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17/03/2009 - 23:05

“Conexões Urbanas”

Eu sempre tive consciência que a Beleza é algo que tira o fôlego facilmente. Quando digo Beleza, digo aquela incontestável, aquela que, mesmo odiando dar tanta atenção, tu não pode deixar de segui-la. Todas as coisas, uma por uma, param por um segundo. Como uma flor bem aberta, mas mais durável. E com vasos mais que diferentes.

 

Foi assim que ela chegou. Com um casaquinho ciano e branco, em listras, revelando um pouco mais o verde fundo de seus olhos. E ela parou na caixa, com os cabelos levemente desarrumados, gritando um loiro que nem precisava ser tão natural. Ela sempre soube, desconfiava pelo canto do olho. Sabe que, mesmo ao sorrir, aquilo poderia ser considerado pretensão. Indiscrição. Então sorriu de leve, esperou a moça do caixa lentamente ajeitar suas coisas. Nem percebeu, de acostumada, essa última arrumar com desdém. Com puro desdém, de uma raiva profunda por ela mesma. Pela biologia. Pelos seus cabelos negros demais, por sua boca levemente torta e seus olhos castanhos usuais. Dóia-lhe na boca do estômago e cada gesto da beleza loira era quase uma provocação silenciosa.

 

Foi assim então. Também de canto de olho, a moça do caixa avistou uma criança gritando irritada. Era loira também, com o fundo dos olhos verdes demais para passarem despercebidos. Verde – esmeralda. Face rosada, mesmo aos gritos. E, por um segundo, todos os olhos concentravam-se na criança. Por um segundo, a única importância daquela tarde eram suas mãozinhas gordinhas pelo ar. Pelo ar, passando nas mesas. Nos móveis, com gritos agudos demais para calma. Mas tudo estava sereno, o fluxo cardíaco da moça do caixa se harmonizara. Com um leve e novo sorriso, essa pegava na mão da criança. Com essa leveza, todos da fila concentravam-se em suas bochechas rosadas. Na pretensão que virassem gargalhas explodindo no ar, em vez de gritos desesperadores.

 

Foi assim. Foi assim que vi suas gargalhadas explodindo delicadamente no ar, como bolhas de sabão. Puras, leves e rápidas. Uma coceira gostosa incomodava nos braços, no estômago cada vez que a criança abria um sorriso. As mãos precisavam tocá-La, fazê-La rir. E qualquer um que passasse sentia essa ligação não só com uma criança rosada, mas entre todas as pessoas. Em suas ânsias de agradá-La.

 

Sem querer, como tudo que é verdadeiro, a criança tinha criado um elo entre todas elas. Por um momento, não importavam-se se o rosto, se as jóias, se o jeito de uma ou outra era melhor. Não importavam-se se alguém parecia melhor, se existia alguma ameaça. Naquele segundo, o importante era alegria pura das coisas que transcendem normas sociais, mas que estão no crescimento resplandecente da vida. E essa criança era assim, uma conexão entre todas as camadas que, se antes inseguras e hesitantes, agora ligavam-se em celebração da vida.

 

Foi assim? Sim. Foi assim que percebi que.

Percebi que, se continuo como sou. Ou se busco essa vontade boba nos outros. É porque também gostaria de trazer essa conexão, essa alegria radiante, entre as pessoas.

Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , ,
24/02/2009 - 09:10

Na estrada única e inominável

Eu me lembro de um sonho que tive. Todos meus amigos, de algum modo eram aquilo que eu não imaginava. Eram multicores. Dançavam na minha janela como balões e voavam com a mesma leveza.

E, enquanto eu olhava eles partirem-se no ar revolto, milhares de purpurinas despejavam-se no céu. Encostavam-se a meu corpo que era feito de ar, que era feito das pesadas massas frias que lhes tinham destruído. Mas a gargalhada gostosa deles coçava em minha nuca, passava pelos meus braços e cutucava minha barriga. E eu rolava de rir como um ar revolto, subindo e subindo livremente. Esquentando, expandindo. E as risadas causavam feridas coloridas em minha pele, cada uma com um rosto.

 

Eu nunca tinha pensado em usar nada para ter esses sonhos. Eu era assim, nunca colorida artificialmente. Nunca sobrecarregada de conservantes especiais. Era a cor desse vento, da cor de todos os mares. E da brisa salgada da manhã. Mesmo se passasse mil dias debaixo de água doce, nada e nem ninguém tiraria minha incrível capacidade de cobrir-me da esfoliação do mais grosso sal. E, ao mesmo tempo, em dias bons e exagerados: Eu subia, subia e subia deixando aquela substância magnífica, mas não tão elástica e dinâmica como eu.  Mesmo se eu me perdesse em alguns braços, nunca seriam como aquela única inspiração expansível.

 

Um dia, eu parei de subir tanto. De algum modo, o excesso de óleo me tinha sugado. E eu não subia mais por tanto tempo. Esparramava-me por vários metros, mas nunca agregava qualquer outro ser sem o desespero do mesmo.

 Foi quando eu resolvi que seria assim. Eu iria acordar e eu iria viver.

Acordar sem analogias, acordar de bons ou maus sonhos. Simplesmente. E viver sem penduricalhos, respirar e respirar procurando a total satisfação depois de cada fôlego. Eu decidi isso porque deveria. Sempre foi assim, por necessidade. Então acordei desses maus e estonteantes sonhos. Então acordei sozinha e caminhei por vários quilômetros. Eu tive medo. Eu tive uma terrível ausência da segurança de planos. Não coloquei qualquer coisa em pedestal. Viver alcançava um topo intransponível. Um topo não destronável. Caminhava entre suas pedras, entre as minhas, entre as de ninguém. Sentia um gosto de enjôo, de vergonha e de ansiosidade na boca. Bem no fundo. No fracasso, no abandono. Na dor das pernas, da coluna e do estômago abandonado ou sobrecarregado. Na gordura, no excesso de magreza. Na virtude, nas falas cochichadas. E foi assim, resumidamente. Eu acordava e vivia, dias únicos e não repetitivos. Numa vida única e não “repetível”.

 

E desde então, não flutuo ou besunto. Desde então caminho livremente.

Como uma substância não classificável.

Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , ,
11/02/2009 - 09:33

Receitas

Sinta.Estipule um grau de tolerância. Faça muitas outras coisas e use o tempo. Use o tempo até que esse sentimento vá se diluindo no corpo dos dias. Até um dia que esse tempo ocupe mais espaço que a substância. Ela nunca sumirá. Mais sim dependerá da crença e da alta sensibilidade cotidiana às suas gotas homeopáticas de insegurança.

 

Encha uma xícara vazia de café quente. Ande pela sala. Passe tantas vezes o necessário em volta da mesa, para controlar as reações. Pare. Pense que isso é uma fantasia. Pense e ignore. Faça todas as coisas invisíveis que lhe fazem ser o que é. Faça-lhes novamente, mesmo sabendo que as mais bonitas delas nunca serão vistas. Convença-se que tu te divertes muito. Convença-se que o tempo passa rápido demais para morte.  Perceba que é verdade e feche a pálpebra pesada e doída do dia.*

* “… Fogem… Fecha-se a pálpebra do dia…”- Raimundo Correia- Anoitecer

Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags: , ,
11/02/2009 - 09:30

Diálogos

Minha menina arisca e mais sensível. Arrepiada em qualquer estrondo e entregue a qualquer toque.

Porque não existe ironia. E sim explicação de uma coisa em outra. Ação e reação.

Mas nesse caso, inversamente. É claro.

 

E dizem as mulheres:

- Malditos homens.

E o que dizem os homens?

- Malditas mulheres.

- Maldito mundo- dizem as pessoas.

- O que foi que eu fiz? Diz o mundo.

Quando alguém achar sua responsabilidade isso para.

 

‘Agite antes de usar’ ‘Manuseie com cuidado’ ‘Este lado para cima’

Tu podes entregar teu corpo ou teu coração com divertidas palavras de rótulos.

Porque eu nunca direi ‘eu te amo’ novamente. Palavra banal.  ‘eu amo a Airlines’

Dizendo é como ‘bom dia’ e já estarei finita. Tenho medo do indescritível.

Então desconverso.

Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags: , ,
05/02/2009 - 13:00

Por faltarem vírgulas e muitas exclamações. ..

“… Como eu poderia esperar sempre. Como poderia esperar agora, sentada aqui. Com meia dúzia de dúvidas a criar.”

- Faltam vírgulas e muitas exclamações. – ajeita as pernas mais uma vez, daria um milhão de reais a quem lhe ensinasse ficar parada.

-Oi?

-Ah, nada…

Nas mesmas folhas de antes, os mesmos rabiscos. Desenha uma flor grande, cada cor possui o valor da palavra que nunca diria.

-Vou indo.

-Ah sim…

-“Ah sim”- sorri e vai.

“Eu me pergunto se eu daria também um milhão de reais se conseguisse dizer uma palavra. Uma palavra que não fosse “sim” ou “tudo bem”. Ou se me calasse a maioria daquelas que resultam em silêncio, vazio. Se pudesse articular meus braços. Mas o tempo pára e a maior agitação vem de um coração, da taquicardia, da falta de ar. Eu daria um milhão, trilhões para ficar sozinha. E bem. E respirar o ar leve de quem vai sem esperar respostas. De quem não precisa se odiar demais ou se policiar tanto por não saber ser algo além. Quando ser quem se é já é muita coisa.”

- Mary…

-Ah… ah-s…Oi.

-“Ah-sim”, era isso que esperava.

-Eu sempre digo isso, é irritante. Atropelo e corto frases mais longas. Falo porque perco o ar por alguns segundos, porque não consigo controlar uma junção de palavras mais inteligentes. Falo porque estou perdida e não sei pensar de outro jeito, criar outro jeito por segurança. Então exponho a peça mais frágil e perene ao ar oxidante. Não sei cobri-la com cuidado, não sei qual material poderia mantê-la. Exponho-lhe até o sumo, pois não sei como poderia guardar eu mesma sem deixar de me perceber.

- Se era o que esperava, era o que eu precisava. Hoje tu me falaste mais que vários meses, é verdade. Mas me contento com essas gotas de palavras, em que seus olhos… ”Ah-sim”… na simplicidade entregam tudo.

-Acorde- falou em voz mais alta que gostaria. Falaria “Ah, sim” novamente, muitas vezes, sem resposta. Pois esse diálogo não passava de um sonho, um desejo. De muitas palavras que não chegariam a tornarem-se :voz.

Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags: , ,
11/01/2009 - 22:09

“Viva la Vida”

“… Eu não tinha lhe dito isto antes porque tinha vergonha. Mas a verdade é que vi demais e seria um cafajeste se te visse se quebrar assim sem razão. E eu te amo. Você foi uma luz quando eu tinha cinco anos, com tua cabecinha careca e com as multicores que não eram permitidas a mim. Mas que eu adorava. Sempre adorei a força do roxo no branco, dava-me liberdade. Era um lilás a tornar-se. Era eu a tornar-me, mas eu não sabia. Não sabia que deveria avançar tanto para tocar cores sem ter medo. Como se ele um dia fosse desaparecer…”

Luna acertou os lápis na frente de sua mesa, pediu que Luís parasse de mexê-las como soldados. Ele parara, cansara de gritar e falar coisas como morte e desaparecimento. Sentara na cadeira e fazia ursinhos com massinha, como qualquer criança. Inclinava os pés para cima e observava o peso dentre o ar. Entortava o nariz quando o ursinho deformava e lhe abraçava na junção dos polegares, contando uma historinha no pensamento.

- Tia, tia! Você não faz mais massinha!Faz? Faz? Faz? Tia é o soldado que lhe manda Tiaaaaaaaa! Sabia que sabia que os ursos têm muitas cores, eu gosto do branco porque ele nunca se suja…e não deve levar bronca- E gritava, rindo de faz-de-conta, para se concentrar em outra cor de massinha…escarlate…em segundos depois.

“… Quando você se pintava de rosa, a boca, as pálpebras era quase uma indecência de cores. Brilhava a meia noite, com gliters em redor o corpo e chorava sempre. Chorava sempre ao voltar, com o telefone em mãos. E esperava e esperava. Riscava os dias. Ficava sem comer carne ou sem falar os nomes das pessoas por duas semanas, esperando o telefonema. Pulava de um pé só até a rua. E passava,… Enchia-se de mais gliters furta cores em outras noites e saía, eu gritava com voz grave: “Menina desregrada! Pai vai saber!”Mas eu sabia que você tinha ido, depois de toda sua concentração usual em traços, em palavras, em gestos para aquela noite…”

- Sabe que na lua há branco. Branco cinza. E esverdeado nas pedras, aquele esverdeado grudento. Ui!!! hihih Você diz ui para as lesmas….Ui ui ui!!! Tia tia, se foi e se foi aquele cachorrinho né. Ele era marrom também e branco. Branco como a luz, quando está com frio!!!

“… O branco reluz na Luz Negra. Porque os opostos se seduzem, nunca se encontram realmente, mas adoram a imagem de si mesmos ao contrário. Uma hora cansa. O que olham não lhes ajuda, não lhes apóia. Os amigos não concordam e olhar para ele é perceber um ser que lhe envergonha. Ele/ela te beija, muda uma coisa ou outra em puro desespero. Tu dizes que não conseguiria amar alguém que tem vergonha de si mesmo, alguém volúvel. Mas tu sabes que, se a situação fosse igual como no começo, mas materializada, tu arranjaria outro modo de afastá-lo. Porque opostos divertem, mas não lhe servem como apoio…”

-Tia, tenho namorada. Ela é a mais inteligente e bonita da escola. Como eu. ‘Agente’ vai ser biólogo e ela vai cuidar dos pingüins e eu vou abrir eles para estudar. Daí daí ela vai cuidar dos filhotes enquanto eu caço mais pingüins.

 

“… Tinha gliters em todo quarto, sempre tinha. Eu saboreava pintar meu rosto com cores fortes e jogá-los umas três vezes nas bochechas. E é óbvio que meu pai me bateu muitas vezes, quando pequeno, mas depois aprendi a me colorir com discrição. Fazia design, era pintor. Era o que dizia, enquanto ele entrava no quarto com todos meus lápis de cor fielmente alinhados. Ele me odiava, eu sabia. Seria bonito se dissesse: meu filho morreu na guerra; meu filho é médico, engenheiro; meu filho morreu, porque aberração desaparece. Mas não ser uma coisa ou outra lhe irritava, minha presença gerava dúvidas e cochichos. Nada poderia fazer para uma verdade total, ele também não sabia como esclarecer tudo sem se afundar…”

-Tia, o que você está lendo pode criança lê? Tia tia, que é escarlate? Que é que é?

-Para piá, para Pedro, para! Larga esses lápis, larga a cola colorida. Larga larga. Ei olhe lá, teu pai ta chegando. Ei, olha lá a cola colorida, teu pai ta chegando!

“… Tudo que continha cores não era você. Era a maior injustiça. Suas cores infestavam seu quarto, tu tinhas tudo que não queria. Vestia-se em azul escuro e rosa claro. Pintava as mãos em notas de diversos tons. E tu nem sabia os nomes. Como eu tinha ódio, tu nem sabia os nomes. Eu aprendia só de olhar os nomes e a combinação de tonalidades. Tonalidades jogadas de lado por suas fases de preto, de rosa, de azul pálido e, por fim, de branco. Tudo branco, fronhas de cama e pijaminhas de bebês. Tudo jogado fora, todos os gliters e brilhantes. Quando, por fim, tive que fazer engenharia tive raiva. Eu lhe amo e te odiava. Tu se cercava das cores para te amarem e eu fugia de todas elas que me alegravam, que curavam minha insônia, que coloririam meu corpo oco para a tranqüilidade de outrem também.

Qual era seu problema? Qual era o meu? Qual qual amor, qual Luna? Diga o que fizemos Luna…diga se não bastasse sermos nós mesmos, chorar, declararmos ?Diga que tipo de amor é esse que espera que nos recolhamos, criemos dúvidas para maior atração? Que tipo de aceitação é essa que espera que nos entreguemos…que espera que sejamos tudo aquilo que somos…para perder o interesse? Para fugir, desconcertados?

Olhe, que cor é essa irmã? Essa é minha, tu és branco. Essas são minhas e fico com elas, sorrindo agora, só que me restam. Recebi suas flores, não sentia mais cheiro durante muito tempo. Sei que morrerei sozinho Luna, meu pai se foi. Como ele diz. Eu morrerei sozinho Luna, mas eu nunca me cortei, aparei-me por muito tempo para que me amassem como você. Se é pouco? Parece muito pouco, mas é tudo que sou irmã. Então é muito, porque eu sempre serei tudo para mim…”

Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags: , ,
02/01/2009 - 22:14

A única saída

Mariana abotoou o último berloque de sua camisa e era lindo. Um coração metálico circundado por mini cobras negras. Ela mesma tinha costurado, numa blusa branca com seus originais botões brancos e esperados. Bem comportados. E, como dizia sua mãe, bem alinhados para o dia a dia de uma mocinha. Mas não, ela não era uma mocinha. Se ela soubesse quem era, eu te diria que caminhava com tamanho orgulho entre as praças, onde xingavam seu nome. Mas ela não sabia, enquanto apertava o botão escarlate ou qualquer coisa que lhe fizesse destoar da padronização temerosa, seu corpo todo tremia. Vibrava em medo de pequenas coisas, como abrir o portão ou entregar a chave para o porteiro. Não sabia quanto olhar para uma pessoa ou quanto pagar no estacionamento. Tinha medo de todas as formalidades do cotidiano porque não via direito quem era, apostando em objetos e coisas para mostrar-se.  Como o coração metálico desta manhã.

Ás vezes a brisa fina lhe assustava. Ela parava no meio da rua e declamava seus xingamentos mais densos. Mais profundos. Como um poema, quem lhe visse de longe – uma menina morena e pequena, com rosto fino e mãos facilmente quebráveis- acreditaria estar recitando uma declaração de amor. Os outros, que tinham o desconforto de ouvir, afastavam-se com nojo. E um nojo crescente e denso crescia, olhavam-na a partir deste momento como um exemplar a ser alertado. Decorariam seus corações metálicos e seus símbolos como avisos de uma geração que quebrava por alegria e destoavam os alinhamentos de mocinhas e cavalheiros. E ela fingia que ria, maltratava um ou outro, chorava. Porém, caminhava sem nenhum triunfo, esperando que seu amor pelo que não existe finalmente lhe sugasse.

A ninguém é negado o Amor. Como a tristeza. Não sei bem por que, como ela. Mas acredito que certas coisas seriam bizarras além de bizarras se não fossem tocadas pelo dom da paixão. Como o susto e indignação quando o cachorrinho de uma trama de terror humano também morre, choramos nos filmes, porque sabemos que tudo deveria ser tocado pela graça. Até nos vilões, o toque de graça. A possível salvação. Entretanto, se a todos é permitido amar, não seriam aqueles amores de dor profunda e incidida numa luz baseada na autopiedade e apoio. Esses seriam básicos, correspondendo não ao domínio da graça, mas dos erros e aspirações humanas. Este Amor não era uma brisa quente no verão, não era um aperto de mão diante o medo da tempestade. Não eram as borboletas voando, nem o grito fino de um passarinho.

Esse Amor encontrava brecha e oportunidade em algum ponto básico e fertilizador da personalidade das pessoas. Por isso, não era salvador ou decisivo. E por isso, era uma das únicas coisas realmente inerentes na sociologia. Não vou lhe dizer que era um presente, apesar de ter falado leigamente da graça. Era o que era até o fim, pois era o pó que vieste, o sangue frio da primeira visita a terra. Era sim o aperto de mão, os passarinhos, as brisas… Mas era, além disso, o modo distante e forte das coisas que existem sem serem provadas ou cobradas. Mas que impregnam a criação das coisas, que incidem como luz pura queimando tudo,… O doce queimar, da própria conexão entre as coisas. Vivas e não vivas.

 

O botão escarlate refletia na garagem cinza e úmida. As luzes entravam docemente e misteriosamente, como uma caverna. Mariana sorria ao perceber que a natureza era parte não só da vivência do homem, como em suas projeções. Refletia e refletia em carros espelhados, em que ela passava a mão tremendo por momentos. Não olhava para as mãos das pessoas quando falavam com ela, não olhava para seus rostos. Tremia e fingia toda hora que tinha coisas mais interessantes ao longe, onde apertava a mente para não xingar em eco no estacionamento.

Segurou na ponta do vestido, bateu e olhou bem para o homem. Estranhamente, este não alterara seu tom de voz e muito menos o caminho da conversa. Poderia amá-lo ou não. Decidiria isso àquela tarde, mesmo não tendo formulado de modo racional tal contestação. Comportava-se e pensava superficialmente em seus encantos, enquanto o subconsciente tratava de criar teias de culpas, situações platônicas e choros a meia noite. Era um amor de ave de voz fina no lago ou de brisas fortes e quentes.

Seu olhar distante e a parada de sua mente foram o primeiro aviso. A primeira brecha que o Amor inerente achara. Seus músculos estavam todos estáveis e seu organismo trabalhara como nunca em força e esperança. Não porque ela se esforçara por isso e não porque precisara, mas como provisão natural de todos os seres humanos. Quando o homem retirou-se um pouco de sua frente, o Amor inerente pode agir, nas patas velozes e nos dentes afiados de um cachorro raivoso ao fundo. E ela pode ver sua força na direção e sua fome determinante por partes humanas. Ou qualquer carne interessante o bastante para ser engolida, num estômago com fome. O Amor inerente agira bem, o homem a puxara para longe com força e com toda a sensação de amor e segurança importantes só para ele. O Amor poderia destoar-se agora, sem coisas ou objetos, poderia mostrar-se em toda sua graça.

Porque Mariana firmara a perna e largara do homem sem um pingo de agradecimento. Colocara-se a frente das garras e do porte geneticamente modificado para o terror, estendendo à frágil e branca mão em sua direção. Assim, ninguém respirava e ninguém falava mais que suas gargantas secas poderiam agüentar. Mariana pegara na garganta do cão – como só o bravo Amor pode disciplinar – e conversava com uma voz inteiramente nova. Inteiramente sua, portanto. Alisava seu pêlo calmamente, como cantava como criança para os coelhos da casa. Cheiro de sangue, de leite e de alegria, quando os filhotes de coelho cresceram e pode pegá-los sem que a mãe coelha os devorasse. Lembrava de tudo isso e de uma alegria que cortava o coração em duas metades, que respingava em seus outros órgãos secos de doçura. Batia levemente no cão programado para matar e sorria. Sorria, com sua maior arma. Ela mesma.

E quando lhe abordaram quase a espancando de nervoso, de medo e de vergonha, ela respondeu com voz forte… Voz de mãe em ninhada:

- De algum modo, – agora descubro – eu vivi minha vida pelo amor. Ele foi a força que me sustentava, a energia em que girava sozinha nas ruas de casa. Ele é minha força, minha arma. De algum modo, minha vida é determinada pelo fato que ele é minha maior esperança. Para mim, agora vejo, ele é o significado do mundo. Assim, quando o cão negro brilhante, com fome, veio em minha frente, eu só tinha um pensamento: Ou eu lhe curaria com o amor ou Preferiria morrer se, no final, o amor não fosse à única saída.

Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , ,
26/12/2008 - 22:00

Sobre o Amor e sua Unitilidade

Você pega um filhote em mãos, um ser que nem é de sua espécie. E ele é macio, morno em contato com sua pele. Todo seu corpo estira em seus braços, aninha-se em completa entrega. Segurança. E você sabe que é um dos maiores erros que ele poderia cometer, sabe que se fosse outra situação faria tudo para alertá-lo. Mas não, seu nariz lisinho, seus movimentos leves te seguem. Mal percebem que normalmente, tu és um predador voraz. E você sabe disso, com toda evolução predadora e necessária. E se pergunta, do que você tem medo?

Eu tenho medo do amor. Ele é sem motivo, inexplicável. Agora possuo um radar sensível dentro de mim. Meu coração pula quando lhes ouço ao longe, todo meu corpo hesita em imaginar suas ausências. Ouço o miado ao longe, sinto arrepio quando chove e estão encharcados. E isso é inútil.

É inútil para um ser que vive menos que eu. Possivelmente, milhas distante, morrerás antes de mim. E meu choro verdadeiro não será amparado, pois os prantos por essa espécie são considerados inúteis. Mas eu choro, eu amo, sinceramente não sei por que.

Eu sei por que. Esse é meu melhor preenchimento e eu sou fraca, frágil. Trago para meu coração um animal que poderia me arranjar doenças. Doenças. Doenças. Pestes. Compras. Vazio. Caminhar. Cansaço. Força. Vontade.

Doenças e medo que não seriam suportados

Sem o Amor.

 

Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , ,
19/12/2008 - 19:59

Um sim, como vela e penumbra

- Eu não sou um bichinho. Tu não podes circundar-me de coisas agradáveis e bobas. Não sou seu círculo de paz, que lhe resgatará energias no finalzinho do dia. Deixe-me levantar a mão para isso agora. Veja, estou pedindo, mas não precisava. Tu encaminhas para seus locais prediletos, para sua instituição de amizade construída no silencio e na superioridade. Não sei o que isso, não compactuo com a exclusividade. Com a relevância procedente do elitismo. Veja bem, só meus ombros descobertos te atordoam. E sou uma só… Estou parada aqui, com uma criança que sabe menos meu nome que qualquer uma. E ela é minha. E eu sou daquilo que me criou e se foi, que não pergunta coisas e não me diz um caminho. Nunca ouvi tua voz, mas acredito que seu silêncio tanto em minhas coisas bobas como densas, certifica-me das possibilidades anônimas que sempre manti. De minha dominação silenciosa, de minha vitória esgueirada.

E ele dizia:

 

- O que você diz é essa ave voando levemente pelo ar. É leve, quase macia atravessando na superfície invisível.  Mal sabem que atrás dessa brancura penetrante… que me extasia. Tu, meu deus. Poucos sabem que esgueira os olhos levemente, como uma dança e prepara o bico para o ataque. Viramos os olhos, não gostamos de imaginar em coelhinhos brancos brigando…ou qualquer coisa que se relacione a filhotes e sangue…Mas tudo é sangue e leite, meu amor. E preto e preto como o para sempre. Sempre e mortal. Engraçado, tu dizes. A única coisa eterna é a morte, a mais engraçada delas. Porém, não sou humorista meu amor. Tenho lábios cerrados de terror e ignoro e ignoro, para não me encontrar facilmente com minha possibilidade de morte. Quando vejo os noticiais, tendo dar-lhes um motivo errado e uma distância para seus acidentes, suas tragédias. Quando tomo café penso nisso e quando, sem querer, uma gordura escorre por meus lábios, repito por ser sortudo da morte ter passado essa descontinuidade.

 

- E a criança. Ela não existe para ela mesma ainda. Não que não quisesse. Porém, enquanto por seu nome respondermos, será apenas um ser que cresce para formar suas próprias memórias. Tomara que dê tempo. Tempo o bastante para perceber-se como humano e rápido o bastante para não perceber a dor dessa existência. E dói, dói quando ela prende os olhinhos em pequenas pedras, quando se encolhe com um estrondo. Tantos estrondos e enjôos de pedras, logo não perceberá nenhum dos dois. Será um ser bege e mecânico, andando num mundo não imutável e surpreendente. Queria não amá-La assim,como se pudesse levar uma parte de mim quando se machucasse. Mas a amo, mas não fui mãe suficiente para não trazê-la ao mundo. Para não planejar ter mais uma menina, menino, para este mundo. Poderia ter adotado, criado uma criança que já está infortunamente inserida. Mas não é fácil, não é. O sangue escorre todo mês e tu não vês à hora de se tornar um rosto, um coração com emoções.

 

Com batidas, leite e sonhos como eu. Como seu pai, que também choraria se pudesse fazer isso sem perder-se. Eu posso, eu choro e grito. Aceito. Digo sim tantas vezes. Pois consigo manter minhas partes em mim mesmo assim, consigo resguardar um pedacinho verdadeiro dentro de mim. Intocável. Mesmo se me batessem e eu dissesse que era merecida, minha flor iluminada piscaria dentro de mim… E voltaria nua e virgem como sempre. Pois meu sim não é mais forte, minha voz e meu medo não são mais fortes, do que me tornei.

 

Mas agora vou deixá-la dormir. Quando ele se foi, com todo aquele medo, joguei-me ao caixão em pequenos pedaços. Mas, se voltei é porque sempre voltaria. Forte, porque sempre me fui assim… Para mim mesma. Danço no ar como uma pena doce e delicada. Encontro os corpos como uma leve brisa, como lagarta colorida. Pico levemente, como beijo de amor. E levo a pessoa comigo, toda aquela energia estatelada ao chão, por um veneno imperceptível. Sou sua alergia a coisas inóspitas. E acordo, pego minha filha que é inútil amar, mas que, independente de mim, amo e carrego todo esse corpo macio. Digo sim, sorrio, mas fortaleço um não dentro de mim. Sempre vazias, sempre impenetráveis, aquelas palavras que saem de mim. Porém, sempre crescentes, minhas partes intocáveis e reluzentes.

“Rosana. São três..você sempre erra…são três, não dois. Como pode errar? Eu lhe disse e é óbvio, tudo decorativo é três e você é decoradora. Ligue-me depois e atenda as ligações. Ele ligou mesmo e pediu desculpas. Bem rápido, o pai estava atrás sussurrando, tenho certeza. A Laís aceitou, eu tenho raiva. Você sabe. Ligue-me quando ouvir, porque faz dois meses. Faz dois meses.Beijos e…beijos!”

 

- Eu estou aqui e não lhe respondo. Quero ter uma dúzia de recados quando ele chegar a casa, para dizer-lhe que não morri como o outro. Para dizer que falam comigo, mesmo ele não existindo. Para ele pensar, mesmo sendo só mulheres, que sou tão agradável…tão agradável que alguém possivelmente irá me indicar para alguém. Um alguém que sorrirá e fingirá não ter me encontrado para isso, mas que poderei dizer que fui eu que não gostei. Ele sorrirá, apertará a boca e dirá que já viu uma dúzia assim. Uma dúzia. E eu rirei, porque mesmo que ele esteja mentindo, pelo menos achará que sou de uma elite diferente da dele. Mas não há nada, só essa calma e essa certeza, que lhe direi “sim” e “possivelmente”, mas nunca serão minha total entrega. Ah, a Júlia… Júlia possivelmente ligará de novo, precisa que fale para sua filha não ter outro filho com quinze anos. Ela não quer conseguir falar e sempre sabe que digo Sim.

 

Só por fora, um grande e grave sim. Sim e sim, grito nos ecos dos estacionamentos vazios. Mas quanto maior esse Sim, quanto mais forte, quanto mais inflo meus pulmões para gritá-lo com meu maior fôlego possível. Quanto mais meus músculos da pelve distendem e hesitam na amplitude de minhas falanges. Quanto mais isso atinge como uma luz amarelada no meio e angelical, nevoada, nas pontas… Maior é essa escuridão intocável, grande e profunda é essa sombra. Para sempre minha, densa, negra e impossível integridade dentro de mim. Acendam a vela, machuquem o olhar com tamanha luminosidade e percebam a acumulação também de sua penumbra.

 

 

 

Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , ,
28/11/2008 - 12:54

5_2008

dia 28                                  13 e pouco oh 14

Canso-me rapidamente de ter filhos ao vê-los correrem pelas cadeiras da paróquia. E as meninas, que apenas consigo ver gravidezes, choros e abandono. Ter menina me dói, assim que nasceste minha primeira filha e Sarah disse-me que o útero não agüentaria mais, sorri de alívio. Ela não viu, abraçava sua menina como se finalmente tivesse achado algo que lembrasse sua casa. Era deveras ridículo. Agora se sentiria pertencente a outra coisa então? Eu dizia, em tom de brincadeira, tem filhos mulher!Tem filhos! Mas nada lhe fazia ser menos enjoativa. Decorava as faculdades, decorava seus cadernos e empilhava livros…livros que nunca tinha tido capacidade ou interesse de ler. E eu dizia, “ponha uma boneca e um kit de maquiagem se quer ela feliz.” Ela sorria a contragosto. “Parece que se odeia mulher, não era isso que tu gostava?”

 

“Tu nunca soube o que eu gostava”, tiro na escuridão, fez virar-me com olhos receosos, como alguém que precisa pegar nas rédeas do cavalo rapidamente, antes este saiba que é controlado. “O que disse amor? Oh amor, é uma menina…é uma menina…Vais crescer e ser o que se é. Tem filhos de monte, não acha que odiarão a menina assim? Tem filhos e um marido, cuidamos de você. Eu cuido da menina, tu cuida….não sei por quê a maior preocupação.”

 

“Ela não chora Sr, Ela só sorri…e deita no chão, balança as mãozinhas. Nunca chora. As mães vem aqui e me exaltam, falam que sei métodos de bons costumes,..dizem que sou mãe completa. Eu sorrio, enquanto tremem de inveja da serenidade da menina.”

 

“Oh, claro! Mas que carinha é essa amor? Que carinha? A menina é doce, saudável, não faz desfeita…não não, ela seguirá as palavras. Seguirá o que é bom para se agüentar nesse mundo…”

 

“Ela…olhe …sim, olhe. Ela te lembra quem Sr ?”

 

“Alguém? Claro, nós…somos pais dela meu amor…sim, meu amor. Não tenho desconfiança, muito menos ela é menos bonita que tu. Tem meus olhos, é nossa…Não vê, é uma menina, mas é nossa. Ah e parece você…”

 

“Sim Osvaldo, ela me parece”

 

“Não vejo ainda o sorriso! Ela é doce, bem comportada, bonita. Parece você, com certeza.”

 

“Sim, me parece…E olha o que me tornei…”

 

Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags: , ,
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