Eu sempre tive consciência que a Beleza é algo que tira o fôlego facilmente. Quando digo Beleza, digo aquela incontestável, aquela que, mesmo odiando dar tanta atenção, tu não pode deixar de segui-la. Todas as coisas, uma por uma, param por um segundo. Como uma flor bem aberta, mas mais durável. E com vasos mais que diferentes.

 

Foi assim que ela chegou. Com um casaquinho ciano e branco, em listras, revelando um pouco mais o verde fundo de seus olhos. E ela parou na caixa, com os cabelos levemente desarrumados, gritando um loiro que nem precisava ser tão natural. Ela sempre soube, desconfiava pelo canto do olho. Sabe que, mesmo ao sorrir, aquilo poderia ser considerado pretensão. Indiscrição. Então sorriu de leve, esperou a moça do caixa lentamente ajeitar suas coisas. Nem percebeu, de acostumada, essa última arrumar com desdém. Com puro desdém, de uma raiva profunda por ela mesma. Pela biologia. Pelos seus cabelos negros demais, por sua boca levemente torta e seus olhos castanhos usuais. Dóia-lhe na boca do estômago e cada gesto da beleza loira era quase uma provocação silenciosa.

 

Foi assim então. Também de canto de olho, a moça do caixa avistou uma criança gritando irritada. Era loira também, com o fundo dos olhos verdes demais para passarem despercebidos. Verde – esmeralda. Face rosada, mesmo aos gritos. E, por um segundo, todos os olhos concentravam-se na criança. Por um segundo, a única importância daquela tarde eram suas mãozinhas gordinhas pelo ar. Pelo ar, passando nas mesas. Nos móveis, com gritos agudos demais para calma. Mas tudo estava sereno, o fluxo cardíaco da moça do caixa se harmonizara. Com um leve e novo sorriso, essa pegava na mão da criança. Com essa leveza, todos da fila concentravam-se em suas bochechas rosadas. Na pretensão que virassem gargalhas explodindo no ar, em vez de gritos desesperadores.

 

Foi assim. Foi assim que vi suas gargalhadas explodindo delicadamente no ar, como bolhas de sabão. Puras, leves e rápidas. Uma coceira gostosa incomodava nos braços, no estômago cada vez que a criança abria um sorriso. As mãos precisavam tocá-La, fazê-La rir. E qualquer um que passasse sentia essa ligação não só com uma criança rosada, mas entre todas as pessoas. Em suas ânsias de agradá-La.

 

Sem querer, como tudo que é verdadeiro, a criança tinha criado um elo entre todas elas. Por um momento, não importavam-se se o rosto, se as jóias, se o jeito de uma ou outra era melhor. Não importavam-se se alguém parecia melhor, se existia alguma ameaça. Naquele segundo, o importante era alegria pura das coisas que transcendem normas sociais, mas que estão no crescimento resplandecente da vida. E essa criança era assim, uma conexão entre todas as camadas que, se antes inseguras e hesitantes, agora ligavam-se em celebração da vida.

 

Foi assim? Sim. Foi assim que percebi que.

Percebi que, se continuo como sou. Ou se busco essa vontade boba nos outros. É porque também gostaria de trazer essa conexão, essa alegria radiante, entre as pessoas.