Ela era inexistente para mim. E nasceu com três quilos e meio, com um cheiro doce e azedo, num meio de sangue enjoativo das noites de sono perdidas. Eu, que sempre tive gosto nauseante nos lábios, eu mesma que acordava tarde para não sentir aquela tontura da vida… Para adiar um pouco minha falta de sentido. Eu, eu mesma nunca tive um cheiro que me destacasse na multidão, entre as poucas coisas que minha mãe tinha me dito, tinha esta: tu és produto de fora, nenhuma essência, nem ruim que seja, lhe é característica. E assim passei a metade de minha vida tentando criar um rosto, uma cor e uma sensação neste corpo-tela. Mas ela nasceu, graças a algo que não entendo, com fortes marcas. Como uma maldição, portanto, ela não poderia ser mais ninguém. Qualquer alteração lhe entregaria, como uma falseadora. Seus olhos eram, sem contestação, bonitos ou feios. E sei que isto assustaria e lhe angustiaria, pois nunca teria certeza absoluta como estar entre as duas. Mas a marca de ser alguém lhe era mais forte e, ruim ou bom, nunca apareceria sem reação. Ela era, morreria sim, como eu, mas com uma página bem virada…como uma maçã vermelha radiante no meio das outras, podre de um lado e suntuosamente bela de outro. Uma maçã que não é isto ou aquilo, é aquilo e isto. É.

Foi assim até seus primeiros meses, quando vinha me visitar com pequenos cortes na mão. Eu que estava pesada e infectada por tantas noites recheadas de mortos. Eu que já me acostumara com a morte e, por isso, estava perdida como um cão na espera da injeção letal. Mas a diferença tão contraditória é que sabia e, mesmo assim, ignorava os possíveis salvadores entretida: coçando minhas pulgas. Virada para parede, para sempre, sem ao menos vê-la. Enquanto esperava, ela ainda vinha. Com cortes cada vez maiores e com a beleza e feiúra intercaladas nos dias. Nunca lhe disse nada, mesmo sendo algo encantador, nem sorria. Tentava mostrar como não fazia diferença, mesmo com uma biologia louca para demonstrar-se. Era preciso, não poderia esperar qualquer reação, pois poderia ganhar um beijo ou um tapa seguidos. Era própria dela, esta que tinha algo único para olhar-se no espelho.

Se sempre fui bela, não sei. Sei que quando coloria meu rosto, a reação era sempre a mesma. Abraçavam-me, olhavam-me ao longe. Com o tempo, cansei de arrumar-me, pois não faria diferença, era um retrato vazio colorido, mas nada a mais. Até os beijos longos que me davam eram para um manequim que não me alcançava, numa pessoa que eu representava a todo o momento. Tentei testar algumas vezes, fui doce e cruel, todas elas muito críveis. Nunca seria atriz, pois sou assim por natureza, nem mesmo por gosto ou esforço. Ás vezes andava na rua branca e todos que me viam projetavam suas esperanças, arrumavam o cabelo ou cobiçavam minhas roupas, como alguém hipnotizado pelo cabide de uma loja. Foi num dia desses, na praça mais longa da cidade, onde deveria agüentar minhas representações por muitos passos, que a vi sentada no apoio da fonte. Fazia uns doze anos ou treze e, desde muitos que não contei, não tinha voltado. Estava em sua característica feia agora, apoiava a perna e os braços de um modo não-copiável. Continuava sendo, portanto. Porém seus olhos me seguiam com uma ternura. Esperando, talvez, uma reação que também me fosse autêntica. Estava ralada em todos os membros, com cabelos grossos e encardidos. Mas não chorava, como imaginaria. Levantou, deu um passo e levantou os ombros de modo intimidante. Sorri, abaixei os olhos e olhei para a rua.

Ruas são cinza sabe, mas ao mesmo tempo, são rebocadas de várias reformas. E um vapor maravilhoso escapa por elas. Também levantei os ombros para o nada, dei uma tropeçada desajeitada e xinguei baixinho. Sabia que, aquela que era, tinha agido como tal. Entretanto, (essa mesma que sentia e vivia como algo) tinha me despertado algo naquela manhã. Nunca ajudei seu ser, pereceu dias depois como marcada na vida e morte num filme bem escrito, mas se ajudei os outros foi conseqüência: Afinal, aquela menina que existia em constância tinha me despertado mais do que calçadas cinzas e crianças abandonadas, tinha mostrado que, mesmo arranhada e humilhada com sangue, permanecia. E assim, mostrou-me minha verdadeira realidade, quem eu era. O que permanece, seja branco, vítreo ou colorido, sendo quem se é até a eternidade.