Arquivo de novembro, 2008
28/11/2008 - 12:54
dia 28 13 e pouco oh 14
Canso-me rapidamente de ter filhos ao vê-los correrem pelas cadeiras da paróquia. E as meninas, que apenas consigo ver gravidezes, choros e abandono. Ter menina me dói, assim que nasceste minha primeira filha e Sarah disse-me que o útero não agüentaria mais, sorri de alívio. Ela não viu, abraçava sua menina como se finalmente tivesse achado algo que lembrasse sua casa. Era deveras ridículo. Agora se sentiria pertencente a outra coisa então? Eu dizia, em tom de brincadeira, tem filhos mulher!Tem filhos! Mas nada lhe fazia ser menos enjoativa. Decorava as faculdades, decorava seus cadernos e empilhava livros…livros que nunca tinha tido capacidade ou interesse de ler. E eu dizia, “ponha uma boneca e um kit de maquiagem se quer ela feliz.” Ela sorria a contragosto. “Parece que se odeia mulher, não era isso que tu gostava?”
“Tu nunca soube o que eu gostava”, tiro na escuridão, fez virar-me com olhos receosos, como alguém que precisa pegar nas rédeas do cavalo rapidamente, antes este saiba que é controlado. “O que disse amor? Oh amor, é uma menina…é uma menina…Vais crescer e ser o que se é. Tem filhos de monte, não acha que odiarão a menina assim? Tem filhos e um marido, cuidamos de você. Eu cuido da menina, tu cuida….não sei por quê a maior preocupação.”
“Ela não chora Sr, Ela só sorri…e deita no chão, balança as mãozinhas. Nunca chora. As mães vem aqui e me exaltam, falam que sei métodos de bons costumes,..dizem que sou mãe completa. Eu sorrio, enquanto tremem de inveja da serenidade da menina.”
“Oh, claro! Mas que carinha é essa amor? Que carinha? A menina é doce, saudável, não faz desfeita…não não, ela seguirá as palavras. Seguirá o que é bom para se agüentar nesse mundo…”
“Ela…olhe …sim, olhe. Ela te lembra quem Sr ?”
“Alguém? Claro, nós…somos pais dela meu amor…sim, meu amor. Não tenho desconfiança, muito menos ela é menos bonita que tu. Tem meus olhos, é nossa…Não vê, é uma menina, mas é nossa. Ah e parece você…”
“Sim Osvaldo, ela me parece”
“Não vejo ainda o sorriso! Ela é doce, bem comportada, bonita. Parece você, com certeza.”
“Sim, me parece…E olha o que me tornei…”
Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags: comportamento, família, frustração
27/11/2008 - 22:56
dia 27 23 e poucos oh 24
Vou sentir falta daquele dedo que me apontava a dor que escondia. Quando tu escondia todas as coisas que me faziam me sentir bem apenas por segundos possíveis. Você me queria o impossível, eu queria o visível e imediato. Nada de mim te orgulhava, eu sei. Sou verde, imperfeita, como a fruta crua porque não consigo esperar o amadurecimento. Acabo jogando a metade, pois nada é macio como o ciclo completo .
Olha meus olhos e me olha por dentro, olha um pouco mais…assim, te amo, não pelo o que é. Isso é impossível de ver. Te amo pelo o que mostra, tudo aquilo que me machuca de meios melhores que muitos. Nunca me falaste nada além de suas raivas mesmo egoístas. Nunca me prometeu total amor e se foi.
Eu gosto desse sabor de desolação, sim amo. Mas estou mais para esperar algo conseguido, algo que não merecia totalmente…isso não existe…mas que tentei para tê-lo. Tu me veio e com a mesma facilidade te tirei de vista.
Tu e mim, nas pontes, nos lagos…tu e eu, mortais e mortos rapidamente pelos olhos do universo. Pelo olhar da Era, somos qualquer….então, como qualquer somos livres. Não nos olharão com mais vontade pela nossa insignificância. Então pulamos das pontes e mergulhamos nos rios, em nossa vida rápida e pontual como as células deslizando pelo universo sem gravidade.
Não, não seja tão cruel consigo…tu não é especial…tu é sujeira no chão.Não, não isso. Tu é mínima partícula do lixo. Por isso é livre, pois mínimas coisas são impossíveis de se acompanhar.
Estou com vontade de conseguir por tentativas. Não por ninguém ou propósito. Pois ninguém irá me acompanhar, do céu e da terra. Mas sim minhas possibilidades e morais tramitarão em minha cabeça por toda minha mortalidade. Não faço por ti infinito, mas pelos julgadores muito maiores…meus pensamentos.
Ponho te aqui, ó ponto. Não porque me acabam palavras. Mas para mostrar que, com ponto ou sem ponto, nada fará diferença maior que a rapidez e direção de meus dedos. Troco de palavras como troco de conclusões de textos. Troco-te, te levo, te trago de volta. Quase acabo-te. Porque quando lhe der o ponto intransponível já sou finita…já sou bem sucedida…Não nasci para ser sucesso…quase te dou um final, rebelo-me e me acabo rapidamente como a morte dessa célula de dedo que morre. E depois, segundos livres por imperceptíveis, nasce de novo.
Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags: liberdade, segundos, sonhos
26/11/2008 - 10:42
dia 26 11 e poucos
“Lua cheia amarela, estrelas piscantes e apagadas, lua nova, lua limpa, lua inexistente. Sol, que sol? E pessoas, para todos os lados. Tu é minha canção leve e de tom agudo, machuca meus ouvidos quando diz não, mas os fere mais quando se cala. Preciso pelo menos da dor de seu ódio, do seu comprometimento com meus erros. Preciso que ria com seus amigos das minhas humilhações, que eu seja a revolta antes de ti dormir com a mesma calma de sempre. Quero que sinta isso, já que nada mais lhe envolve. Desejo que lembre daquilo que poderia ter ido até o fim, das frases perfeitas atrapalhadas por pessoas ou por meus impulsos, quero que sinta raiva daquilo que prometi e não fui capaz de lhe entregar. Eu não sei o que seria estar no meio, não quero ser a importância morna que todos sorriem e comentam: bem doce, legal até e o que vamos fazer agora? Não me diga isso, não importa o que se seguirá agora. Tu, em outra família e não quero que pense que consigo manter-me sozinha e bem. Preciso que me xingue ás vezes e ache-me a filha errada. Nunca poderia agüentar que tocasse-me levemente e sorrisse sem ação, como se tudo resolvesse por si só.
Porque quero que saiba que quando boto fogo em tudo que estava prestes a dar certo, queria que percebesse que a fogueira não apagou e ela sou eu, em cada momento. Pai, não estou ainda em cinzas, me destruo e destruo em volta, o calor está vivo e não apagará se tu fechar os olhos.”
Lúcia tinha 35 anos.
Lúcia tinha dez anos, uma pinta no canto da boca e vários prêmios de literatura.
E ela amava quando o pai se encontrava com ela, junto de muitas pessoas. Ela segurava sua mão nas pontas dos dedos, a fim de não demonstrar além do que deveria. Olhava para frente e os lados, conferia cada respiração perdida perto dela e suspirava com alívio. O calor das pessoas era sua luz acesa dentre aqueles momentos. Odiava esse sentimento de outra pessoa na mesma, como dizia. Seu coração batia mais forte e seu corpo tremia em vergonha quando lhe via. Seu pai que, em cada passo rápido e confiante dado, lhe dava esperança de de repente tornar-se algo parecido com os outros.
Sentia-se mais adulta que as outras, muitas vezes. Muitas vezes. Porque, mesmo quando ele lhe escondia no quarto de ferramentas e abusava dela. Mesmo quando lhe dizia que aquilo era completamente normal entre familiares. Quando lhe dizia as coisas com voz grossa, com o hálito quente em seus ouvidos e apertava mais partes machucadas de seu corpo de três anos…Mesmo assim, ela sentia que algo poderia ser diferente do que era, que nada poderia ser fechado por si só.
E sim, ela odiava ter nascido com um amor incondicional. Pela ânsia de um pai e uma mãe, que a olhava na verdade, com inveja. Mas desde aquele dia, tudo fazia parte de um projeto maior para seu resto de vida. Nada no mundo e nem ninguém lhe diria que o inerente é vivo e incontestável. Que o nascimento é irreversível. Que todos estão enovelados por uma cadeia intransponível.
E foi assim que ela tornou-se Antropóloga.
Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags: abuso, cultura, família
23/11/2008 - 22:10
23 e poucos…dia 23
Sinto que a estréia será boa, vejo os chapéus se reunirem em locais reservados, para as pessoas que possuem oportunidade de preocupar-se com suas cores. Liana senta na mesma cadeira e sorri, tem sapatos simples e os limpa discretamente. João Carlos vai levá-La ao altar depois da segunda lua de inverno, parece tudo perfeito o bastante para uma vida mortal, onde se arrepender é melhor do que observar uma velhice solitária. E os casais que se odeiam, mas juntos. E a esfera da vida girando em azul. Não, na verdade, não vais casar. Tem dezoito anos, gosta de inventar histórias mortais, onde, no último pingo de chuva de verão, o padre descobrisse que a noiva é viva demais para ser a mesma. Todo o tempo, virando para ela e falando que, em seus sonhos, ela era estátua de louça fria, que caminhava sozinha e causava suplícios. Ela era um suplício, uma graça ao longe cantada nos encontros da senhoras na tardinha, nas vozes das velhas que relembravam uma juventude encantada. E ela era feita disso, de neve, de naftalina e de pedras de rio. Poderia ficar horas lhes observando paradas, transformando-se pelas pancadas e ficando mais belas. Geladas, macias. Como queria tê-las, sorve-las, mas era impossível como ela…quase se entregavam, quase chamavam para o sempre, mas não passavam de pedras de riacho…nunca como barro recém queimado, que ainda lembrava o fofo da lama nas mãos e, no forno quente, as coisas que podem ser domesticadas.
“Não durma agora, disse para seu peixinho de riacho, não durma. Vou contar uma história de uma menina que caminhava na praia e que tinha tudo que é depois, tudo que chega logo. Tudo que parece impossível, como carregar na barriga um ser humano e ter um homem. Era quente quente e quente até o frio, como o vapor tonteante na neve. Como a coceira pós caminhada no vento frio. Era forte e forte seu ventre e suas mãos usadas. De verdade. Ela era tudo aquilo que lembrava a morte, pois cozia e cozinhava repetidamente. E ao ver suas crias crescendo, tinha a coragem de ver materializada sua mortalidade.”
Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags: mortalidade, pedra polida, receio
23/11/2008 - 21:58
22 e poucos…dia 23
O som de sua voz é o som oco, de quando no ladrilho descubro uma falha de construção. É aconchegante e fatídico, já que um toque mais agressivo faria arrebentar a louça. O resto deles tem som ecoante, frio, mas durável. Nós não somos duráveis, tu me amordaça na noite fria e leva de mim qualquer coisa. Quero saber o que, a sensação de algo perdido é pior que a ausência. Não sinta pena, tenho uma dor dentro de mim que não me transcende. Não impregna as pessoas que vejo nas ruas, que ensaiam alguns passos e sorriem rapidamente, para não comprometer-se. É SÓ MINHA, POIS NÃO INFECTO. Percorro sozinha um caminho longo com dor nas pernas, lhes coço. São partes além de mim, tentam mostrar mortalidade. Esqueço e ando. Esqueço até a verdade de minha mortalidade, esqueço mesmo, porque não pode ser verdade que algo que respire vire oco. Aconchegante e fatídico. Respiro o arrepio na espinha que me imobiliza por alguns segundos, passo por ele, sinto pena e assim cumpro meu dever humano. Digo algumas palavras de revolta, viro, olho por alguns segundos e penso: talvez vá morrer sim, talvez eu morra, por a injustiça já mostrar-se na fatalidade de alguém viver assim e só. E só. Não, não estou triste. Levanto o queixo, alguém me olha e vira com vergonha, não consigo me sustentar assim por muito tempo. Volto a mim, pequena, desequilibrada que tropeça entre os próprios dedos, entre os próprios sapatos. Que sapatos são esses? E as flores ao vento, lhes olham. Não são minhas graças-a-deus, senão não saberia como contê-las ou mantê-las em um significado próprio. Quando morressem, o que diria? Era só isso e agora? O que vem agora? Elas morreram, era só isso. Subo no ônibus de muito dias, não odiei cada momento, fui minha e o tropeço foi minha graça. Subo e desço em ônibus ainda viva. Oca, respirante e sem superfície durável.
Autor: stahly@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags: cidade, mortalidade, respiração
Voltar ao topo