acreditar chorando

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02/01/2009 -  22:14     

A única saída

Mariana abotoou o último berloque de sua camisa e era lindo. Um coração metálico circundado por mini cobras negras. Ela mesma tinha costurado, numa blusa branca com seus originais botões brancos e esperados. Bem comportados. E, como dizia sua mãe, bem alinhados para o dia a dia de uma mocinha. Mas não, ela não era uma mocinha. Se ela soubesse quem era, eu te diria que caminhava com tamanho orgulho entre as praças, onde xingavam seu nome. Mas ela não sabia, enquanto apertava o botão escarlate ou qualquer coisa que lhe fizesse destoar da padronização temerosa, seu corpo todo tremia. Vibrava em medo de pequenas coisas, como abrir o portão ou entregar a chave para o porteiro. Não sabia quanto olhar para uma pessoa ou quanto pagar no estacionamento. Tinha medo de todas as formalidades do cotidiano porque não via direito quem era, apostando em objetos e coisas para mostrar-se.  Como o coração metálico desta manhã.

Ás vezes a brisa fina lhe assustava. Ela parava no meio da rua e declamava seus xingamentos mais densos. Mais profundos. Como um poema, quem lhe visse de longe – uma menina morena e pequena, com rosto fino e mãos facilmente quebráveis- acreditaria estar recitando uma declaração de amor. Os outros, que tinham o desconforto de ouvir, afastavam-se com nojo. E um nojo crescente e denso crescia, olhavam-na a partir deste momento como um exemplar a ser alertado. Decorariam seus corações metálicos e seus símbolos como avisos de uma geração que quebrava por alegria e destoavam os alinhamentos de mocinhas e cavalheiros. E ela fingia que ria, maltratava um ou outro, chorava. Porém, caminhava sem nenhum triunfo, esperando que seu amor pelo que não existe finalmente lhe sugasse.

A ninguém é negado o Amor. Como a tristeza. Não sei bem por que, como ela. Mas acredito que certas coisas seriam bizarras além de bizarras se não fossem tocadas pelo dom da paixão. Como o susto e indignação quando o cachorrinho de uma trama de terror humano também morre, choramos nos filmes, porque sabemos que tudo deveria ser tocado pela graça. Até nos vilões, o toque de graça. A possível salvação. Entretanto, se a todos é permitido amar, não seriam aqueles amores de dor profunda e incidida numa luz baseada na autopiedade e apoio. Esses seriam básicos, correspondendo não ao domínio da graça, mas dos erros e aspirações humanas. Este Amor não era uma brisa quente no verão, não era um aperto de mão diante o medo da tempestade. Não eram as borboletas voando, nem o grito fino de um passarinho.

Esse Amor encontrava brecha e oportunidade em algum ponto básico e fertilizador da personalidade das pessoas. Por isso, não era salvador ou decisivo. E por isso, era uma das únicas coisas realmente inerentes na sociologia. Não vou lhe dizer que era um presente, apesar de ter falado leigamente da graça. Era o que era até o fim, pois era o pó que vieste, o sangue frio da primeira visita a terra. Era sim o aperto de mão, os passarinhos, as brisas… Mas era, além disso, o modo distante e forte das coisas que existem sem serem provadas ou cobradas. Mas que impregnam a criação das coisas, que incidem como luz pura queimando tudo,… O doce queimar, da própria conexão entre as coisas. Vivas e não vivas.

 

O botão escarlate refletia na garagem cinza e úmida. As luzes entravam docemente e misteriosamente, como uma caverna. Mariana sorria ao perceber que a natureza era parte não só da vivência do homem, como em suas projeções. Refletia e refletia em carros espelhados, em que ela passava a mão tremendo por momentos. Não olhava para as mãos das pessoas quando falavam com ela, não olhava para seus rostos. Tremia e fingia toda hora que tinha coisas mais interessantes ao longe, onde apertava a mente para não xingar em eco no estacionamento.

Segurou na ponta do vestido, bateu e olhou bem para o homem. Estranhamente, este não alterara seu tom de voz e muito menos o caminho da conversa. Poderia amá-lo ou não. Decidiria isso àquela tarde, mesmo não tendo formulado de modo racional tal contestação. Comportava-se e pensava superficialmente em seus encantos, enquanto o subconsciente tratava de criar teias de culpas, situações platônicas e choros a meia noite. Era um amor de ave de voz fina no lago ou de brisas fortes e quentes.

Seu olhar distante e a parada de sua mente foram o primeiro aviso. A primeira brecha que o Amor inerente achara. Seus músculos estavam todos estáveis e seu organismo trabalhara como nunca em força e esperança. Não porque ela se esforçara por isso e não porque precisara, mas como provisão natural de todos os seres humanos. Quando o homem retirou-se um pouco de sua frente, o Amor inerente pode agir, nas patas velozes e nos dentes afiados de um cachorro raivoso ao fundo. E ela pode ver sua força na direção e sua fome determinante por partes humanas. Ou qualquer carne interessante o bastante para ser engolida, num estômago com fome. O Amor inerente agira bem, o homem a puxara para longe com força e com toda a sensação de amor e segurança importantes só para ele. O Amor poderia destoar-se agora, sem coisas ou objetos, poderia mostrar-se em toda sua graça.

Porque Mariana firmara a perna e largara do homem sem um pingo de agradecimento. Colocara-se a frente das garras e do porte geneticamente modificado para o terror, estendendo à frágil e branca mão em sua direção. Assim, ninguém respirava e ninguém falava mais que suas gargantas secas poderiam agüentar. Mariana pegara na garganta do cão - como só o bravo Amor pode disciplinar - e conversava com uma voz inteiramente nova. Inteiramente sua, portanto. Alisava seu pêlo calmamente, como cantava como criança para os coelhos da casa. Cheiro de sangue, de leite e de alegria, quando os filhotes de coelho cresceram e pode pegá-los sem que a mãe coelha os devorasse. Lembrava de tudo isso e de uma alegria que cortava o coração em duas metades, que respingava em seus outros órgãos secos de doçura. Batia levemente no cão programado para matar e sorria. Sorria, com sua maior arma. Ela mesma.

E quando lhe abordaram quase a espancando de nervoso, de medo e de vergonha, ela respondeu com voz forte… Voz de mãe em ninhada:

- De algum modo, - agora descubro - eu vivi minha vida pelo amor. Ele foi a força que me sustentava, a energia em que girava sozinha nas ruas de casa. Ele é minha força, minha arma. De algum modo, minha vida é determinada pelo fato que ele é minha maior esperança. Para mim, agora vejo, ele é o significado do mundo. Assim, quando o cão negro brilhante, com fome, veio em minha frente, eu só tinha um pensamento: Ou eu lhe curaria com o amor ou Preferiria morrer se, no final, o amor não fosse à única saída.

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26/12/2008 -  22:00     

Sobre o Amor e sua Unitilidade

Você pega um filhote em mãos, um ser que nem é de sua espécie. E ele é macio, morno em contato com sua pele. Todo seu corpo estira em seus braços, aninha-se em completa entrega. Segurança. E você sabe que é um dos maiores erros que ele poderia cometer, sabe que se fosse outra situação faria tudo para alertá-lo. Mas não, seu nariz lisinho, seus movimentos leves te seguem. Mal percebem que normalmente, tu és um predador voraz. E você sabe disso, com toda evolução predadora e necessária. E se pergunta, do que você tem medo?

Eu tenho medo do amor. Ele é sem motivo, inexplicável. Agora possuo um radar sensível dentro de mim. Meu coração pula quando lhes ouço ao longe, todo meu corpo hesita em imaginar suas ausências. Ouço o miado ao longe, sinto arrepio quando chove e estão encharcados. E isso é inútil.

É inútil para um ser que vive menos que eu. Possivelmente, milhas distante, morrerás antes de mim. E meu choro verdadeiro não será amparado, pois os prantos por essa espécie são considerados inúteis. Mas eu choro, eu amo, sinceramente não sei por que.

Eu sei por que. Esse é meu melhor preenchimento e eu sou fraca, frágil. Trago para meu coração um animal que poderia me arranjar doenças. Doenças. Doenças. Pestes. Compras. Vazio. Caminhar. Cansaço. Força. Vontade.

Doenças e medo que não seriam suportados

Sem o Amor.

 

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19/12/2008 -  19:59     

Um sim, como vela e penumbra

- Eu não sou um bichinho. Tu não podes circundar-me de coisas agradáveis e bobas. Não sou seu círculo de paz, que lhe resgatará energias no finalzinho do dia. Deixe-me levantar a mão para isso agora. Veja, estou pedindo, mas não precisava. Tu encaminhas para seus locais prediletos, para sua instituição de amizade construída no silencio e na superioridade. Não sei o que isso, não compactuo com a exclusividade. Com a relevância procedente do elitismo. Veja bem, só meus ombros descobertos te atordoam. E sou uma só… Estou parada aqui, com uma criança que sabe menos meu nome que qualquer uma. E ela é minha. E eu sou daquilo que me criou e se foi, que não pergunta coisas e não me diz um caminho. Nunca ouvi tua voz, mas acredito que seu silêncio tanto em minhas coisas bobas como densas, certifica-me das possibilidades anônimas que sempre manti. De minha dominação silenciosa, de minha vitória esgueirada.

E ele dizia:

 

- O que você diz é essa ave voando levemente pelo ar. É leve, quase macia atravessando na superfície invisível.  Mal sabem que atrás dessa brancura penetrante… que me extasia. Tu, meu deus. Poucos sabem que esgueira os olhos levemente, como uma dança e prepara o bico para o ataque. Viramos os olhos, não gostamos de imaginar em coelhinhos brancos brigando…ou qualquer coisa que se relacione a filhotes e sangue…Mas tudo é sangue e leite, meu amor. E preto e preto como o para sempre. Sempre e mortal. Engraçado, tu dizes. A única coisa eterna é a morte, a mais engraçada delas. Porém, não sou humorista meu amor. Tenho lábios cerrados de terror e ignoro e ignoro, para não me encontrar facilmente com minha possibilidade de morte. Quando vejo os noticiais, tendo dar-lhes um motivo errado e uma distância para seus acidentes, suas tragédias. Quando tomo café penso nisso e quando, sem querer, uma gordura escorre por meus lábios, repito por ser sortudo da morte ter passado essa descontinuidade.

 

- E a criança. Ela não existe para ela mesma ainda. Não que não quisesse. Porém, enquanto por seu nome respondermos, será apenas um ser que cresce para formar suas próprias memórias. Tomara que dê tempo. Tempo o bastante para perceber-se como humano e rápido o bastante para não perceber a dor dessa existência. E dói, dói quando ela prende os olhinhos em pequenas pedras, quando se encolhe com um estrondo. Tantos estrondos e enjôos de pedras, logo não perceberá nenhum dos dois. Será um ser bege e mecânico, andando num mundo não imutável e surpreendente. Queria não amá-La assim,como se pudesse levar uma parte de mim quando se machucasse. Mas a amo, mas não fui mãe suficiente para não trazê-la ao mundo. Para não planejar ter mais uma menina, menino, para este mundo. Poderia ter adotado, criado uma criança que já está infortunamente inserida. Mas não é fácil, não é. O sangue escorre todo mês e tu não vês à hora de se tornar um rosto, um coração com emoções.

 

Com batidas, leite e sonhos como eu. Como seu pai, que também choraria se pudesse fazer isso sem perder-se. Eu posso, eu choro e grito. Aceito. Digo sim tantas vezes. Pois consigo manter minhas partes em mim mesmo assim, consigo resguardar um pedacinho verdadeiro dentro de mim. Intocável. Mesmo se me batessem e eu dissesse que era merecida, minha flor iluminada piscaria dentro de mim… E voltaria nua e virgem como sempre. Pois meu sim não é mais forte, minha voz e meu medo não são mais fortes, do que me tornei.

 

Mas agora vou deixá-la dormir. Quando ele se foi, com todo aquele medo, joguei-me ao caixão em pequenos pedaços. Mas, se voltei é porque sempre voltaria. Forte, porque sempre me fui assim… Para mim mesma. Danço no ar como uma pena doce e delicada. Encontro os corpos como uma leve brisa, como lagarta colorida. Pico levemente, como beijo de amor. E levo a pessoa comigo, toda aquela energia estatelada ao chão, por um veneno imperceptível. Sou sua alergia a coisas inóspitas. E acordo, pego minha filha que é inútil amar, mas que, independente de mim, amo e carrego todo esse corpo macio. Digo sim, sorrio, mas fortaleço um não dentro de mim. Sempre vazias, sempre impenetráveis, aquelas palavras que saem de mim. Porém, sempre crescentes, minhas partes intocáveis e reluzentes.

“Rosana. São três..você sempre erra…são três, não dois. Como pode errar? Eu lhe disse e é óbvio, tudo decorativo é três e você é decoradora. Ligue-me depois e atenda as ligações. Ele ligou mesmo e pediu desculpas. Bem rápido, o pai estava atrás sussurrando, tenho certeza. A Laís aceitou, eu tenho raiva. Você sabe. Ligue-me quando ouvir, porque faz dois meses. Faz dois meses.Beijos e…beijos!”

 

- Eu estou aqui e não lhe respondo. Quero ter uma dúzia de recados quando ele chegar a casa, para dizer-lhe que não morri como o outro. Para dizer que falam comigo, mesmo ele não existindo. Para ele pensar, mesmo sendo só mulheres, que sou tão agradável…tão agradável que alguém possivelmente irá me indicar para alguém. Um alguém que sorrirá e fingirá não ter me encontrado para isso, mas que poderei dizer que fui eu que não gostei. Ele sorrirá, apertará a boca e dirá que já viu uma dúzia assim. Uma dúzia. E eu rirei, porque mesmo que ele esteja mentindo, pelo menos achará que sou de uma elite diferente da dele. Mas não há nada, só essa calma e essa certeza, que lhe direi “sim” e “possivelmente”, mas nunca serão minha total entrega. Ah, a Júlia… Júlia possivelmente ligará de novo, precisa que fale para sua filha não ter outro filho com quinze anos. Ela não quer conseguir falar e sempre sabe que digo Sim.

 

Só por fora, um grande e grave sim. Sim e sim, grito nos ecos dos estacionamentos vazios. Mas quanto maior esse Sim, quanto mais forte, quanto mais inflo meus pulmões para gritá-lo com meu maior fôlego possível. Quanto mais meus músculos da pelve distendem e hesitam na amplitude de minhas falanges. Quanto mais isso atinge como uma luz amarelada no meio e angelical, nevoada, nas pontas… Maior é essa escuridão intocável, grande e profunda é essa sombra. Para sempre minha, densa, negra e impossível integridade dentro de mim. Acendam a vela, machuquem o olhar com tamanha luminosidade e percebam a acumulação também de sua penumbra.

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28/11/2008 -  12:54     

5_2008

dia 28                                  13 e pouco oh 14

Canso-me rapidamente de ter filhos ao vê-los correrem pelas cadeiras da paróquia. E as meninas, que apenas consigo ver gravidezes, choros e abandono. Ter menina me dói, assim que nasceste minha primeira filha e Sarah disse-me que o útero não agüentaria mais, sorri de alívio. Ela não viu, abraçava sua menina como se finalmente tivesse achado algo que lembrasse sua casa. Era deveras ridículo. Agora se sentiria pertencente a outra coisa então? Eu dizia, em tom de brincadeira, tem filhos mulher!Tem filhos! Mas nada lhe fazia ser menos enjoativa. Decorava as faculdades, decorava seus cadernos e empilhava livros…livros que nunca tinha tido capacidade ou interesse de ler. E eu dizia, “ponha uma boneca e um kit de maquiagem se quer ela feliz.” Ela sorria a contragosto. “Parece que se odeia mulher, não era isso que tu gostava?”

 

“Tu nunca soube o que eu gostava”, tiro na escuridão, fez virar-me com olhos receosos, como alguém que precisa pegar nas rédeas do cavalo rapidamente, antes este saiba que é controlado. “O que disse amor? Oh amor, é uma menina…é uma menina…Vais crescer e ser o que se é. Tem filhos de monte, não acha que odiarão a menina assim? Tem filhos e um marido, cuidamos de você. Eu cuido da menina, tu cuida….não sei por quê a maior preocupação.”

 

“Ela não chora Sr, Ela só sorri…e deita no chão, balança as mãozinhas. Nunca chora. As mães vem aqui e me exaltam, falam que sei métodos de bons costumes,..dizem que sou mãe completa. Eu sorrio, enquanto tremem de inveja da serenidade da menina.”

 

“Oh, claro! Mas que carinha é essa amor? Que carinha? A menina é doce, saudável, não faz desfeita…não não, ela seguirá as palavras. Seguirá o que é bom para se agüentar nesse mundo…”

 

“Ela…olhe …sim, olhe. Ela te lembra quem Sr ?”

 

“Alguém? Claro, nós…somos pais dela meu amor…sim, meu amor. Não tenho desconfiança, muito menos ela é menos bonita que tu. Tem meus olhos, é nossa…Não vê, é uma menina, mas é nossa. Ah e parece você…”

 

“Sim Osvaldo, ela me parece”

 

“Não vejo ainda o sorriso! Ela é doce, bem comportada, bonita. Parece você, com certeza.”

 

“Sim, me parece…E olha o que me tornei…”

 

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27/11/2008 -  22:56     

4_2008

dia 27            23 e poucos oh 24

Vou sentir falta daquele dedo que me apontava a dor que escondia. Quando tu escondia todas as coisas que me faziam me sentir bem apenas por segundos possíveis. Você me queria o impossível, eu queria o visível e imediato. Nada de mim te orgulhava, eu sei. Sou verde, imperfeita, como a fruta crua porque não consigo esperar o amadurecimento. Acabo jogando a metade, pois nada é macio como o ciclo completo .

 Olha meus olhos e me olha por dentro, olha um pouco mais…assim, te amo, não pelo o que é. Isso é impossível de ver. Te amo pelo o que mostra, tudo aquilo que me machuca de meios melhores que muitos. Nunca me falaste nada além de suas raivas mesmo egoístas. Nunca me prometeu total amor e se foi.

 Eu gosto desse sabor de desolação, sim amo. Mas estou mais para esperar algo conseguido, algo que não merecia totalmente…isso não existe…mas que tentei para tê-lo. Tu me veio e com a mesma facilidade te tirei de vista.

 Tu e mim, nas pontes, nos lagos…tu e eu, mortais e mortos rapidamente pelos olhos do universo. Pelo olhar da Era, somos qualquer….então, como qualquer somos livres. Não nos olharão com mais vontade pela nossa insignificância. Então pulamos das pontes e mergulhamos nos rios, em nossa vida rápida e pontual como as células deslizando pelo universo sem gravidade.

 Não, não seja tão cruel consigo…tu não é especial…tu é sujeira no chão.Não, não isso. Tu é mínima partícula do lixo. Por isso é livre, pois mínimas coisas são impossíveis de se acompanhar.

 Estou com vontade de conseguir por tentativas. Não por ninguém ou propósito. Pois ninguém irá me acompanhar, do céu e da terra. Mas sim minhas possibilidades e morais tramitarão em minha cabeça por toda minha mortalidade. Não faço por ti infinito, mas pelos julgadores muito maiores…meus pensamentos.

 

Ponho te aqui, ó ponto. Não porque me acabam palavras. Mas para mostrar que, com ponto ou sem ponto, nada fará diferença maior que a rapidez e direção de meus dedos. Troco de palavras como troco de conclusões de textos. Troco-te, te levo, te trago de volta. Quase acabo-te. Porque quando lhe der o ponto intransponível já sou finita…já sou bem sucedida…Não nasci para ser sucesso…quase te dou um final, rebelo-me e me acabo rapidamente como a morte dessa célula de dedo que morre. E depois, segundos livres por imperceptíveis, nasce de novo.

 

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26/11/2008 -  10:42     

3_2008

dia 26    11 e poucos

“Lua cheia amarela, estrelas piscantes e apagadas, lua nova, lua limpa, lua inexistente. Sol, que sol? E pessoas, para todos os lados. Tu é minha canção leve e de tom agudo, machuca meus ouvidos quando diz não, mas os fere mais quando se cala. Preciso pelo menos da dor de seu ódio, do seu comprometimento com meus erros. Preciso que ria com seus amigos das minhas humilhações, que eu seja a revolta antes de ti dormir com a mesma calma de sempre. Quero que sinta isso, já que nada mais lhe envolve. Desejo que lembre daquilo que poderia ter ido até o fim, das frases perfeitas atrapalhadas por pessoas ou por meus impulsos, quero que sinta raiva daquilo que prometi e não fui capaz de lhe entregar. Eu não sei o que seria estar no meio, não quero ser a importância morna que todos sorriem e comentam: bem doce, legal até e o que vamos fazer agora? Não me diga isso, não importa o que se seguirá agora. Tu, em outra família e não quero que pense que consigo manter-me sozinha e bem. Preciso que me xingue ás vezes e ache-me a filha errada. Nunca poderia agüentar que tocasse-me levemente e sorrisse sem ação, como se tudo resolvesse por si só.

Porque quero que saiba que quando boto fogo em tudo que estava prestes a dar certo, queria que percebesse que a fogueira não apagou e ela sou eu, em cada momento. Pai, não estou ainda em cinzas, me destruo e destruo em volta, o calor está vivo e não apagará se tu fechar os olhos.”

 Lúcia tinha 35 anos.

Lúcia tinha dez anos, uma pinta no canto da boca e vários prêmios de literatura.

E ela amava quando o pai se encontrava com ela, junto de muitas pessoas. Ela segurava sua mão nas pontas dos dedos, a fim de não demonstrar além do que deveria. Olhava para frente e os lados, conferia cada respiração perdida perto dela e suspirava com alívio. O calor das pessoas era sua luz acesa dentre aqueles momentos. Odiava esse sentimento de outra pessoa na mesma, como dizia. Seu coração batia mais forte e seu corpo tremia em vergonha quando lhe via. Seu pai que, em cada passo rápido e confiante dado, lhe dava esperança de de repente tornar-se algo parecido com os outros.

 Sentia-se mais adulta que as outras, muitas vezes. Muitas vezes. Porque, mesmo quando ele lhe escondia no quarto de ferramentas e abusava dela. Mesmo quando lhe dizia que aquilo era completamente normal entre familiares. Quando lhe dizia as coisas com voz grossa, com o hálito quente em seus ouvidos e apertava mais partes machucadas de seu corpo de três anos…Mesmo assim, ela sentia que algo poderia ser diferente do que era, que nada poderia ser fechado por si só.

 E sim, ela odiava ter nascido com um amor incondicional. Pela ânsia de um pai e uma mãe, que a olhava na verdade,  com inveja. Mas desde aquele dia, tudo fazia parte de um projeto maior para seu resto de vida. Nada no mundo e nem ninguém lhe diria que o inerente é vivo e incontestável. Que o nascimento é irreversível. Que todos estão enovelados por uma cadeia intransponível.

E foi assim que ela tornou-se Antropóloga.

 

 

 

 

 

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23/11/2008 -  22:10     

2_2008

23 e poucos…dia 23

Sinto que a estréia será boa, vejo os chapéus se reunirem em locais reservados, para as pessoas que possuem oportunidade de preocupar-se com suas cores. Liana senta na mesma cadeira e sorri, tem sapatos simples e os limpa discretamente. João Carlos vai levá-La ao altar depois da segunda lua de inverno, parece tudo perfeito o bastante para uma vida mortal, onde se arrepender é melhor do que observar uma velhice solitária. E os casais que se odeiam, mas juntos. E a esfera da vida girando em azul. Não, na verdade, não vais casar. Tem dezoito anos, gosta de inventar histórias mortais, onde, no último pingo de chuva de verão, o padre descobrisse que a noiva é viva demais para ser a mesma. Todo o tempo, virando para ela e falando que, em seus sonhos, ela era estátua de louça fria, que caminhava sozinha e causava suplícios. Ela era um suplício, uma graça ao longe cantada nos encontros da senhoras na tardinha, nas vozes das velhas que relembravam uma juventude encantada. E ela era feita disso, de neve, de naftalina e de pedras de rio. Poderia ficar horas lhes observando paradas, transformando-se pelas pancadas e ficando mais belas. Geladas, macias. Como queria tê-las, sorve-las, mas era impossível como ela…quase se entregavam, quase chamavam para o sempre, mas não passavam de pedras de riacho…nunca como barro recém queimado, que ainda lembrava o fofo da lama nas mãos e, no forno quente, as coisas que podem ser domesticadas.

 

“Não durma agora, disse para seu peixinho de riacho, não durma. Vou contar uma história de uma menina que caminhava na praia e que tinha tudo que é depois, tudo que chega logo. Tudo que parece impossível, como carregar na barriga um ser humano e ter um homem. Era quente quente e quente até o frio, como o vapor tonteante na neve. Como a coceira pós caminhada no vento frio. Era forte e forte seu ventre e suas mãos usadas. De verdade. Ela era tudo aquilo que lembrava a morte, pois cozia e cozinhava repetidamente. E ao ver suas crias crescendo, tinha a coragem de ver materializada sua mortalidade.”

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23/11/2008 -  21:58     

1_2008

22 e poucos…dia 23

 

O som de sua voz é o som oco, de quando no ladrilho descubro uma falha de construção. É aconchegante e fatídico, já que um toque mais agressivo faria arrebentar a louça. O resto deles tem som ecoante, frio, mas durável. Nós não somos duráveis, tu me amordaça na noite fria e leva de mim qualquer coisa. Quero saber o que, a sensação de algo perdido é pior que a ausência. Não sinta pena, tenho uma dor dentro de mim que não me transcende. Não impregna as pessoas que vejo nas ruas, que ensaiam alguns passos e sorriem rapidamente, para não comprometer-se. É SÓ MINHA, POIS NÃO INFECTO. Percorro sozinha um caminho longo com dor nas pernas, lhes coço. São partes além de mim, tentam mostrar mortalidade. Esqueço e ando. Esqueço até a verdade de minha mortalidade, esqueço mesmo, porque não pode ser verdade que algo que respire vire oco. Aconchegante e fatídico. Respiro o arrepio na espinha que me imobiliza por alguns segundos, passo por ele, sinto pena e assim cumpro meu dever humano. Digo algumas palavras de revolta, viro, olho por alguns segundos e penso: talvez vá morrer sim, talvez eu morra, por a injustiça já mostrar-se na fatalidade de alguém viver assim e só. E só. Não, não estou triste. Levanto o queixo, alguém me olha e vira com vergonha, não consigo me sustentar assim por muito tempo. Volto a mim, pequena, desequilibrada que tropeça entre os próprios dedos, entre os próprios sapatos. Que sapatos são esses? E as flores ao vento, lhes olham. Não são minhas graças-a-deus, senão não saberia como contê-las ou mantê-las em um significado próprio. Quando morressem, o que diria? Era só isso e agora? O que vem agora? Elas morreram, era só isso. Subo no ônibus de muito dias, não odiei cada momento, fui minha e o tropeço foi minha graça. Subo e desço em ônibus ainda viva. Oca, respirante e sem superfície durável.

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28/08/2008 -  19:18     

Ela era inexistente para mim. E nasceu com três quilos e meio, com um cheiro doce e azedo, num meio de sangue enjoativo das noites de sono perdidas. Eu, que sempre tive gosto nauseante nos lábios, eu mesma que acordava tarde para não sentir aquela tontura da vida… Para adiar um pouco minha falta de sentido. Eu, eu mesma nunca tive um cheiro que me destacasse na multidão, entre as poucas coisas que minha mãe tinha me dito, tinha esta: tu és produto de fora, nenhuma essência, nem ruim que seja, lhe é característica. E assim passei a metade de minha vida tentando criar um rosto, uma cor e uma sensação neste corpo-tela. Mas ela nasceu, graças a algo que não entendo, com fortes marcas. Como uma maldição, portanto, ela não poderia ser mais ninguém. Qualquer alteração lhe entregaria, como uma falseadora. Seus olhos eram, sem contestação, bonitos ou feios. E sei que isto assustaria e lhe angustiaria, pois nunca teria certeza absoluta como estar entre as duas. Mas a marca de ser alguém lhe era mais forte e, ruim ou bom, nunca apareceria sem reação. Ela era, morreria sim, como eu, mas com uma página bem virada…como uma maçã vermelha radiante no meio das outras, podre de um lado e suntuosamente bela de outro. Uma maçã que não é isto ou aquilo, é aquilo e isto. É.

Foi assim até seus primeiros meses, quando vinha me visitar com pequenos cortes na mão. Eu que estava pesada e infectada por tantas noites recheadas de mortos. Eu que já me acostumara com a morte e, por isso, estava perdida como um cão na espera da injeção letal. Mas a diferença tão contraditória é que sabia e, mesmo assim, ignorava os possíveis salvadores entretida: coçando minhas pulgas. Virada para parede, para sempre, sem ao menos vê-la. Enquanto esperava, ela ainda vinha. Com cortes cada vez maiores e com a beleza e feiúra intercaladas nos dias. Nunca lhe disse nada, mesmo sendo algo encantador, nem sorria. Tentava mostrar como não fazia diferença, mesmo com uma biologia louca para demonstrar-se. Era preciso, não poderia esperar qualquer reação, pois poderia ganhar um beijo ou um tapa seguidos. Era própria dela, esta que tinha algo único para olhar-se no espelho.

Se sempre fui bela, não sei. Sei que quando coloria meu rosto, a reação era sempre a mesma. Abraçavam-me, olhavam-me ao longe. Com o tempo, cansei de arrumar-me, pois não faria diferença, era um retrato vazio colorido, mas nada a mais. Até os beijos longos que me davam eram para um manequim que não me alcançava, numa pessoa que eu representava a todo o momento. Tentei testar algumas vezes, fui doce e cruel, todas elas muito críveis. Nunca seria atriz, pois sou assim por natureza, nem mesmo por gosto ou esforço. Ás vezes andava na rua branca e todos que me viam projetavam suas esperanças, arrumavam o cabelo ou cobiçavam minhas roupas, como alguém hipnotizado pelo cabide de uma loja. Foi num dia desses, na praça mais longa da cidade, onde deveria agüentar minhas representações por muitos passos, que a vi sentada no apoio da fonte. Fazia uns doze anos ou treze e, desde muitos que não contei, não tinha voltado. Estava em sua característica feia agora, apoiava a perna e os braços de um modo não-copiável. Continuava sendo, portanto. Porém seus olhos me seguiam com uma ternura. Esperando, talvez, uma reação que também me fosse autêntica. Estava ralada em todos os membros, com cabelos grossos e encardidos. Mas não chorava, como imaginaria. Levantou, deu um passo e levantou os ombros de modo intimidante. Sorri, abaixei os olhos e olhei para a rua.

Ruas são cinza sabe, mas ao mesmo tempo, são rebocadas de várias reformas. E um vapor maravilhoso escapa por elas. Também levantei os ombros para o nada, dei uma tropeçada desajeitada e xinguei baixinho. Sabia que, aquela que era, tinha agido como tal. Entretanto, (essa mesma que sentia e vivia como algo) tinha me despertado algo naquela manhã. Nunca ajudei seu ser, pereceu dias depois como marcada na vida e morte num filme bem escrito, mas se ajudei os outros foi conseqüência: Afinal, aquela menina que existia em constância tinha me despertado mais do que calçadas cinzas e crianças abandonadas, tinha mostrado que, mesmo arranhada e humilhada com sangue, permanecia. E assim, mostrou-me minha verdadeira realidade, quem eu era. O que permanece, seja branco, vítreo ou colorido, sendo quem se é até a eternidade.

Enviado por:    stahly@ig.com.br - Categoria: Sem categoria
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