2_2008
23 e poucos…dia 23
Sinto que a estréia será boa, vejo os chapéus se reunirem em locais reservados, para as pessoas que possuem oportunidade de preocupar-se com suas cores. Liana senta na mesma cadeira e sorri, tem sapatos simples e os limpa discretamente. João Carlos vai levá-La ao altar depois da segunda lua de inverno, parece tudo perfeito o bastante para uma vida mortal, onde se arrepender é melhor do que observar uma velhice solitária. E os casais que se odeiam, mas juntos. E a esfera da vida girando em azul. Não, na verdade, não vais casar. Tem dezoito anos, gosta de inventar histórias mortais, onde, no último pingo de chuva de verão, o padre descobrisse que a noiva é viva demais para ser a mesma. Todo o tempo, virando para ela e falando que, em seus sonhos, ela era estátua de louça fria, que caminhava sozinha e causava suplícios. Ela era um suplício, uma graça ao longe cantada nos encontros da senhoras na tardinha, nas vozes das velhas que relembravam uma juventude encantada. E ela era feita disso, de neve, de naftalina e de pedras de rio. Poderia ficar horas lhes observando paradas, transformando-se pelas pancadas e ficando mais belas. Geladas, macias. Como queria tê-las, sorve-las, mas era impossível como ela…quase se entregavam, quase chamavam para o sempre, mas não passavam de pedras de riacho…nunca como barro recém queimado, que ainda lembrava o fofo da lama nas mãos e, no forno quente, as coisas que podem ser domesticadas.
“Não durma agora, disse para seu peixinho de riacho, não durma. Vou contar uma história de uma menina que caminhava na praia e que tinha tudo que é depois, tudo que chega logo. Tudo que parece impossível, como carregar na barriga um ser humano e ter um homem. Era quente quente e quente até o frio, como o vapor tonteante na neve. Como a coceira pós caminhada no vento frio. Era forte e forte seu ventre e suas mãos usadas. De verdade. Ela era tudo aquilo que lembrava a morte, pois cozia e cozinhava repetidamente. E ao ver suas crias crescendo, tinha a coragem de ver materializada sua mortalidade.”
Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags: mortalidade, pedra polida, receio
