acreditar chorando

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11/01/2009 -  22:09     

“Viva la Vida”

“… Eu não tinha lhe dito isto antes porque tinha vergonha. Mas a verdade é que vi demais e seria um cafajeste se te visse se quebrar assim sem razão. E eu te amo. Você foi uma luz quando eu tinha cinco anos, com tua cabecinha careca e com as multicores que não eram permitidas a mim. Mas que eu adorava. Sempre adorei a força do roxo no branco, dava-me liberdade. Era um lilás a tornar-se. Era eu a tornar-me, mas eu não sabia. Não sabia que deveria avançar tanto para tocar cores sem ter medo. Como se ele um dia fosse desaparecer…”

Luna acertou os lápis na frente de sua mesa, pediu que Luís parasse de mexê-las como soldados. Ele parara, cansara de gritar e falar coisas como morte e desaparecimento. Sentara na cadeira e fazia ursinhos com massinha, como qualquer criança. Inclinava os pés para cima e observava o peso dentre o ar. Entortava o nariz quando o ursinho deformava e lhe abraçava na junção dos polegares, contando uma historinha no pensamento.

- Tia, tia! Você não faz mais massinha!Faz? Faz? Faz? Tia é o soldado que lhe manda Tiaaaaaaaa! Sabia que sabia que os ursos têm muitas cores, eu gosto do branco porque ele nunca se suja…e não deve levar bronca- E gritava, rindo de faz-de-conta, para se concentrar em outra cor de massinha…escarlate…em segundos depois.

“… Quando você se pintava de rosa, a boca, as pálpebras era quase uma indecência de cores. Brilhava a meia noite, com gliters em redor o corpo e chorava sempre. Chorava sempre ao voltar, com o telefone em mãos. E esperava e esperava. Riscava os dias. Ficava sem comer carne ou sem falar os nomes das pessoas por duas semanas, esperando o telefonema. Pulava de um pé só até a rua. E passava,… Enchia-se de mais gliters furta cores em outras noites e saía, eu gritava com voz grave: “Menina desregrada! Pai vai saber!”Mas eu sabia que você tinha ido, depois de toda sua concentração usual em traços, em palavras, em gestos para aquela noite…”

- Sabe que na lua há branco. Branco cinza. E esverdeado nas pedras, aquele esverdeado grudento. Ui!!! hihih Você diz ui para as lesmas….Ui ui ui!!! Tia tia, se foi e se foi aquele cachorrinho né. Ele era marrom também e branco. Branco como a luz, quando está com frio!!!

“… O branco reluz na Luz Negra. Porque os opostos se seduzem, nunca se encontram realmente, mas adoram a imagem de si mesmos ao contrário. Uma hora cansa. O que olham não lhes ajuda, não lhes apóia. Os amigos não concordam e olhar para ele é perceber um ser que lhe envergonha. Ele/ela te beija, muda uma coisa ou outra em puro desespero. Tu dizes que não conseguiria amar alguém que tem vergonha de si mesmo, alguém volúvel. Mas tu sabes que, se a situação fosse igual como no começo, mas materializada, tu arranjaria outro modo de afastá-lo. Porque opostos divertem, mas não lhe servem como apoio…”

-Tia, tenho namorada. Ela é a mais inteligente e bonita da escola. Como eu. ‘Agente’ vai ser biólogo e ela vai cuidar dos pingüins e eu vou abrir eles para estudar. Daí daí ela vai cuidar dos filhotes enquanto eu caço mais pingüins.

 

“… Tinha gliters em todo quarto, sempre tinha. Eu saboreava pintar meu rosto com cores fortes e jogá-los umas três vezes nas bochechas. E é óbvio que meu pai me bateu muitas vezes, quando pequeno, mas depois aprendi a me colorir com discrição. Fazia design, era pintor. Era o que dizia, enquanto ele entrava no quarto com todos meus lápis de cor fielmente alinhados. Ele me odiava, eu sabia. Seria bonito se dissesse: meu filho morreu na guerra; meu filho é médico, engenheiro; meu filho morreu, porque aberração desaparece. Mas não ser uma coisa ou outra lhe irritava, minha presença gerava dúvidas e cochichos. Nada poderia fazer para uma verdade total, ele também não sabia como esclarecer tudo sem se afundar…”

-Tia, o que você está lendo pode criança lê? Tia tia, que é escarlate? Que é que é?

-Para piá, para Pedro, para! Larga esses lápis, larga a cola colorida. Larga larga. Ei olhe lá, teu pai ta chegando. Ei, olha lá a cola colorida, teu pai ta chegando!

“… Tudo que continha cores não era você. Era a maior injustiça. Suas cores infestavam seu quarto, tu tinhas tudo que não queria. Vestia-se em azul escuro e rosa claro. Pintava as mãos em notas de diversos tons. E tu nem sabia os nomes. Como eu tinha ódio, tu nem sabia os nomes. Eu aprendia só de olhar os nomes e a combinação de tonalidades. Tonalidades jogadas de lado por suas fases de preto, de rosa, de azul pálido e, por fim, de branco. Tudo branco, fronhas de cama e pijaminhas de bebês. Tudo jogado fora, todos os gliters e brilhantes. Quando, por fim, tive que fazer engenharia tive raiva. Eu lhe amo e te odiava. Tu se cercava das cores para te amarem e eu fugia de todas elas que me alegravam, que curavam minha insônia, que coloririam meu corpo oco para a tranqüilidade de outrem também.

Qual era seu problema? Qual era o meu? Qual qual amor, qual Luna? Diga o que fizemos Luna…diga se não bastasse sermos nós mesmos, chorar, declararmos ?Diga que tipo de amor é esse que espera que nos recolhamos, criemos dúvidas para maior atração? Que tipo de aceitação é essa que espera que nos entreguemos…que espera que sejamos tudo aquilo que somos…para perder o interesse? Para fugir, desconcertados?

Olhe, que cor é essa irmã? Essa é minha, tu és branco. Essas são minhas e fico com elas, sorrindo agora, só que me restam. Recebi suas flores, não sentia mais cheiro durante muito tempo. Sei que morrerei sozinho Luna, meu pai se foi. Como ele diz. Eu morrerei sozinho Luna, mas eu nunca me cortei, aparei-me por muito tempo para que me amassem como você. Se é pouco? Parece muito pouco, mas é tudo que sou irmã. Então é muito, porque eu sempre serei tudo para mim…”

Enviado por:    stahly@ig.com.br - Categoria: Sem categoria
Tags relacionadas:  aparência, cores, vida
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19/12/2008 -  19:59     

Um sim, como vela e penumbra

- Eu não sou um bichinho. Tu não podes circundar-me de coisas agradáveis e bobas. Não sou seu círculo de paz, que lhe resgatará energias no finalzinho do dia. Deixe-me levantar a mão para isso agora. Veja, estou pedindo, mas não precisava. Tu encaminhas para seus locais prediletos, para sua instituição de amizade construída no silencio e na superioridade. Não sei o que isso, não compactuo com a exclusividade. Com a relevância procedente do elitismo. Veja bem, só meus ombros descobertos te atordoam. E sou uma só… Estou parada aqui, com uma criança que sabe menos meu nome que qualquer uma. E ela é minha. E eu sou daquilo que me criou e se foi, que não pergunta coisas e não me diz um caminho. Nunca ouvi tua voz, mas acredito que seu silêncio tanto em minhas coisas bobas como densas, certifica-me das possibilidades anônimas que sempre manti. De minha dominação silenciosa, de minha vitória esgueirada.

E ele dizia:

 

- O que você diz é essa ave voando levemente pelo ar. É leve, quase macia atravessando na superfície invisível.  Mal sabem que atrás dessa brancura penetrante… que me extasia. Tu, meu deus. Poucos sabem que esgueira os olhos levemente, como uma dança e prepara o bico para o ataque. Viramos os olhos, não gostamos de imaginar em coelhinhos brancos brigando…ou qualquer coisa que se relacione a filhotes e sangue…Mas tudo é sangue e leite, meu amor. E preto e preto como o para sempre. Sempre e mortal. Engraçado, tu dizes. A única coisa eterna é a morte, a mais engraçada delas. Porém, não sou humorista meu amor. Tenho lábios cerrados de terror e ignoro e ignoro, para não me encontrar facilmente com minha possibilidade de morte. Quando vejo os noticiais, tendo dar-lhes um motivo errado e uma distância para seus acidentes, suas tragédias. Quando tomo café penso nisso e quando, sem querer, uma gordura escorre por meus lábios, repito por ser sortudo da morte ter passado essa descontinuidade.

 

- E a criança. Ela não existe para ela mesma ainda. Não que não quisesse. Porém, enquanto por seu nome respondermos, será apenas um ser que cresce para formar suas próprias memórias. Tomara que dê tempo. Tempo o bastante para perceber-se como humano e rápido o bastante para não perceber a dor dessa existência. E dói, dói quando ela prende os olhinhos em pequenas pedras, quando se encolhe com um estrondo. Tantos estrondos e enjôos de pedras, logo não perceberá nenhum dos dois. Será um ser bege e mecânico, andando num mundo não imutável e surpreendente. Queria não amá-La assim,como se pudesse levar uma parte de mim quando se machucasse. Mas a amo, mas não fui mãe suficiente para não trazê-la ao mundo. Para não planejar ter mais uma menina, menino, para este mundo. Poderia ter adotado, criado uma criança que já está infortunamente inserida. Mas não é fácil, não é. O sangue escorre todo mês e tu não vês à hora de se tornar um rosto, um coração com emoções.

 

Com batidas, leite e sonhos como eu. Como seu pai, que também choraria se pudesse fazer isso sem perder-se. Eu posso, eu choro e grito. Aceito. Digo sim tantas vezes. Pois consigo manter minhas partes em mim mesmo assim, consigo resguardar um pedacinho verdadeiro dentro de mim. Intocável. Mesmo se me batessem e eu dissesse que era merecida, minha flor iluminada piscaria dentro de mim… E voltaria nua e virgem como sempre. Pois meu sim não é mais forte, minha voz e meu medo não são mais fortes, do que me tornei.

 

Mas agora vou deixá-la dormir. Quando ele se foi, com todo aquele medo, joguei-me ao caixão em pequenos pedaços. Mas, se voltei é porque sempre voltaria. Forte, porque sempre me fui assim… Para mim mesma. Danço no ar como uma pena doce e delicada. Encontro os corpos como uma leve brisa, como lagarta colorida. Pico levemente, como beijo de amor. E levo a pessoa comigo, toda aquela energia estatelada ao chão, por um veneno imperceptível. Sou sua alergia a coisas inóspitas. E acordo, pego minha filha que é inútil amar, mas que, independente de mim, amo e carrego todo esse corpo macio. Digo sim, sorrio, mas fortaleço um não dentro de mim. Sempre vazias, sempre impenetráveis, aquelas palavras que saem de mim. Porém, sempre crescentes, minhas partes intocáveis e reluzentes.

“Rosana. São três..você sempre erra…são três, não dois. Como pode errar? Eu lhe disse e é óbvio, tudo decorativo é três e você é decoradora. Ligue-me depois e atenda as ligações. Ele ligou mesmo e pediu desculpas. Bem rápido, o pai estava atrás sussurrando, tenho certeza. A Laís aceitou, eu tenho raiva. Você sabe. Ligue-me quando ouvir, porque faz dois meses. Faz dois meses.Beijos e…beijos!”

 

- Eu estou aqui e não lhe respondo. Quero ter uma dúzia de recados quando ele chegar a casa, para dizer-lhe que não morri como o outro. Para dizer que falam comigo, mesmo ele não existindo. Para ele pensar, mesmo sendo só mulheres, que sou tão agradável…tão agradável que alguém possivelmente irá me indicar para alguém. Um alguém que sorrirá e fingirá não ter me encontrado para isso, mas que poderei dizer que fui eu que não gostei. Ele sorrirá, apertará a boca e dirá que já viu uma dúzia assim. Uma dúzia. E eu rirei, porque mesmo que ele esteja mentindo, pelo menos achará que sou de uma elite diferente da dele. Mas não há nada, só essa calma e essa certeza, que lhe direi “sim” e “possivelmente”, mas nunca serão minha total entrega. Ah, a Júlia… Júlia possivelmente ligará de novo, precisa que fale para sua filha não ter outro filho com quinze anos. Ela não quer conseguir falar e sempre sabe que digo Sim.

 

Só por fora, um grande e grave sim. Sim e sim, grito nos ecos dos estacionamentos vazios. Mas quanto maior esse Sim, quanto mais forte, quanto mais inflo meus pulmões para gritá-lo com meu maior fôlego possível. Quanto mais meus músculos da pelve distendem e hesitam na amplitude de minhas falanges. Quanto mais isso atinge como uma luz amarelada no meio e angelical, nevoada, nas pontas… Maior é essa escuridão intocável, grande e profunda é essa sombra. Para sempre minha, densa, negra e impossível integridade dentro de mim. Acendam a vela, machuquem o olhar com tamanha luminosidade e percebam a acumulação também de sua penumbra.

 

 

 

Enviado por:    stahly@ig.com.br - Categoria: Sem categoria
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