Mariana abotoou o último berloque de sua camisa e era lindo. Um coração metálico circundado por mini cobras negras. Ela mesma tinha costurado, numa blusa branca com seus originais botões brancos e esperados. Bem comportados. E, como dizia sua mãe, bem alinhados para o dia a dia de uma mocinha. Mas não, ela não era uma mocinha. Se ela soubesse quem era, eu te diria que caminhava com tamanho orgulho entre as praças, onde xingavam seu nome. Mas ela não sabia, enquanto apertava o botão escarlate ou qualquer coisa que lhe fizesse destoar da padronização temerosa, seu corpo todo tremia. Vibrava em medo de pequenas coisas, como abrir o portão ou entregar a chave para o porteiro. Não sabia quanto olhar para uma pessoa ou quanto pagar no estacionamento. Tinha medo de todas as formalidades do cotidiano porque não via direito quem era, apostando em objetos e coisas para mostrar-se. Como o coração metálico desta manhã.
Ás vezes a brisa fina lhe assustava. Ela parava no meio da rua e declamava seus xingamentos mais densos. Mais profundos. Como um poema, quem lhe visse de longe – uma menina morena e pequena, com rosto fino e mãos facilmente quebráveis- acreditaria estar recitando uma declaração de amor. Os outros, que tinham o desconforto de ouvir, afastavam-se com nojo. E um nojo crescente e denso crescia, olhavam-na a partir deste momento como um exemplar a ser alertado. Decorariam seus corações metálicos e seus símbolos como avisos de uma geração que quebrava por alegria e destoavam os alinhamentos de mocinhas e cavalheiros. E ela fingia que ria, maltratava um ou outro, chorava. Porém, caminhava sem nenhum triunfo, esperando que seu amor pelo que não existe finalmente lhe sugasse.
A ninguém é negado o Amor. Como a tristeza. Não sei bem por que, como ela. Mas acredito que certas coisas seriam bizarras além de bizarras se não fossem tocadas pelo dom da paixão. Como o susto e indignação quando o cachorrinho de uma trama de terror humano também morre, choramos nos filmes, porque sabemos que tudo deveria ser tocado pela graça. Até nos vilões, o toque de graça. A possível salvação. Entretanto, se a todos é permitido amar, não seriam aqueles amores de dor profunda e incidida numa luz baseada na autopiedade e apoio. Esses seriam básicos, correspondendo não ao domínio da graça, mas dos erros e aspirações humanas. Este Amor não era uma brisa quente no verão, não era um aperto de mão diante o medo da tempestade. Não eram as borboletas voando, nem o grito fino de um passarinho.
Esse Amor encontrava brecha e oportunidade em algum ponto básico e fertilizador da personalidade das pessoas. Por isso, não era salvador ou decisivo. E por isso, era uma das únicas coisas realmente inerentes na sociologia. Não vou lhe dizer que era um presente, apesar de ter falado leigamente da graça. Era o que era até o fim, pois era o pó que vieste, o sangue frio da primeira visita a terra. Era sim o aperto de mão, os passarinhos, as brisas… Mas era, além disso, o modo distante e forte das coisas que existem sem serem provadas ou cobradas. Mas que impregnam a criação das coisas, que incidem como luz pura queimando tudo,… O doce queimar, da própria conexão entre as coisas. Vivas e não vivas.
O botão escarlate refletia na garagem cinza e úmida. As luzes entravam docemente e misteriosamente, como uma caverna. Mariana sorria ao perceber que a natureza era parte não só da vivência do homem, como em suas projeções. Refletia e refletia em carros espelhados, em que ela passava a mão tremendo por momentos. Não olhava para as mãos das pessoas quando falavam com ela, não olhava para seus rostos. Tremia e fingia toda hora que tinha coisas mais interessantes ao longe, onde apertava a mente para não xingar em eco no estacionamento.
Segurou na ponta do vestido, bateu e olhou bem para o homem. Estranhamente, este não alterara seu tom de voz e muito menos o caminho da conversa. Poderia amá-lo ou não. Decidiria isso àquela tarde, mesmo não tendo formulado de modo racional tal contestação. Comportava-se e pensava superficialmente em seus encantos, enquanto o subconsciente tratava de criar teias de culpas, situações platônicas e choros a meia noite. Era um amor de ave de voz fina no lago ou de brisas fortes e quentes.
Seu olhar distante e a parada de sua mente foram o primeiro aviso. A primeira brecha que o Amor inerente achara. Seus músculos estavam todos estáveis e seu organismo trabalhara como nunca em força e esperança. Não porque ela se esforçara por isso e não porque precisara, mas como provisão natural de todos os seres humanos. Quando o homem retirou-se um pouco de sua frente, o Amor inerente pode agir, nas patas velozes e nos dentes afiados de um cachorro raivoso ao fundo. E ela pode ver sua força na direção e sua fome determinante por partes humanas. Ou qualquer carne interessante o bastante para ser engolida, num estômago com fome. O Amor inerente agira bem, o homem a puxara para longe com força e com toda a sensação de amor e segurança importantes só para ele. O Amor poderia destoar-se agora, sem coisas ou objetos, poderia mostrar-se em toda sua graça.
Porque Mariana firmara a perna e largara do homem sem um pingo de agradecimento. Colocara-se a frente das garras e do porte geneticamente modificado para o terror, estendendo à frágil e branca mão em sua direção. Assim, ninguém respirava e ninguém falava mais que suas gargantas secas poderiam agüentar. Mariana pegara na garganta do cão – como só o bravo Amor pode disciplinar – e conversava com uma voz inteiramente nova. Inteiramente sua, portanto. Alisava seu pêlo calmamente, como cantava como criança para os coelhos da casa. Cheiro de sangue, de leite e de alegria, quando os filhotes de coelho cresceram e pode pegá-los sem que a mãe coelha os devorasse. Lembrava de tudo isso e de uma alegria que cortava o coração em duas metades, que respingava em seus outros órgãos secos de doçura. Batia levemente no cão programado para matar e sorria. Sorria, com sua maior arma. Ela mesma.
E quando lhe abordaram quase a espancando de nervoso, de medo e de vergonha, ela respondeu com voz forte… Voz de mãe em ninhada:
- De algum modo, – agora descubro – eu vivi minha vida pelo amor. Ele foi a força que me sustentava, a energia em que girava sozinha nas ruas de casa. Ele é minha força, minha arma. De algum modo, minha vida é determinada pelo fato que ele é minha maior esperança. Para mim, agora vejo, ele é o significado do mundo. Assim, quando o cão negro brilhante, com fome, veio em minha frente, eu só tinha um pensamento: Ou eu lhe curaria com o amor ou Preferiria morrer se, no final, o amor não fosse à única saída.

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