“… Eu não tinha lhe dito isto antes porque tinha vergonha. Mas a verdade é que vi demais e seria um cafajeste se te visse se quebrar assim sem razão. E eu te amo. Você foi uma luz quando eu tinha cinco anos, com tua cabecinha careca e com as multicores que não eram permitidas a mim. Mas que eu adorava. Sempre adorei a força do roxo no branco, dava-me liberdade. Era um lilás a tornar-se. Era eu a tornar-me, mas eu não sabia. Não sabia que deveria avançar tanto para tocar cores sem ter medo. Como se ele um dia fosse desaparecer…”

Luna acertou os lápis na frente de sua mesa, pediu que Luís parasse de mexê-las como soldados. Ele parara, cansara de gritar e falar coisas como morte e desaparecimento. Sentara na cadeira e fazia ursinhos com massinha, como qualquer criança. Inclinava os pés para cima e observava o peso dentre o ar. Entortava o nariz quando o ursinho deformava e lhe abraçava na junção dos polegares, contando uma historinha no pensamento.

- Tia, tia! Você não faz mais massinha!Faz? Faz? Faz? Tia é o soldado que lhe manda Tiaaaaaaaa! Sabia que sabia que os ursos têm muitas cores, eu gosto do branco porque ele nunca se suja…e não deve levar bronca- E gritava, rindo de faz-de-conta, para se concentrar em outra cor de massinha…escarlate…em segundos depois.

“… Quando você se pintava de rosa, a boca, as pálpebras era quase uma indecência de cores. Brilhava a meia noite, com gliters em redor o corpo e chorava sempre. Chorava sempre ao voltar, com o telefone em mãos. E esperava e esperava. Riscava os dias. Ficava sem comer carne ou sem falar os nomes das pessoas por duas semanas, esperando o telefonema. Pulava de um pé só até a rua. E passava,… Enchia-se de mais gliters furta cores em outras noites e saía, eu gritava com voz grave: “Menina desregrada! Pai vai saber!”Mas eu sabia que você tinha ido, depois de toda sua concentração usual em traços, em palavras, em gestos para aquela noite…”

- Sabe que na lua há branco. Branco cinza. E esverdeado nas pedras, aquele esverdeado grudento. Ui!!! hihih Você diz ui para as lesmas….Ui ui ui!!! Tia tia, se foi e se foi aquele cachorrinho né. Ele era marrom também e branco. Branco como a luz, quando está com frio!!!

“… O branco reluz na Luz Negra. Porque os opostos se seduzem, nunca se encontram realmente, mas adoram a imagem de si mesmos ao contrário. Uma hora cansa. O que olham não lhes ajuda, não lhes apóia. Os amigos não concordam e olhar para ele é perceber um ser que lhe envergonha. Ele/ela te beija, muda uma coisa ou outra em puro desespero. Tu dizes que não conseguiria amar alguém que tem vergonha de si mesmo, alguém volúvel. Mas tu sabes que, se a situação fosse igual como no começo, mas materializada, tu arranjaria outro modo de afastá-lo. Porque opostos divertem, mas não lhe servem como apoio…”

-Tia, tenho namorada. Ela é a mais inteligente e bonita da escola. Como eu. ‘Agente’ vai ser biólogo e ela vai cuidar dos pingüins e eu vou abrir eles para estudar. Daí daí ela vai cuidar dos filhotes enquanto eu caço mais pingüins.

 

“… Tinha gliters em todo quarto, sempre tinha. Eu saboreava pintar meu rosto com cores fortes e jogá-los umas três vezes nas bochechas. E é óbvio que meu pai me bateu muitas vezes, quando pequeno, mas depois aprendi a me colorir com discrição. Fazia design, era pintor. Era o que dizia, enquanto ele entrava no quarto com todos meus lápis de cor fielmente alinhados. Ele me odiava, eu sabia. Seria bonito se dissesse: meu filho morreu na guerra; meu filho é médico, engenheiro; meu filho morreu, porque aberração desaparece. Mas não ser uma coisa ou outra lhe irritava, minha presença gerava dúvidas e cochichos. Nada poderia fazer para uma verdade total, ele também não sabia como esclarecer tudo sem se afundar…”

-Tia, o que você está lendo pode criança lê? Tia tia, que é escarlate? Que é que é?

-Para piá, para Pedro, para! Larga esses lápis, larga a cola colorida. Larga larga. Ei olhe lá, teu pai ta chegando. Ei, olha lá a cola colorida, teu pai ta chegando!

“… Tudo que continha cores não era você. Era a maior injustiça. Suas cores infestavam seu quarto, tu tinhas tudo que não queria. Vestia-se em azul escuro e rosa claro. Pintava as mãos em notas de diversos tons. E tu nem sabia os nomes. Como eu tinha ódio, tu nem sabia os nomes. Eu aprendia só de olhar os nomes e a combinação de tonalidades. Tonalidades jogadas de lado por suas fases de preto, de rosa, de azul pálido e, por fim, de branco. Tudo branco, fronhas de cama e pijaminhas de bebês. Tudo jogado fora, todos os gliters e brilhantes. Quando, por fim, tive que fazer engenharia tive raiva. Eu lhe amo e te odiava. Tu se cercava das cores para te amarem e eu fugia de todas elas que me alegravam, que curavam minha insônia, que coloririam meu corpo oco para a tranqüilidade de outrem também.

Qual era seu problema? Qual era o meu? Qual qual amor, qual Luna? Diga o que fizemos Luna…diga se não bastasse sermos nós mesmos, chorar, declararmos ?Diga que tipo de amor é esse que espera que nos recolhamos, criemos dúvidas para maior atração? Que tipo de aceitação é essa que espera que nos entreguemos…que espera que sejamos tudo aquilo que somos…para perder o interesse? Para fugir, desconcertados?

Olhe, que cor é essa irmã? Essa é minha, tu és branco. Essas são minhas e fico com elas, sorrindo agora, só que me restam. Recebi suas flores, não sentia mais cheiro durante muito tempo. Sei que morrerei sozinho Luna, meu pai se foi. Como ele diz. Eu morrerei sozinho Luna, mas eu nunca me cortei, aparei-me por muito tempo para que me amassem como você. Se é pouco? Parece muito pouco, mas é tudo que sou irmã. Então é muito, porque eu sempre serei tudo para mim…”