Estudantes com deficiência auditiva do Conservatório Estadual de Música Cora Pavan Caparelli formaram a banda Ab’Surdos
A boa música vai muito além do que percebem os ouvidos. Que o digam os estudantes do Conservatório Estadual de Música Cora Pavan Caparelli, em Uberlândia, vinculado à Secretaria de Estado de Educação (SEE), onde deficientes auditivos formaram a banda Ab’Surdos. Ao lado de três colegas ouvintes, dois intérpretes e três professores de música, 11 jovens surdos se reúnem para interpretar baladas de ritmos variados. Neste mês, eles começarão a gravar um DVD. No último dia 19, eles se apresentaram na II Mostra de Conservatórios Estaduais de Minas Gerais, em Varginha, e encantaram o público local.
Será no estúdio do conservatório o início da produção do DVD e a banda batalha recursos para o restante do projeto. No repertório, canções de artistas famosos da música brasileira, mas a menina dos olhos dos integrantes é a primeira música própria da banda. De autoria do estudante Levy Costa, de 17 anos, a canção “Que Absurdos” fala da realidade que os surdos enfrentam no cotidiano. “A letra traduz meus sentimentos. Eu descrevo o mundo a partir da visão de um surdo, que também possui sentimento, porém, diferente de um ouvinte”, conta Levy.
A banda nasceu a partir do projeto “O surdo: caminho para educação musical”, da professora Sarita Araújo Pereira. Criado em 2001, o projeto atualmente atende 37 estudantes surdos, que podem optar por aulas de violão, teclado, bateria, musicalização, jazz, coral e até desenho. A ideia de fazer esse trabalho de música para surdos surgiu de uma dificuldade da própria Sarita. Ela possui deficiência auditiva parcial desde a infância e encontrou na música uma forma de driblar as dificuldades. “Eu comecei a tocar piano com oito anos. A música é tudo que eu sei e por meio dela fiz várias amizades, é a minha vida. Eu criei esse projeto para que os surdos pudessem aprender música no conservatório”, diz.
O aprendizado é diferente de estudante para estudante e varia de acordo com a audição residual de cada um. Contudo, há um elemento comum no ensino para os surdos parciais e totais: a vibração. Professora de teclado, Gislaine Sousa Silva adotou um método interessante para iniciar o trabalho com seus alunos. Nas primeiras aulas, ela pede que eles fiquem descalços para sentirem melhor a vibração das notas do instrumento. “O surdo percebe a vibração sonora. Então, a gente trabalha muito a parte rítmica e tenta, sempre que possível, utilizar um ambiente que tenha um retorno bom, como um tablado. Outra técnica é sempre deixar as caixas de som voltadas para eles e usar instrumentos que tenham um retorno bom”, explica Gislaine.
E se a questão é a capacidade dos estudantes de absorver o conhecimento musical, a professora não deixa dúvidas. “O surdo usa tudo que tem para conseguir chegar num ponto em que pode se afirmar como músico. A força de vontade deles é tão grande que às vezes se torna mais fácil ensinar para eles do que para um ouvinte”, completa Gislaine.
No caso de Levy Costa, além da criatividade, a tal força de vontade citada por Gislaine também é essencial no aprendizado da música. Que o diga a sua tia, Roseli Ferreira. Ela conta que Levy chega do conservatório por volta das 21h e não para nem para um lanche na cozinha, vai direto para o quarto estudar mais um pouco de teclado. “Há dias em que eu tenho que pedir para ele parar, porque ele precisa do volume alto e, se eu deixar, ele entra a madrugada tocando”, brinca Roseli. “Ele é um jovem muito dedicado e muito criativo. Ele anda com uma caderneta na qual escreve as letras para as músicas da banda”, relata.
Outra estudante destaque, do Conservatório Cora Pavan Caparelli, é Daniele Prometi. Primeira aluna da professora Sarita, ainda com 12 anos, Daniela, hoje com 27, conta que a primeira impressão do aprendizado musical não foi tão agradável. “Foi a minha mãe que me colocou na música e no início eu não gostei. Mas, assim que comecei as aulas com a Sarita, eu adorei. E desde então fui gostando cada vez mais”, explica Daniele, que tem surdez profunda. A estudante integra a banda Ab’Surdos e será a primeira deficiente auditiva a se formar como técnica em música no Conservatório, no final deste ano. Daniela não sabe se vai seguir a carreira musical, mas não hesita em dizer que a música foi uma grande aliada ao longo dos anos. “Eu era muito tímida e a música ajudou para que eu aumentasse minha autoconfiança. Eu quero criar músicas para que os surdos saibam do que eles são capazes”, diz.
Dicionário musical
Uma iniciativa inovadora da equipe da professora Sarita é a criação do dicionário musical para surdos. A partir do trabalho de Dorcelita Barbosa e Marcos Roberto, intérpretes em linguagem de sinais, a equipe catalogou os sinais que representam os símbolos musicais. Segundo Dorcelita, o trabalho baseou-se em pesquisa dos sinais já existentes e até na criação de novos sinais. “A ideia surgiu da dificuldade de comunicação com eles dentro da música. Nós fizemos muita pesquisa e, a partir de conversa com os professores, também criamos sinais que são úteis para o aprendizado”, destaca.
O projeto teve início em 2008 e está em fase de captação de recursos para ser concluído. A expectativa da equipe é de que o dicionário seja lançado já em 2010, tanto numa versão impressa quanto digital. A ideia é lançar um DVD interativo para facilitar a divulgação do material. “Nossa intenção é divulgar nos outros conservatórios e tentar padronizar essa linguagem. Assim, ninguém tem que inventar sinais e fica mais fácil ensinar música”, completa Dorcelita.
Fonte: Minas on-line
http://www.mg.gov.br/portalmg/do/home?op=insertForm