dia 26    11 e poucos

“Lua cheia amarela, estrelas piscantes e apagadas, lua nova, lua limpa, lua inexistente. Sol, que sol? E pessoas, para todos os lados. Tu é minha canção leve e de tom agudo, machuca meus ouvidos quando diz não, mas os fere mais quando se cala. Preciso pelo menos da dor de seu ódio, do seu comprometimento com meus erros. Preciso que ria com seus amigos das minhas humilhações, que eu seja a revolta antes de ti dormir com a mesma calma de sempre. Quero que sinta isso, já que nada mais lhe envolve. Desejo que lembre daquilo que poderia ter ido até o fim, das frases perfeitas atrapalhadas por pessoas ou por meus impulsos, quero que sinta raiva daquilo que prometi e não fui capaz de lhe entregar. Eu não sei o que seria estar no meio, não quero ser a importância morna que todos sorriem e comentam: bem doce, legal até e o que vamos fazer agora? Não me diga isso, não importa o que se seguirá agora. Tu, em outra família e não quero que pense que consigo manter-me sozinha e bem. Preciso que me xingue ás vezes e ache-me a filha errada. Nunca poderia agüentar que tocasse-me levemente e sorrisse sem ação, como se tudo resolvesse por si só.

Porque quero que saiba que quando boto fogo em tudo que estava prestes a dar certo, queria que percebesse que a fogueira não apagou e ela sou eu, em cada momento. Pai, não estou ainda em cinzas, me destruo e destruo em volta, o calor está vivo e não apagará se tu fechar os olhos.”

 Lúcia tinha 35 anos.

Lúcia tinha dez anos, uma pinta no canto da boca e vários prêmios de literatura.

E ela amava quando o pai se encontrava com ela, junto de muitas pessoas. Ela segurava sua mão nas pontas dos dedos, a fim de não demonstrar além do que deveria. Olhava para frente e os lados, conferia cada respiração perdida perto dela e suspirava com alívio. O calor das pessoas era sua luz acesa dentre aqueles momentos. Odiava esse sentimento de outra pessoa na mesma, como dizia. Seu coração batia mais forte e seu corpo tremia em vergonha quando lhe via. Seu pai que, em cada passo rápido e confiante dado, lhe dava esperança de de repente tornar-se algo parecido com os outros.

 Sentia-se mais adulta que as outras, muitas vezes. Muitas vezes. Porque, mesmo quando ele lhe escondia no quarto de ferramentas e abusava dela. Mesmo quando lhe dizia que aquilo era completamente normal entre familiares. Quando lhe dizia as coisas com voz grossa, com o hálito quente em seus ouvidos e apertava mais partes machucadas de seu corpo de três anos…Mesmo assim, ela sentia que algo poderia ser diferente do que era, que nada poderia ser fechado por si só.

 E sim, ela odiava ter nascido com um amor incondicional. Pela ânsia de um pai e uma mãe, que a olhava na verdade,  com inveja. Mas desde aquele dia, tudo fazia parte de um projeto maior para seu resto de vida. Nada no mundo e nem ninguém lhe diria que o inerente é vivo e incontestável. Que o nascimento é irreversível. Que todos estão enovelados por uma cadeia intransponível.

E foi assim que ela tornou-se Antropóloga.