada no meio e angelical, nevoada, nas pontas… Maior é essa escuridão intocável, grande e profunda é essa sombra. Para sempre minha, densa, negra e impossível integridade dentro de mim. Acendam a vela, machuquem o olhar com tamanha luminosidade e percebam a acumulação também de sua penumbra.
