22 e poucos…dia 23
O som de sua voz é o som oco, de quando no ladrilho descubro uma falha de construção. É aconchegante e fatídico, já que um toque mais agressivo faria arrebentar a louça. O resto deles tem som ecoante, frio, mas durável. Nós não somos duráveis, tu me amordaça na noite fria e leva de mim qualquer coisa. Quero saber o que, a sensação de algo perdido é pior que a ausência. Não sinta pena, tenho uma dor dentro de mim que não me transcende. Não impregna as pessoas que vejo nas ruas, que ensaiam alguns passos e sorriem rapidamente, para não comprometer-se. É SÓ MINHA, POIS NÃO INFECTO. Percorro sozinha um caminho longo com dor nas pernas, lhes coço. São partes além de mim, tentam mostrar mortalidade. Esqueço e ando. Esqueço até a verdade de minha mortalidade, esqueço mesmo, porque não pode ser verdade que algo que respire vire oco. Aconchegante e fatídico. Respiro o arrepio na espinha que me imobiliza por alguns segundos, passo por ele, sinto pena e assim cumpro meu dever humano. Digo algumas palavras de revolta, viro, olho por alguns segundos e penso: talvez vá morrer sim, talvez eu morra, por a injustiça já mostrar-se na fatalidade de alguém viver assim e só. E só. Não, não estou triste. Levanto o queixo, alguém me olha e vira com vergonha, não consigo me sustentar assim por muito tempo. Volto a mim, pequena, desequilibrada que tropeça entre os próprios dedos, entre os próprios sapatos. Que sapatos são esses? E as flores ao vento, lhes olham. Não são minhas graças-a-deus, senão não saberia como contê-las ou mantê-las em um significado próprio. Quando morressem, o que diria? Era só isso e agora? O que vem agora? Elas morreram, era só isso. Subo no ônibus de muito dias, não odiei cada momento, fui minha e o tropeço foi minha graça. Subo e desço em ônibus ainda viva. Oca, respirante e sem superfície durável.
