Eu me lembro de um sonho que tive. Todos meus amigos, de algum modo eram aquilo que eu não imaginava. Eram multicores. Dançavam na minha janela como balões e voavam com a mesma leveza.
E, enquanto eu olhava eles partirem-se no ar revolto, milhares de purpurinas despejavam-se no céu. Encostavam-se a meu corpo que era feito de ar, que era feito das pesadas massas frias que lhes tinham destruído. Mas a gargalhada gostosa deles coçava em minha nuca, passava pelos meus braços e cutucava minha barriga. E eu rolava de rir como um ar revolto, subindo e subindo livremente. Esquentando, expandindo. E as risadas causavam feridas coloridas em minha pele, cada uma com um rosto.
Eu nunca tinha pensado em usar nada para ter esses sonhos. Eu era assim, nunca colorida artificialmente. Nunca sobrecarregada de conservantes especiais. Era a cor desse vento, da cor de todos os mares. E da brisa salgada da manhã. Mesmo se passasse mil dias debaixo de água doce, nada e nem ninguém tiraria minha incrível capacidade de cobrir-me da esfoliação do mais grosso sal. E, ao mesmo tempo, em dias bons e exagerados: Eu subia, subia e subia deixando aquela substância magnífica, mas não tão elástica e dinâmica como eu. Mesmo se eu me perdesse em alguns braços, nunca seriam como aquela única inspiração expansível.
Um dia, eu parei de subir tanto. De algum modo, o excesso de óleo me tinha sugado. E eu não subia mais por tanto tempo. Esparramava-me por vários metros, mas nunca agregava qualquer outro ser sem o desespero do mesmo.
Foi quando eu resolvi que seria assim. Eu iria acordar e eu iria viver.
Acordar sem analogias, acordar de bons ou maus sonhos. Simplesmente. E viver sem penduricalhos, respirar e respirar procurando a total satisfação depois de cada fôlego. Eu decidi isso porque deveria. Sempre foi assim, por necessidade. Então acordei desses maus e estonteantes sonhos. Então acordei sozinha e caminhei por vários quilômetros. Eu tive medo. Eu tive uma terrível ausência da segurança de planos. Não coloquei qualquer coisa em pedestal. Viver alcançava um topo intransponível. Um topo não destronável. Caminhava entre suas pedras, entre as minhas, entre as de ninguém. Sentia um gosto de enjôo, de vergonha e de ansiosidade na boca. Bem no fundo. No fracasso, no abandono. Na dor das pernas, da coluna e do estômago abandonado ou sobrecarregado. Na gordura, no excesso de magreza. Na virtude, nas falas cochichadas. E foi assim, resumidamente. Eu acordava e vivia, dias únicos e não repetitivos. Numa vida única e não “repetível”.
E desde então, não flutuo ou besunto. Desde então caminho livremente.
Como uma substância não classificável.

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