24/02/2009 - 09:10
Eu me lembro de um sonho que tive. Todos meus amigos, de algum modo eram aquilo que eu não imaginava. Eram multicores. Dançavam na minha janela como balões e voavam com a mesma leveza.
E, enquanto eu olhava eles partirem-se no ar revolto, milhares de purpurinas despejavam-se no céu. Encostavam-se a meu corpo que era feito de ar, que era feito das pesadas massas frias que lhes tinham destruído. Mas a gargalhada gostosa deles coçava em minha nuca, passava pelos meus braços e cutucava minha barriga. E eu rolava de rir como um ar revolto, subindo e subindo livremente. Esquentando, expandindo. E as risadas causavam feridas coloridas em minha pele, cada uma com um rosto.
Eu nunca tinha pensado em usar nada para ter esses sonhos. Eu era assim, nunca colorida artificialmente. Nunca sobrecarregada de conservantes especiais. Era a cor desse vento, da cor de todos os mares. E da brisa salgada da manhã. Mesmo se passasse mil dias debaixo de água doce, nada e nem ninguém tiraria minha incrível capacidade de cobrir-me da esfoliação do mais grosso sal. E, ao mesmo tempo, em dias bons e exagerados: Eu subia, subia e subia deixando aquela substância magnífica, mas não tão elástica e dinâmica como eu. Mesmo se eu me perdesse em alguns braços, nunca seriam como aquela única inspiração expansível.
Um dia, eu parei de subir tanto. De algum modo, o excesso de óleo me tinha sugado. E eu não subia mais por tanto tempo. Esparramava-me por vários metros, mas nunca agregava qualquer outro ser sem o desespero do mesmo.
Foi quando eu resolvi que seria assim. Eu iria acordar e eu iria viver.
Acordar sem analogias, acordar de bons ou maus sonhos. Simplesmente. E viver sem penduricalhos, respirar e respirar procurando a total satisfação depois de cada fôlego. Eu decidi isso porque deveria. Sempre foi assim, por necessidade. Então acordei desses maus e estonteantes sonhos. Então acordei sozinha e caminhei por vários quilômetros. Eu tive medo. Eu tive uma terrível ausência da segurança de planos. Não coloquei qualquer coisa em pedestal. Viver alcançava um topo intransponível. Um topo não destronável. Caminhava entre suas pedras, entre as minhas, entre as de ninguém. Sentia um gosto de enjôo, de vergonha e de ansiosidade na boca. Bem no fundo. No fracasso, no abandono. Na dor das pernas, da coluna e do estômago abandonado ou sobrecarregado. Na gordura, no excesso de magreza. Na virtude, nas falas cochichadas. E foi assim, resumidamente. Eu acordava e vivia, dias únicos e não repetitivos. Numa vida única e não “repetível”.
E desde então, não flutuo ou besunto. Desde então caminho livremente.
Como uma substância não classificável.
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Tags: caminho, integridade, leveza, liberdade
11/02/2009 - 09:33
Sinta.Estipule um grau de tolerância. Faça muitas outras coisas e use o tempo. Use o tempo até que esse sentimento vá se diluindo no corpo dos dias. Até um dia que esse tempo ocupe mais espaço que a substância. Ela nunca sumirá. Mais sim dependerá da crença e da alta sensibilidade cotidiana às suas gotas homeopáticas de insegurança.
Encha uma xícara vazia de café quente. Ande pela sala. Passe tantas vezes o necessário em volta da mesa, para controlar as reações. Pare. Pense que isso é uma fantasia. Pense e ignore. Faça todas as coisas invisíveis que lhe fazem ser o que é. Faça-lhes novamente, mesmo sabendo que as mais bonitas delas nunca serão vistas. Convença-se que tu te divertes muito. Convença-se que o tempo passa rápido demais para morte. Perceba que é verdade e feche a pálpebra pesada e doída do dia.*
* “… Fogem… Fecha-se a pálpebra do dia…”- Raimundo Correia- Anoitecer
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Tags: lições, sentimentos, vida
11/02/2009 - 09:30
Minha menina arisca e mais sensível. Arrepiada em qualquer estrondo e entregue a qualquer toque.
Porque não existe ironia. E sim explicação de uma coisa em outra. Ação e reação.
Mas nesse caso, inversamente. É claro.
E dizem as mulheres:
- Malditos homens.
E o que dizem os homens?
- Malditas mulheres.
- Maldito mundo- dizem as pessoas.
- O que foi que eu fiz? Diz o mundo.
Quando alguém achar sua responsabilidade isso para.
‘Agite antes de usar’ ‘Manuseie com cuidado’ ‘Este lado para cima’
Tu podes entregar teu corpo ou teu coração com divertidas palavras de rótulos.
Porque eu nunca direi ‘eu te amo’ novamente. Palavra banal. ‘eu amo a Airlines’
Dizendo é como ‘bom dia’ e já estarei finita. Tenho medo do indescritível.
Então desconverso.
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Tags: amor, diálogo, vida
05/02/2009 - 13:00
“… Como eu poderia esperar sempre. Como poderia esperar agora, sentada aqui. Com meia dúzia de dúvidas a criar.”
- Faltam vírgulas e muitas exclamações. – ajeita as pernas mais uma vez, daria um milhão de reais a quem lhe ensinasse ficar parada.
-Oi?
-Ah, nada…
Nas mesmas folhas de antes, os mesmos rabiscos. Desenha uma flor grande, cada cor possui o valor da palavra que nunca diria.
-Vou indo.
-Ah sim…
-“Ah sim”- sorri e vai.
“Eu me pergunto se eu daria também um milhão de reais se conseguisse dizer uma palavra. Uma palavra que não fosse “sim” ou “tudo bem”. Ou se me calasse a maioria daquelas que resultam em silêncio, vazio. Se pudesse articular meus braços. Mas o tempo pára e a maior agitação vem de um coração, da taquicardia, da falta de ar. Eu daria um milhão, trilhões para ficar sozinha. E bem. E respirar o ar leve de quem vai sem esperar respostas. De quem não precisa se odiar demais ou se policiar tanto por não saber ser algo além. Quando ser quem se é já é muita coisa.”
- Mary…
-Ah… ah-s…Oi.
-“Ah-sim”, era isso que esperava.
-Eu sempre digo isso, é irritante. Atropelo e corto frases mais longas. Falo porque perco o ar por alguns segundos, porque não consigo controlar uma junção de palavras mais inteligentes. Falo porque estou perdida e não sei pensar de outro jeito, criar outro jeito por segurança. Então exponho a peça mais frágil e perene ao ar oxidante. Não sei cobri-la com cuidado, não sei qual material poderia mantê-la. Exponho-lhe até o sumo, pois não sei como poderia guardar eu mesma sem deixar de me perceber.
- Se era o que esperava, era o que eu precisava. Hoje tu me falaste mais que vários meses, é verdade. Mas me contento com essas gotas de palavras, em que seus olhos… ”Ah-sim”… na simplicidade entregam tudo.
-Acorde- falou em voz mais alta que gostaria. Falaria “Ah, sim” novamente, muitas vezes, sem resposta. Pois esse diálogo não passava de um sonho, um desejo. De muitas palavras que não chegariam a tornarem-se :voz.
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Tags: silêncio, sim, timidez